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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Lívia
Lopes
Brasil
vivendo em Belo Horizonte . MG
32 anos . ceramista

Sou de Belém do Pará e muito grata à minha infância na Vila dos Cabanos, entre a capital e a Ilha de Marajó. Na adolescência, me mudei para Belo Horizonte. Já morei em vários países e tive contato com diversos tipos de manifestações culturais e artísticas durante toda a minha vida, sendo a cerâmica marajoara a primeira de que tenho memória. Em todos os lugares por onde passo sei que “deixo e recebo um tanto”.

Criar sempre foi algo natural. Lembro que adorava fazer bijuterias para vender na escola e antes mesmo de aprender a escrever, ditava histórias para os meus pais. Sempre gostei de escrever e desenhar e tive experiências com pintura, tapeçaria, fotografia, moda, teatro e música, além de ter dançado balé clássico por literalmente uma década.

Venho de uma família atuante politicamente e ter observado desde cedo grandes desigualdades sociais, em especial no Pará e entre Norte e Sudeste, me levou a cursar Ciências Sociais e Relações Internacionais. Fiz os dois cursos simultaneamente e só havia tempo para ser mental. Cresci imensamente, mas senti muita falta do fazer artístico a que estava habituada.

Numa tentativa de unir meus interesses, quis prestar concurso para diplomata e atuar juntamente ao Ministério da Cultura de modo a promover a valorização das manifestações artísticas e culturais tão diversas e incríveis que existem no Brasil. Mas algo ainda faltava, criar me fazia falta e sentia que não estava seguindo plenamente meu propósito.

De repente, meu pai ficou muito doente e a vida mudou completamente. Nesse período, em 2015, finalmente escutei o chamado, já antigo dentro de mim, e comecei a fazer cerâmica. Um grande sentimento de pertencimento aflorou. Em 2017 criei a lilo, marca de objetos feitos à mão com afeto e argila. A lilo nasceu assim, com as mãos no barro. Chamado interno de deixar fluir, pelos dedos, o que guardado estava, ansiando por formas de se fazer vivo. Viva!

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Qualquer coisa. Sempre gostei de escrever e desenhar, lápis e papel são grandes aliados. Utilizo também nanquim, tintas e papéis variados e fotografias. Tenho gostado muito de explorar o universo das colagens. A dança é outra paixão; o corpo fala sem dizer uma só palavra.

Mas, a ferramenta que mais utilizo é mesmo a argila, de diversos tipos e cores, além de matérias primas como óxidos e pigmentos. Há muitas maneiras de se expressar através da cerâmica, partindo da modelagem totalmente livre ou utilizando a técnica de placas por exemplo. Na lilo, geralmente utilizo o torno e desenvolvo objetos decorativos e utilitários.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Uma das coisas que mais me motiva é a vontade de colocar pra fora o que não cabe muito bem dentro de mim, deixar transbordar e transmutar. Às vezes é algum peso, uma espécie de melancolia, que no fazer artístico se torna mais leve. Outras tantas vezes é algum brilho, sensação de pertencimento e unicidade, vontade de partilha.

O resgate da minha conexão com a terra através da argila, a vivencia dessa espiritualidade e da minha relação com o divino, tanto causa quanto consequência de processos de autoconhecimento, são igualmente grandes fontes de motivação e inspiração.

Muitas coisas me inspiram. Literatura, cinema, música, conversas, natureza, gente. Tem muita gente com iniciativas bacanas por aí, como o próprio Projeto Curadoria e as mulheres retratadas. Essas mulheres me inspiram, assim como fazer parte de um movimento por um mundo melhor, com formas mais empáticas de se relacionar e produzir, sem tanto desperdício e consumo, de coisa e de gente.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Bastante intuitivo. Tento entender o que meu corpo pede, minha mente me diz e meu espírito me intui. Assim vou sentindo para onde devo ir. Tenho dificuldades com disciplina, mas, em relação à lilo, desenho formas e penso combinações de cores e usos. Procuro estudar um pouco, pesquisar e buscar algumas referências. Na verdade, acho que há referências em todo lugar o tempo todo e tudo o que nos cerca exerce algum tipo de influência sobre nós.

O trabalho mais físico vem em seguida. No caso da cerâmica, testo e vejo se o que imaginei dá certo na prática, na matéria. Tem coisa que funciona de cara, mas tem também muita tentativa e erro. Mas às vezes não acontece dessa forma, e sim ao contrário. Começo da prática, sem uma ideia muito definida, e tudo vai tomando forma no decorrer do próprio processo. É bem dinâmico.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Coisas que busco fazer normalmente para alimentar minha alma, como meditar, ler e me relacionar. Tento ponderar sobre as coisas fugindo de respostas prontas. Se uma opinião já está consolidada ao meu redor ou em mim, me desafio a pensar como seria se fosse ao contrário ou por outro ponto de vista. Muitas vezes é um exercício difícil. Tendemos a ver as coisas da nossa perspectiva apenas, mas a vida vem e nos mostra que é preciso relativizar. É algo muito libertador.

