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Ludmila
Abreu
Brasil
vivendo em Praia de Pipa . RN
35 anos . artista

Sempre fui artista e encantada pelas cores, criatividade e possibilidades, mas o mundo acabou me convencendo de que isso não era importante até que a insatisfação com uma vida sem propósito me definhou e precisei reencontrar o caminho da felicidade e motivação. Então, descobri que a intuição é o caminho para a felicidade e segui-la era a única chave para acessar a mola do fundo do poço.

Quinze anos antes iniciei minha carreira profissional como jornalista especializada em fotografia, trabalhei em jornais de grande circulação em Recife, viajei, fiz trabalho humanitário e tantas outras coisas. A fotografia me movia. Neste momento, no auge da busca por conquistar o mundo, resolvemos, eu e Renato – meu companheiro de vida – fazer o caminho inverso da maioria. Saímos da cidade grande, teoricamente cheia de oportunidades, para viver numa vila praiana e já cosmopolita no litoral do Rio Grande do Norte. As motivações foram muitas mas principalmente queríamos criar algo nosso, começar pequeno e construir uma empresa que nos desse a segurança e a motivação que buscávamos para desenvolver e crescer, cultivando a nossa relação e aprendendo a cada dia nessa escola maluca da vida.

A menina sonhadora e criativa ficou sentadinha enquanto a mulher prática e organizada buscava maneiras de ganhar dinheiro. Neste momento, cometi o grande erro de acreditar que arte e emoção eram opostos de empreender e lucrar. Fácil de prever os resultados... A verdade é que tivemos muito sucesso, crescemos muito e desenvolvemos uma empresa extraordinária e lucrativa mas o preço para mim foi mais alto do que os ombros foram capazes de suportar.

Então, depois de dois filhos, depressiva, desmotivada e correndo o sério risco de não apenas destruir tudo o que tinha criado como também desenvolvendo uma série de problemas físicos percebi que não tinha o direito de me matar dessa maneira. Não há uma explicação clara e lógica para descrever como saí de um estado para o outro. Escrevi, li, fiz mapa astral e coach. A mistura de tudo isso, me fez começar a pintar.

Com fácil acesso a materiais de refugo de obra tais como madeira e ferragens, pude utilizar este material como ferramentas para exercer a criatividade. A sincronicidade me levou a conhecer pessoas interessadas em arte e artistas que foram me proporcionando conhecimento e desenvolvimento do trabalho executado. Então de placas simples pintadas em madeira, parti para telas e pintura em tinta acrílica e então esculturas de pequeno e grande porte. Aqui estou, já chegando aos 40 mas me sentindo com 18 recomeçando e desbravando. Quase sempre o medo me sufoca e envaso-o em um cilindro para usá-lo tantas vezes quanto me falte o ar. Disseram-me que o medo era bússola, e acreditei.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Pintura em tela, papel ou madeira utilizando diversos tipos de tinta. Além disso materiais de refugo de obra como madeira e ferragens. Crio esculturas de médio e grandes formatos. As ideias vão surgindo e o desafio é executá-las com o material disponível. A insatisfação com o resultado é frequente enquanto que o prazer em realizar é arrebatador. Sigo repetindo o mantra “antes feito que perfeito”.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Arte, cores e criatividade são a minha maneira de ver o mundo e torna-lo um lugar melhor. Busco a beleza na simplicidade, nos detalhes, e ofereço um produto especial e exclusivo repleto de emoção. O meu propósito é emoção, compartilhamento. Para mim, não há nada mais gratificante e feliz que me emocionar. Sentir as lágrimas ou as gargalhadas virem por algo inesperado ou simples. Por isso acredito que a mágica da vida está em experimentar. A arte possibilita que o espaço se transforme e permite que se torne único. Muito mais que uma tela pendurada, é a emoção que transmite, a energia que desperta e o acolhimento que proporciona. Somente a arte é capaz de tanto.

