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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Lúcia
de Moraes
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
23 anos . artista . ceramista

Eu sempre tive uma veia artística muito forte, desde que eu me entendo por gente, e sempre soube executar muitos trabalhos manuais. Meus pais sempre incentivaram muito que eu me expressasse e isso esteve presente na minha vida o tempo todo. Apesar de já ter estudado pintura, música, costura, desenho, etc, foi na cerâmica que eu comecei a me ver realmente como artista. Não se tratava mais de uma habilidade que eu tinha dentre muitas outras e pronto. A cerâmica me passou a ideia de "ofício", um amadurecimento que quando eu era criança e brincava com tintas não existia ainda. É o entendimento de que esse é o meu trabalho e é uma forma de expressar coisas que eu não consigo falar.

Hoje eu estudo arquitetura, trabalho com urbanismo e concilio tudo com a vida artística, cursos sobre arte, muita leitura sobre o tema, meu tempo no ateliê, o convívio familiar e a vida social. Minha vida é uma loucura, é muita correria e muito cansaço, mas a vivência como artista completou um espaço que era necessário ser preenchido.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Hoje a cerâmica é a minha principal forma de expressão e o ofício que eu invisto mais tempo e energia, mas também me arrisco na pintura, desenho, costura... é um pouco de tudo. Tento me expressar da maneira que eu achar que vai passar melhor o que eu estou sentindo no momento. Algumas coisas eu consigo passar melhor pelo barro, outras pela tinta, outras pelo carvão. Eu nunca fui muito boa em me expressar com palavras, então tive que buscar alternativas para exteriorizar as coisas que eu sinto.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Uma grande inspiração para mim hoje é o meu corpo. Suas formas, seu funcionamento, o espaço que ele ocupa. Aprendi a me observar melhor e a entender sobre mim mesma como corpo ativo, artístico, vivo. A partir dessa consciência eu consigo explorar melhor a maneira que eu ocupo os espaços ao meu redor, a arte se torna uma forma de reafirmar a minha presença, a minha exitência no mundo enquanto corpo humano. 

Por conta disso, as formas mais orgânicas acabam predominando no meu trabalho, a maneira como as peças são moldadas remete às formas do corpo, as curvas, os fluxos, a pele. A exploração desse volume e a criação de um objeto a partir desse corpo, o entendimento de sua potência artística.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo é um pouco confuso. Na cerâmica principalmente, poucas vezes eu sei como vai acabar uma peça que eu estou começando. É muito empírico, eu vou moldando o barro conforme eu achar mais interessante, às vezes no meio da criação de uma peça eu decido amassar completamente um lado ou outro e continuar a partir daí. Mas às vezes eu tenho uma ideia base na cabeça, e então eu faço um croqui bem simples e tento passar para o barro. Eu não gosto de fazer projetos muito complexos pra cerâmica no papel, acho que o barro é um material muito instável, gosto de trabalhar quase numa negociação com ele, puxo de um lado, ele responde de tal maneira e vamos avançando na peça conforme a coisa vai andando. Eventualmente eu preciso fazer uma peça com um princípio mais funcional, como louça, por exemplo, mas mesmo assim gosto de trabalhar com essa efemeridade, essa imprevisibilidade do material.

Eu trabalho sempre em uma pesquisa de forma, até onde o material pode chegar, qual o potencial de cada material e de cada técnica para o meu objetivo e como posso trabalhar em cima disso.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu estudo muito. Estudo história da arte, novos artistas, processos, procuro referências, procuro saber o que os aristas próximos a mim estão fazendo, frequento exposições, cinema, teatro, apresentações musicais. Sou de uma opinião que criatividade não vem de uma ideia brilhante que cai do céu, é necessário ter algum embasamento de conhecimento para que ideias mais concretas possam aparecer e para que essa criatividade possa avançar. Não sou muito adepta à ideia de "talento", acho que é mais estudo, trabalho, prática. Tem muita ralação por trás de uma peça de arte. Demorei mais do que eu gostaria para entender isso, só fui aprender na faculdade de arquitetura e trouxe a prática para o meu processo artístico. Hoje eu separo um bom tempo da minha vida para esse tipo de estudo.

