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Lorena
Rodrigues
Brasil
vivendo em Alto Paraíso de Goiás . GO
37 anos . artista . tecelã

Na minha história, teci a primeira vez há 13 anos atrás. No mesmo ano também comecei a escrever poemas e textos com bastante intensidade, na maioria das vezes processualmente. Antes disso, lá atrás, como tantas mulheres, fui aquela menina que aprendeu ponto cruz com a avó, crochê com a mãe, ambas também costureiras. Eu sinto que eu sempre amei muito tudo que vem desse mundo dos trabalhos manuais. Eu já chorei ao tocar um bordado delicado. Há poesias que mexem muito comigo e ver uma pessoa tecendo, ver uma foto muito antiga de alguém tecendo, pra mim é como poesia.

Dos 24 aos 29 anos, teci e escrevi muito enquanto tentava cumprir o plano de fazer faculdade de Engenharia Ambiental em Palmas, no Tocantins. Período integral, manhã, tarde e às vezes à noite. Calor infernal, sol lindo, vibrante, natureza que deslumbrava todos os dias. Criatividade chegou a mil por hora, mas pouco tempo para poder fazer tudo que fervilhava a cabeça e o coração. Mesmo assim considero ter sido um período de maior criação e produção.

Larguei a faculdade em 2010, saí do Tocantins e vim morar pela segunda vez em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros (mais por acaso do que por saudade) tendo em mente, funcionar pra valer o tear. Mas surgiram muitas outras coisas no caminho, trabalhos em áreas variadas (durante um período de tempo pequeno, trabalhei como Doula) e o tear ficou em segundo plano mas sempre funcionando com suas urdiduras e suas tramas.

Em 2013 a perda do meu filho Miguel Tiê logo após seu nascimento abalou minhas estruturas, me fazendo ter contato com uma mulher forte, intensa, emocional, visceral. Mas a vida seguiu adiante sem espaço para manifestar toda a criatividade que havia sido despertada. Há dois anos, comecei a sentir o chamado de uma aranha de forma mais forte e só agora, 2017, consegui me empoderar para me dedicar à criações na tecelagem e dar vida à Cloto, nome que escolhi para ser minha marca. Em paralelo, mantenho fortes ligações com a fotografia e também projetos de bordados, arte mais recente a chegar na minha vida.

Atualmente moro numa Ecovila próxima à Alto Paraíso, tenho um companheiro e 04 filhos gatos.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A tecelagem é a minha principal ferramenta. Fios de todos os tipos me ajudam a dar forma para o que estou sentindo. Escrever também é uma forma de me expressar, embora mais delicada de fazer. Eu diria que o tear e a escrita sejam minhas principais formas de expressão.

Recentemente descobri a fotografia como um lugar que eu podia ocupar e potencializar essa energia de auto-expressão, expondo mesmo o corpo nu ou não. Mais recente ainda foi o bordado, que apesar de não bordar desenhos autorais mas sim de artistas parceiros, me dá chances de expressar minhas capacidades. Seria lindo se um dia eu conseguisse juntar a escrita, a tecelagem, a fotografia e o bordado numa coisa só.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu acho que é o desejo de auto-conhecimento, de entender minhas experiências. Através do ato concentrado, tenho contato profundo comigo. Tento me achar, me sentir em cada fio que passo pelos buracos e frestas do pente do meu tear, por exemplo. Por mais simples que possa parecer o trançado a partir de dois fios, algo nisso mostra o que tenho que ver e sentir. Mas me motiva também poder compartilhar e conectar com quem ou com o que está fora da minha bolha. Nesse sentido ou noutro, o a redor que cerca meus processos criativos é o que me inspira. O lugar onde vivo atualmente, com sua natureza tão heterogênea, informal, me inspira muito. Mas desde o início de tudo, quando comecei a escrever poemas e a tecer, as estações da natureza foram e continuam sendo a maior fonte de inspiração. Estações, digo também das minhas, das pessoas e suas diversidades, as mudanças de ciclos que consigo captar, os fatos fortes que acontecem. O que me inspira é a simplicidade e complexidade contida de forma simultânea dos ciclos da vida em todo seu geral. Sempre me pareceu interessante fazer algo com minhas mãos na entrada de uma estação e ver o que acontece.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Começa dentro da cabeça. A maioria das vezes, tenho vislumbres da trama que quero tecer como uma miração, um sonho. Outras vezes, escolho as cores dos fios de acordo com minha necessidade emocional: tem dias que estou para vermelho, coisa de aterrar, de concentrar no útero. Muitas vezes, crio de acordo com o material que tenho, misturo tudo que tiver, gosto de criar texturas, coisa mesmo de passar a mão na trama e ter uma experiência sensorial. Quanto mais variada a matéria prima, melhor meu processo criativo flui.

Cada peça que teço, é um parto pra mim. Envolve paciência para urdir muitos fios, construir cada centímetro da trama num ritmo constante, passar pela ansiedade de ver logo a criação pronta.

Música e silêncio, alternados, e o espaço físico são muito importantes nesse processo. Uma boa música, uma casa bonita e harmonizada, me ajudam e fazem bem.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Atualmente, procuro não parar o fazer. Procuro manter um ritmo diário, um contato direto e constante com o que estou criando. Mas tenho necessidade de garantir a magia (ao meu estilo) na minha rotina. Preservar a poesia no meu olhar é algo essencial no meu processo. Procuro estar aberta ao contato com tudo que possa trazer poesia, beleza, mesmo que seja algo que não seja alegre. Garantir pausas de silêncio também me mantém conectada ao criar. Ver o céu, o por do sol e outras cenas cotidianas do Cerrado, durante o dia, também me mantém à flor da pele.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Na tecelagem, a vivência da Manta é minha preferida. Essa vivência é muito especial: eu ensino mulheres grávidas a tecerem as mantas que aquecerão seus bebês após o nascimento. Quando recebo uma foto logo após o parto, do bebê envolto na manta ou seguro o mesmo com a manta ali, viva nas mãos, sinto meu coração vibrar. Algumas das mulheres que apoiei nessa vivência descobriram que gostam de tecer e isso também é fantástico, passar adiante.