A arte e a felicidade alheia me inspiram. Quando outras pessoas desenvolvem um trabalho autêntico seja na área de artes, economia, medicina, engenharia... enfim! Isto me faz acreditar que o mundo pode ser melhor e que a felicidade está dentro de cada um. A natureza também é algo muito estimulante, a paz que proporciona e a energia que emana.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Depende do produto a ser executado. Se é uma pintura em tela, papel ou madeira, parto da fotografia. Seja uma pesquisa de imagens na internet ou em livros ou uma foto tirada por mim. Ando pelo mundo fotografando coisas, paisagens, pessoas, tudo que me inspira para pintar depois. Já as esculturas, defino o tamanho e a imagem a ser formada, busco referências visuais em fotos e pesquisas, então recolho e seleciono pedaços de madeira e ferro e monto como um quebra-cabeça no chão. Depois, seleciono a maneira de grudar os pedaços: madeira, ferro, cola, o tipo de parafuso, pregos, as ferramentas necessárias. Em seguida, com a escultura já montada, pregada e firme, inicio a pintura que varia muito de acordo com o tamanho da peça e também do local a ser instalada.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Fotografo, leio, pesquiso assuntos diversos e crio. Me obrigo a sempre fazer algo diferente e desafiador, por mais bobo que seja. Uma ferramenta nova, uma revista nunca lida, uma aula de dança ou até uma comida exótica. Busco ainda a paz, quando a mente está muito cheia nada parece me inspirar, nem ler consigo! Então preciso deixar o mundo em pause e recuperar a serenidade, meditar talvez fosse o caminho para alcançar esse objetivo com mais velocidade mas é uma habilidade que ainda não consegui desenvolver então busco na natureza este equilíbrio. Uma caminhada pelo bosque ou praia, sentar diante das árvores, um lugar silencioso e ao ar livre sempre.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Durante a vida, sempre acreditei que o bom resultado era consequência do esforço, sem esforço seria impossível obter resultado, mas a conotação de esforço sempre envolvia dor. Quando comecei a desenvolver um trabalho com prazer e pelo prazer de executá-lo a dor sumiu e parece que o tempo em executar uma obra deixou de ser esforço e se tornou diversão. Assim, tem algumas telas preferidas porque me surpreenderam em obter um resultado que me pareceu tão bom e sem esforço!

Existe ainda as grandes esculturas que mudam a identidade de um lugar. Uma grande asa de madeira maciça feita com uma montagem de muitos pedaços que, juntos, pesam uma tonelada e ainda inclui uma armação de ferro, instalada no alto da fachada de uma casa mas que transmite uma leveza inacreditável. Tive muito orgulho em obter este resultado e sentir a felicidade dos proprietários do imóvel em tornar a casa especial e única.

As esculturas em madeira me parecem ser um projeto especial, único. Por mais que as pinturas também sejam – ninguém pinta igual – as esculturas são ainda mais exclusivas.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Ainda é cedo para definir um marco considerando a carreira de artista, mas o momento em que decidi iniciar algo completamente diferente do que estava habituada, mesmo sem ninguém acreditar que era possível, foi quando finalmente senti que pertencia a um lugar ou grupo.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho pesquisado muito e há uma infinidade de influências e inspirações, a arte popular e a criação a partir de elementos inusitados ou restritos me impulsionam e se sobressaem em relação a outras referências. Artistas locais como Rafa Santos e também internacionais como Frida Kahlo.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Acredito que preconceitos existem e sempre existirão. Minha experiência de vida mostra que as mulheres precisam de uma força extra para serem aceitas seja em qual área for. Como artista não é diferente. Mas há sempre maneiras de lutar e seguir. Quanto mais exercemos o nosso trabalho, mais força temos.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Arte me faz feliz. Simplicidade. Natureza. Paz. Me faz feliz o que me traz paz, conversar, compartilhar momentos e emocionar-me. Uma vida com sentido é aquela que os porquês estão claros e que vem da alma. Dinheiro não faz sentido se não proporcionar momentos felizes. Viver para trabalhar não faz sentido.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Escute a sua intuição. Ela é o seu guia. Acredite na sua voz.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

A Refugo Galeria está sendo formatada. É uma galeria de arte na Praia de Pipa. Com loja física e acervo composto por obras minhas, de artistas locais e artesanato de alto nível. Além disso, será um espaço cultural com oficinas e espaço para compartilhamento de conteúdo cultural. A primeira exposição acontecerá em meados de Agosto e em Outubro a galeria estará finalizada com acervo variado e peças à venda. Sinto como se fosse o projeto da vida, algo que realmente me representa e me faz feliz.

Ludmila Abreu por Projeto Curadoria
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