Além disso, pratico meditação para organizar as minhas ideias e conseguir sintetizar algumas delas numa peça ou numa pintura, por exemplo. Muitas vezes preciso parar e entender o que está acontecendo na minha cabeça para conseguir transmutar isso em arte, é necessária essa reflexão, esse momento de respirar.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O meu projeto preferido é o primeiro vaso que eu fiz nessa fase de negociar com o barro, o Vaso 1. Já fazia cerâmica a mais ou menos 6 meses quando criei essa peça. Ele já teve vários nomes, mas gosto de me referir a ele dessa maneira, pois marca claramente uma mudança minha de postura em relação à cerâmica, quando comecei realmente a fazer arte com essa intenção, sem um comprometimento funcional e com uma maior exploração da forma da peça. É uma peça que eu quero guardar comigo, representa muito pra mim, além de ter uma energia muito especial envolvida nela, uma vontade de mudança, de libertação. Sem dúvida essa é a peça mais importante que eu tenho hoje.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Posso dizer que foi a minha primeira peça quebrada. Eu sempre me desanimei diante de frustrações e na cerâmica eu aprendi a lidar melhor com os imprevistos. É muito comum uma peça rachar, não ficar como eu esperava, ter algum defeito, acontece. Na primeira vez que uma peça minha quebrou num estágio inicial da produção eu fiquei arrasada, mas logo entendi que a falha tem um papel muito importante no processo. Entender que algumas coisas fogem do seu controle e que talvez isso seja uma das partes mais interessantes desse ofício foi essencial para o meu processo artístico. 

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu tenho muitos artistas preferidos, não consigo escolher um para essa resposta. No momento estou numa fase um pouco Frida Kahlo, porque estou lendo uma biografia dela. Sou muito fã da Yoko Ono, acho incrível a maneira dela se expressar. Também amo a forma que a Hilda af Klint construiu a obra dela, tive a chance de ver pessoalmente alguns trabalhos em São Paulo recentemente que me inspiraram muito pelas formas e simbologias. Eu uso essas influências mais como estudo e referência. Gosto muito de estudar o processo dos artistas que eu admiro para tentar entender de que forma eles usaram a arte e o que queriam dizer naquele momento. Acho que é dessa forma que isso se reflete no meu trabalho.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe. Ainda hoje muitas mulheres não são levadas a sério no meio artístico, são mal interpretadas, não tem tanto incentivo ou tanto espaço expositivo, é bem complicado. No entanto, eu não sinto muito diretamente esse preconceito ainda, acho que por conta de estar rodeada de muitas mulheres no ateliê que eu faço meu trabalho, lá não há espaço para esse comportamento. 

Por conta dessa minha atividade artística e minha entrada nesse meio serem muito recentes, ainda não me vi numa situação em que eu estivesse sofrendo esse tipo de preconceito, mas tenho consciência de que ele ainda existe, infelizmente.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Hoje, estar equilibrada, tranquila, rodeada por pessoas queridas. Ter meu tempo para descansar, poder dar um mergulho na praia, isso me dá muita felicidade. Não preciso de muita coisa para estar bem, se a vida estiver tranquila pra mim já é o máximo. Aprendi a dar muito valor à companhia das pessoas, aproveitar o momento de estar junto.

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Faça sempre por você mesma. Crie o que você acha necessário ser criado nesse momento, mude o que você acreditar que precisa ser mudado. Não fique buscando aprovação de outras pessoas, a sua aprovação é a mais importante. Com a convicção de que o seu trabalho é válido, de que ele é valioso, de que existe um esforço investido, uma ideia interessante, o reconhecimento acaba vindo naturalmente. Se concentre no que você quer criar, e crie. E pronto. Não precisa tentar agradar mais ninguém além de você mesma. 

Lúcia de Moraes por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Comecei há pouco tempo uma conta no Instagram para mostrar um pouco da minha arte. A conta "_.LUMO, por Lúcia de Moraes", hoje é minha principal plataforma de divulgação do meu trabalho, lá eu posto fotografias que eu tirei, alguns desenhos, pinturas e muita cerâmica. Tudo está sempre em constante construção. Nesse perfil é possível entender um pouco de como funciona o meu processo, posto bastante conteúdo sobre o trabalho no ateliê e as etapas de produção das peças. Além disso, estou terminando algumas encomendas na cerâmica e vou iniciar uma nova pesquisa de formas mais escultóricas e peças novas. Não sei o que vai sair disso ainda, mas eu sempre termino tendo aprendido alguma coisa importante desses momentos de empirismo.

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