É preciso abrir o espírito para os fluxos da vida e para as lições que ela e outras pessoas trazem para nós, mesmo que não sejam todas muito prazeirosas a princípio. Também sei que preciso de serenidade e alguma solitude. Correria demais me tira do eixo e, ao me sentir pressionada, não me sinto livre para criar. Procuro manter minha sanidade mental nutrido minha conexão com o universo que habita dentro e fora de mim.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Sinto-me como uma criança que tem tanto ainda a aprender e fazer e cada trabalho ou projeto guarda suas peculiaridades e é especial a sua maneira. Um projeto pelo qual tenho grande carinho e que me vem logo à cabeça, talvez por eu tê-lo interrompido e sentir que ainda preciso retomá-lo, chama-se Dante. Uma série de esculturas figurativas não totalmente realistas de seres humanos que emergem de suas próprias sombras. É um trabalho importante para mim, pois, além de esteticamente interessante, representou uma espécie de catarse que me ajudou a superar a depressão durante um momento difícil da minha vida.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Iniciar na cerâmica foi um grande marco para mim, e foi algo catalisado por um marco importante na minha vida pessoal. A doença do meu pai me mostrou que é preciso ir fundo em si mesmo. Tive que olhar para dentro. Os momentos de crise tem esse poder, se a gente se permitir escutar. Desde então aconteceram vários outros pequenos-grandes momentos emblemáticos, como o amigo que acompanhava minhas descobertas cerâmicas e pediu o que foi então minha primeira encomenda. A partir daí vi que era capaz de fazer peças maiores e mais desafiadoras.

Lançar a lilo foi importante. Foi um passo rumo ao desconhecido, foi acreditar e colocar meu trabalho de fato no mundo, aos olhos e mãos dos outros. Minha primeira grande encomenda e parceria, de canecas especiais para marca de chás artesanais Chá Bless, foi um momento muito celebrado. Entrar para o processo de aceleração de produtores locais da Mooca, um marketplace colaborativo do qual sempre fui fã, foi mais uma alegria e indicador de estar trilhando meu caminho.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minhas influências e inspirações vêm de campos variados, não só da cerâmica e tampouco apenas de artistas ou nomes conhecidos. Admiro quem tem a coragem de se mostrar e se colocar no mundo. Alguns nomes para mim emblemáticos, de épocas e contextos completamente distintos, são Sylvia Plath, Pina Bausch Frida Kahlo, Basquiat e Van Gogh. Acho a obra e vida desses artistas de uma verdade e força incríveis. Também são grandes fontes de inspiração os multidisciplinares Lygia Clark, Tunga e Adriana Varejão, com seu espírito questionador e subversivo e sua utilização de materiais e processos tão diversos.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sinto que ainda há preconceito em relação às mulheres se expressarem livremente em todas as esferas da vida. Não é preciso ir longe para perceber que vivemos em uma sociedade machista. Apesar de não sentir preconceito especificamente ligado ao fato de ser uma ceramista mulher, sinto que tudo o que fazemos precisa ser validado e revalidado pra ser considerado, como se precisássemos provar nosso valor o tempo todo.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Essa é uma pergunta curiosa. Tenho tentado me desapegar do conceito de felicidade usual na sociedade, como algo externo a nós mesmos. Não vejo a felicidade como um lugar a se chegar, tampouco que algo ou alguém tenha o poder de nos fazer felizes. Creio que a felicidade é algo que vai muito mais de dentro pra fora do que de fora pra dentro. Ficamos alegres ou tristes com determinadas situações, mas tudo isso vem de nós mesmos e de nossas próprias projeções. Está muito mais relacionado ao modo como escolhemos encarar a vida.

Acredito que tudo está conectado e que até mesmo das piores situações é possível tirar bons e necessários aprendizados. Acredito no exercício de um contentamento perene, com a vida e com os aprendizados que cada trajetória trás. Apenas ser e reconhecer-se como parte de um todo maior que a soma das partes, mas igualmente trazer o universo inteiro também dentro de si. Levo comigo o aprendizado de que não é preciso estar sempre tudo bom para estar tudo bem.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não ter medo. Ou melhor, reconhecer que o medo às vezes existe, mas não se identificar com ele, pois ele não nos define e ele se retroalimenta; medo gera mais medo. Quando escutamos nossa voz interior e sentimos nossa verdade é quando conseguimos ultrapassar o medo e enxergamos que somos sim capazes. Todas somos multipotenciais e guardamos um mundo de possibilidades e aptidões dentro de nós.

Lívia Lopes por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou aprendendo a empreender e espero em breve me mudar para um ateliê maior, compartilhado com outros artistas, um projeto que já está rolando há algum tempo. Também estou no início do curso de Artes Plásticas (sim, uma terceira graduação!) e pretendo me aperfeiçoar na cerâmica, expandir meus limites e explorar novos processos e materiais. No mais, é cuidar desse grande projeto que é a vida! Quando penso na minha, tão pouco linear, sempre me lembro de algo que meu pai me disse um dia: “nada é tempo perdido, tudo é conhecimento acumulado”.

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