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Liz
Under
Brasil
vivendo em Salvador . BA
21 anos . artista

Sou uma artista visual paulista, mas atualmente moro em Salvador, onde pinto todos os dias e trabalho nos meus projetos em meu ateliê.

Eu sempre desenhei e pintei muito, desde pequena, mas o que definiu mesmo o meu estilo atual e minha “obsessão” por splashes foi quando eu rabiscava sem dó alguns livros do Da Vinci e do Van Gogh, da coleção Gênios da Arte. Isso me ajudou não só a me encontrar graficamente, mas poeticamente. Acho que eu estava tentando falar sobre as questões acerca da supervalorização do clássico, do tecnicamente “perfeito”, do virtuosismo, da não-aceitação do novo. Aliás um tema muito atual, levando em consideração os recentes ataques conservadores a artistas e exposições de arte contemporânea.

Acho que cada splash que eu pinto é um sufoco a menos, um grito     guardado há muito tempo, transformado em arte.

Liz Under por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu sou muito versátil, gosto de experimentar um pouco de tudo, acho até que meu estilo pessoal é meio fragmentado nesse sentido. Minha ferramenta favorita é a pintura, em especial acrílico sobre tela, trabalho muito com stencil , arte-objeto, mas também gosto de escrever, para falar tudo que está entalado, depois junto tudo em fanzines que eu mesma ilustro.

Já meu estilo tem características da Arte Pop. Gosto de trabalhar contrastes entre uma pintura mais convencional, que estampa toda a superfície da tela, e acrescentar algum elemento que interfere em sua harmonia, no caso, o splash de quadrinhos. A pintura mais convencional não aceita tais características, as cores chapadas, as pontas amarelas e vermelhas tomando conta da obra. O splash é um elemento gráfico que impacta com o realismo e a efetividade formal da obra, é recorrente e essencial no meu trabalho.

 

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

O próprio fazer artístico já me motiva. O ato de me expressar, pra mim, é um ato político de transgressão social.

Eu não tive (e ainda não tenho) uma relação muito boa com a escola e as instituições, onde o conhecimento se prende e não se espalha. Chutei alguns baldes, por exemplo, o da faculdade. Fui aprovada no vestibular para Ciências Sociais, mas não quis saber. Fui fazer arte por aí. Acho que isso me move e me inspira. Acredito em não se prender, não se deixar calar ou deixar de se expressar, deixar de ser você, porque é exatamente isso o que querem de nós. Não pode existir gaiola que nos sirva.

Liz Under por Projeto Curadoria
Liz Under por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Primeiro eu coloco algum som bacana, geralmente Funk Soul, Jazz, Blues, Rap. Ultimamente tenho ouvido muito Sistah Chilli, Alice Russel, Sharon Jones e Sabotage (o rapper). Enfim, jogo minhas tintas no chão e vou pintando.

Pra mim é assim que tem que ser. Tem que ter bagunça criativa, tem que ter movimento, não sou do tipo que se motiva trabalhando numa salinha de paredes brancas, sentadinha em frente ao cavalete ou à tela do computador. Isso me traria, no máximo, sono e lembranças terríveis da época da escola.

Fora isso, faço muitos sketches, gosto de estudar o que estou fazendo ou pensando em fazer. Estou sempre pesquisando por trabalhos de artistas recentes, mas principalmente, como base do meu trabalho, obras de velhos artistas, por exemplo, do realismo americano, como Norman Rockwell, Edward Hopper, e da arte publicitária americana dos anos 50, Gil Elvgren, o brasileiro Benício, Zoe Mozert, enfim, pego tudo e desconstruo, sempre. É assim que consigo meus insights.

Liz Under por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Música! Sempre. Coloco o som lá no talo e pinto, trabalho com toda essa energia que me vêm. Música é sem dúvida aquilo que move meu trabalho e minha vida, minha maior inspiração.

Para eu me manter criativa, o mundo tem que sumir lá fora, minha casa inteira tem que ficar coberta de subjetividade. Coloco música, bagunço criativamente meu ateliê e só vou. Um artista que tinha um comportamento semelhante era o Pollock. Mas se tem uma cena que me vêm à cabeça mesmo quanto a esse tipo de comportamento criativo é uma do filme “Barfly”(baseado numa obra do Bukowski) onde o personagem Henry Chinaski, que é escritor, coloca Beethoven para tocar enquanto ele trabalha nos seus textos.

Liz Under por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito da minha série “#BelasRecatadasedoLar”, onde retrato super-heroínas marginalizadas e prostituídas. São stencils feitos em telas pequenas, para servir de metáfora à boneca Barbie, Suzie, ou seja, “mulheres” pequeninas, padronizadas e encaixotadas para serem vendidas. É uma crítica à representação objetificada da mulher na cultura pop, lógico, a expressão do “presidente” não poderia estar de fora, não tem nada mais pop e machista que ele.

Outras que eu gosto muito são “Fragmented with Pizza”, um painel de madeira cuja a arte foi feita com colagens com algodão cru, pintura a óleo e acrílico, além de spray. Gosto desse porque foi resultado de um furor criativo, uma coisa expontânea, sem planejamento.

O “Promoção 50%” foi outro furor criativo. Um painel de dois metros e meio que foi feito ao vivo na “Feira do Meio”, quando rasguei e grampeei um banner que eu ganhei de uma amiga, nele dizia exatamente “promoção 50%”. Apliquei um stencil da Mia Wallace, personagem do filme Pulp Fiction. É outra crítica à representação da mulher na cultura pop.