Mas foi nas parcerias em áreas com as quais não tinha muito contato, que tive projetos lindos.

Tenho participação em 3 projetos fotográficos com Melissa Maurer, que recentemente foi entrevistada pelo Projeto Curadoria. Em um deles, escrevi o roteiro e posei para as fotos. Com Mel, tive grandes momentos através da fotografia como forma de expressar e de superar traumas. Em 2014, pedi para Mel me fotografar nua num processo de busca pelo entendimento e aceitação do corpo depois de uma perda. A partir dessa experiência reveladora e transformadora surgiram outros projetos, um deles ainda não divulgado.

Outro projeto preferido é o As Agulheiras, batizado assim pela “dinda” Melissa Maurer, junto com a Luz Guevara, Artista Plástica, Tatuadora, Acupunturista, Shiatsu Terapeuta e professora de Tango (!). Mesmo sem muita prática no bordado, me lancei em bordar suas artes que também são tatuagens e o resultado foi incrível. Esses projetos foram reveladores, me fizeram descobrir muita coisa que eu nem imaginava que poderia fazer e isso é maravilhoso.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive muitos momentos fortes, que me fizeram ser o que sou hoje. Quando completei 30 anos, já tinha morado em 3 estados, feito várias mudanças, viajado pelo Brasil, minhas experiências, as melhores, vieram de escolhas que eu comecei a fazer aos 20 anos, consciente que era completamente dona de mim mesma, autônoma. Em 2013 perdi meu filho logo após seu nascimento depois de uma experiência bastante negativa de violência obstétrica em ambiente hospitalar. Sinto que além dessa experiência ter me balançado ao extremo, ela me alertou para ser quem realmente eu sou. De uma certa forma a tragédia na vida pessoal me inspirou e me impulsionou a dar espaço para a arte, para auto-expressão, algo que dá sentido à existência. Ao mesmo tempo, sinto que estou vivendo esse marco agora. No início desse ano senti fortemente que tinha que me entregar à arte têxtil, aos teares, aos bastidores de bordado. Eu senti que era a o momento decisivo, de só fazer isso, de não ter um outro trabalho (eu trabalhava na época em agência de ecoturismo), de realmente assumir que o que me nutria de verdade era a arte, o fazer com minhas mãos. Acredito que o momento que estou vivendo agora influenciará minha trajetória.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu tenho algumas referências de artistas têxteis que me inspiram. Pessoas que mergulharam mesmo. Silvia Heyden, Lenore Tawney e Misao Jo são incríveis, aranhas poderosas, minhas preferidas. Frida é uma mestra eternamente, com sua história, suas atitudes, suas cores e suas tragédias pessoais que mostraram sua força. Acompanho o trabalho de várias pessoas inspiradoras no bordado e na tecelagem aqui no Brasil. Fora do Brasil, são inúmeras referências. É incrível como ferve essa cena dos fios, das agulhas e dos teares manuais. Mesmo assim, ainda continuo, como no início: inspirada pelas pessoas que desde o início guardam os saberes e fazeres - sertanejas, nativas, ribeirinhas, indígenas, as anônimas, as conhecidas, culturas diversas me inspiram com seus fazeres ancestrais. Me inspiro em quem eu vejo que concretiza o que se propõe a fazer e consegue realizar, manifestar e viver a sua arte. Isso se reflete de uma forma como se fosse uma voz falando “vai, faz, vai!”.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Infelizmente ainda vejo obstáculos. Não sei se estamos perto de chegar num lugar ou tempo onde não haja mais nenhum julgamento ou pessoas querendo controlar a mulher ou seu corpo. Tenho amigas que fotografam mulheres poderosas nuas ou seminuas e tem fotos retiradas de suas redes sociais por serem consideradas ofensivas. Isso impede a vida de fluir. Ainda tem muita gente falando como uma mulher deve ou não se comportar. Apesar de tudo, acho que é um momento positivo porque vejo mais mulheres em evidência, mostrando suas capacidades e seus processos criativos. Eu sempre tive percepção que mulher pode tudo, que é bicho voraz, com apetite. De uma certa forma isso me abre caminhos. Sou eu também a responsável por ajudar a abri-los.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Atualmente, ter tempo e espaço para criar e produzir. Ter autonomia para fluir pelos dias, mergulhar mesmo no processo. Há possibilidades nisso que me deixam feliz, animada. Viver e morar no Cerrado hoje também me faz feliz.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Procuro eu mesma essas dicas, mas me parece ser uma boa trilha se entregar e buscar manter vivo o que nutre a alma, o coração. Alimentar, sustentar essa entrega. Acho que também acreditar em si mesma e ser fiel ao que se propõe a criar, por mais obstáculos que se tenha.

Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
Lorena Rodrigues por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Na tecelagem, preparo uma coleção de mantos chamada Todo Manto tem Poder. Na fotografia, tirar o ensaio Estações, em parceria com Melissa Maurer, de dentro da gaveta. E no bordado, estou animada para bordar as Deusas desenhadas pela Luz Guevara.

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