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Letícia
Mazzo
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
24 anos . arquiteta . bordadeira

Eu sou a Letícia, nasci e sempre morei em São Paulo. Me formei em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade São Judas Tadeu e foi após quase um ano de formada sem conseguir trabalho na área, que por total influência da minha irmã Juliana, comecei a bordar. Até então, só tinha me aproximado de trabalhos manuais quando era criança e uma tia tentou me ensinar crochê (mas eu não tinha paciência, rs) e quando fazia maquetes na faculdade.

A Jú insistiu que era legal, mesmo eu dizendo: “mas bordar? sério?”, e me ensinou os primeiros pontos. Me apaixonei! Comecei a estudar mais, fazer cursos, então, poucos meses depois, nasceu o Estúdio Hermanas, onde juntas unimos bordados e caligrafias.

Hoje, é engraçado perceber que no meu trabalho final de graduação, nada consciente sobre meu envolvimento com bordado no futuro, escolhi estudar e realizar intervenções em uma antiga fábrica de tecidos. Acho que já era meu lado bordadeira se manifestando, eu só demorei um pouquinho para perceber.

Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Utilizo principalmente lápis, papel, agulha, linha e tecido para me expressar através do desenho à mão e do bordado.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Acho que os desafios que cada trabalho traz são motivadores. Sair da zona de conforto não é fácil, mas me faz evoluir. Um desenho mais complexo, proporções maiores do que de costume... A reação das pessoas ao ver um trabalho concluído, o feedback e a maneira como as toca também me motiva e me dá vontade de continuar.

Para mim, inspiração vem de muitas fontes: conversas, pessoas, músicas, leituras, memórias, lugares, Instagram, Pinterest...

Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo geralmente envolve muita pesquisa de referências, escrita para organizar as ideias, rabiscos e desenhos à mão. Imagino como ficará o bordado, quais pontos podem ser os melhores, a paleta de cores...

Mesmo com a minha formação em arquitetura, para mim o desenho estava mais ligado à representação de projetos. Em poucos momentos desenhava de forma mais livre. Tenho exercitado bastante esse lado para criar as ilustrações que bordamos.

A Jú e eu compartilhamos e nos falamos bastante nesse processo. Uma sempre pede opiniões e sugestões para a outra. Nem sempre é fácil, mas procuro me manter aberta e acho importante receber outra visão. A liberdade que temos entre nós é uma aliada.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Acho que para me manter criativa eu preciso estar ativa, quero dizer, atenta, observadora, aberta para coisas novas acontecerem e sempre anotando ideias, fazendo croquis, mesmo que na hora não pareça ter tanta relevância. Gosto de rever essas anotações depois e sempre tiro algumas ideias. Acho importante também ter momentos de ócio para aliviar a mente, me distanciar e quando retomar o trabalho, conseguir me reaproximar observando por outros ângulos.

Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meu projeto preferido é o bordado que fizemos para exposição “Bordando São Paulo”, organizada pela Maria Celina Gil. Cada artista escolheu um bairro ou lugar da cidade significativo para si e se expressou através do bordado. Minha irmã e eu escolhemos a Mooca, bairro especial para ambas, porque a Jú nasceu e hoje frequenta bastante o bairro. Eu fiz faculdade e realizei diversos trabalhos acadêmicos na Mooca durante 5 anos. Nesse tempo fui me apaixonando pela história do bairro e das pessoas.

Deu muito orgulho e foi desafiador, pois criamos do zero. Toda a concepção desde o formato, desenhos, caligrafias e a linguagem que utilizamos para expressar a diversidade e transformações que enxergamos no bairro.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Com certeza foi quando a Jú e eu decidimos criar o Estúdio Hermanas. Eu estava bastante frustrada por não conseguir trabalho na minha profissão. Em 2015 me vi cheia de afazeres e muito produtiva, com faculdade e estágio. No ano seguinte vivi exatamente a situação contrária. Sentia falta de fazer algo por prazer, com que me identificasse e que fosse uma forma de expressar o que estava sentindo. Quando a Jú, buscando se reaproximar de trabalhos artísticos e manuais, conheceu e logo em seguida me apresentou o bordado, vimos uma possibilidade de retratar juntas temas que gostamos. Nos empenhamos bastante para ter uma identidade, elaborar peças e divulgar nosso trabalho no fim de 2016. Desde então, o Estúdio me trouxe muitas experiências novas, como participações em feiras, me fez olhar pra dentro e enxergar em mim capacidades e vontades que mal sabia que tinha. Me deu ânimo para ampliar os horizontes e perceber novas possibilidades.

Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Me inspiro em artistas de diferentes áreas. No bordado, algumas referências são os trabalhos desenvolvidos pela Celina Gil, Cami Belô, Clube do Bordado, Juliana Mota, Priscila Casna, Priscila Sasaki, Caitlin Benson, Sarah Benning. Na ilustração gosto dos trabalhos da Brunna Mancuso, Giselle Quinto (também bordadeira), Kirsten Sevig, Katie Wilson, Ricardo Liniers. Na arquitetura, acho os desenhos do João Galera e da Lina Bo Bardi (e também suas obras) inspiradores. Música também me inspira muito e me ajuda a criar.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Infelizmente existe sim. Reconheço que estou em uma condição privilegiada e não sinto o preconceito diretamente no meu trabalho por retratar temas mais amenos. O que percebo é que há quem olhe os bordados mais como um passatempo do que um trabalho em si. Esse pensamento implica na desvalorização de trabalhos manuais, principalmente feito por mulheres. Estamos sempre sendo julgadas. Acho que tem melhorado, porém o caminho ainda é longo.

Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Muitas coisas! Tomar um café, comer pipoca, conversar, dançar, cantar, viajar, visitar lugares legais... Ah, bordar tem me trazido muita felicidade! Participar de feiras que curtimos com as nossas peças, conversar olhando nos olhos das pessoas, conhecer e aprender coisas novas... Ver as coisas fluindo bem e acontecendo de formas bastante diferente das que imaginei me fez perceber que os planos podem mudar e trazer novos horizontes.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Aventurem-se! Estejam abertas para as novidades, aproveitem as oportunidades e vão à luta! Muitas coisas boas tem acontecido por ter me permitido viver experiências diferentes, conhecer pessoas novas, apoiar e ser apoiada. Deixem quem te desencoraja de lado, não seja tão dura consigo mesma e se joga!

Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
Letícia Mazzo por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Quero voltar a atuar como arquiteta e continuar criando com o Estúdio. Também gostei muito das experiências que tive dando oficinas de bordado e quero investir mais nessa parte, além de continuar participando de feiras, onde o contato com o público é direto e a resposta imediata.

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