Gosto também do “Ponta de Humaitá” e o “Farol de Itapuã”, dois acrílicos sobre tela que retratam partes de Salvador. Fazem parte de uma série sobre invasão cultural norte-americana na América Latina.

Liz Under por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Aos 20 anos eu expus com artistas do mundo dos quadrinhos, entre eles Luciano Salles, Sebastião Seabra, Lucas Lima e o Hquê? Grupo. Foi muito importante pra mim, porque eu estava começando, tinha várias pinturas, uma série finalizada e não sabia o que fazer com aquele material numa cidade do interior paulista. Então eu fui chamada para essa exposição, a convite da artista Euzânia Andrade, em seu espaço Arte 220.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minhas influências são variadas. Tenho estudado muito estética. Vargas Llosa, com seu livro “A civilização do Espetáculo”, me inspirou numa série inteira sobre colonização cultural na América Latina. Livros do Gaiarsa e a teoria do script de vida do Eric Berne são coisas que também me inspiram muito, inclusive na minha vida pessoal. A leitura é essencial para um pensamento crítico e mais maduro na hora de planejar e fazer uma obra.

Mas se tem um cara que me inspirou muito nessa vida, esse cara é o Banksy. Eu tinha 18 anos quando vi Exit Through The Gift Shop, um documentário que o artista dirigiu sobre Street Art e, por que não, Guerrilla Art. Na época, eu tinha um trabalho que era apenas gráfico, sem mensagem e sentia que faltava alguma coisa. O trabalho e a mensagem desse artista me mostrou que, se o mundo não é horrível, ele é no mínimo, ridículo. Vamos nos expressar, não dá pra ficar vivendo de quadrinho de pôr-do-sol não.

Liz Under por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Acredito que exista preconceito e que provavelmente sempre irá existir, infelizmente. Mas me resta uma ponta de esperança sempre. O patriarcado faz de tudo para impedir as ações da mulher trabalhadora, seja no que for. No meio artístico isso é muito presente, até porque o homem sempre faz de tudo para se apropriar e dominar, marcar território de qualquer área que nem cachorro mijando pelos cantos.

Mas acho que o estigma me traz força. Eu fiz uma série de fotos para minhas redes sociais onde eu cubro meu corpo nu com um dos meus quadros. Obviamente que houve muito assédio, mas me fez pensar que o corpo da mulher é um espaço de revolução, de transgressão, estigmatizado por tabus e medos, isso me inspirou a querer explorar mais o tema no meu trabalho. Logo eu vou ter mais novidades.

Mas um outro problema em questão é o da exclusão social da mulher no espaço de trabalho e em eventos sociais como exposições, enfim. Se um ambiente tiver pelo menos alguns poucos homens, pronto, a mulher não deve ser ouvida, não deve ser levada em consideração, às vezes são tratadas como crianças, principalmente se tiver minha faixa de idade, e, muitas vezes, sofrem o que chamamos de man-explain. Isso atrapalha, por exemplo, na hora de fazer um networking ou até discutir algum trabalho em grupo. Na verdade isso atrapalha o trabalho da mulher de uma forma geral, é péssimo. Já passei por muito disso, inclusive e principalmente com artistas homens bem-sucedidos.

Mas eu vejo esperança ao ver as mulheres resistindo, dominando geral seu espaço, que é delas por direito básico. Quando elas resistem, eu resisto também, e vamos vivendo assim, mesmo que incomode. E é para incomodar.

Liz Under por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Não ligo para bens materiais. O que me faz feliz é quase nada. Minha casa só é uma casa mesmo na parte da cozinha e do banheiro, de resto, é meu ateliê. Gosto de tudo aquilo que o sistema e a pressão social não pode me roubar: a liberdade e até um pouco dessa loucura consciente. Isso me custou muito caro, então eu valorizo cada segundo da minha vida.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não tenham medo de criar. Criem e danem-se os outros. Como diria Yayoi Kusama, “obliterem-se” nas suas obras. Criem até sentir aquela sensação de que o mundo sumiu lá fora – é mais ou menos isso o que ela quer dizer com “obliteração”. Depois abram a porta e escancarem suas obras para o mundão.

Acho que o negócio é sempre meter o dedo na ferida. Ainda mais nos tempos atuais.

Liz Under por Projeto Curadoria
Liz Under por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou nos retoques finais de um livro infantil feito em conjunto com o cartunista Jota Junior, chamado “O Queijo que Queria ser Goiabada”, sobre pessoas trans, diversidade de gênero. Eu fui responsável pela ilustração e concepção artística. Será lançado pela Editora 42 a partir de um crowdfunding no Catarse.

Fora isso, eu trabalho continuamente nas minhas pinturas, nesse caso não há nada de novo. Agora mesmo estou desenvolvendo uma série fotográfica, vai rolar splashes, muitas cores, tudo bem “chegay”. Além de um projeto de instalação/performance de rua que eu comecei com alguns experimentos ainda lá em Araraquara, minha cidade natal. Nesse processo de experimentação eu procurava acidentes urbanos, como por exemplo postes quebrados e jogava tinta vermelha. Eu sangrava a cidade, em nome de todos que ela sangra todos os dias.

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