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Leonor
Zamith
Portugal
vivendo no Porto . Portugal
39 anos . ilustradora

Sou ilustradora desde sempre. Quando estava na escola escolhia ficar a desenhar nos intervalos e dizia que quando fosse grande queria desenhar capas de livros. O meu pai costumava trazer material de escritório para casa e eu adorava! Lembro-me de uma fase, devia ter uns 8 anos em que eu só desenhava campismo, vivia obcecada com essa ideia porque os meus pais não queriam ir acampar então eu desenhava e sonhava! Cresci numa família com muita sensibilidade para a arte, a costura, a gastronomia e as antiguidades, então, mesmo não havendo artistas, a arte sempre esteve presente.

Hoje em dia adoro a natureza, adoro fotografia, música, cinema, design e cerâmica, lojas de antiguidades e mercados de velharias, adoro ir à feira, passear, ler, fazer piqueniques, andar de bicicleta entre tantas outras coisas.

Leonor Zamith por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

O meu dia a dia é na frente do computador. Uso mesa gráfica para o meu trabalho de ilustração editorial. Começo com um esboço a lápis e depois vou para o Photoshop desenhar. Quando não tenho trabalho editorial e arranjo uma folga vou para as tintas. Adoro pintar com tinta acrílica em papel ou tela. No futuro espero conseguir pintar mais porque gosto muito da ideia de único e original e isso só consigo com a pintura.

Leonor Zamith por Projeto Curadoria
Leonor Zamith por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A minha grande motivação é a rotina. Parece absurdo porque toda a gente fala nos malefícios da rotina mas eu encontro sempre coisas boas no meu dia a dia. Casei muito cedo e nunca cheguei a viver o momento que os meus amigos viveram de andar em busca de ideais. Vivi sempre uma experiência de gestão de recursos muito racional que me fez ser mais uma observadora em vez de uma idealista. Adoro ver uma imagem inesperada e achar que com as proporções certas dá para transformar em ilustração, seja um sabão ou uma obra de um artista, acho que é isso, até o supermercado me inspira. Sou uma pessoa pouco complicada.

Leonor Zamith por Projeto Curadoria
Leonor Zamith por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Gosto de fazer pesquisa antes de fechar uma ideia. Não sou muito centrada no que os outros estão a fazer no momento porque não vivo à procura de me sentir enquadrada (acho que um artista tenta desenquadrar), olho mais para os artistas que têm já um longo percurso e que eu admiro pela sua consistência. Depois da pesquisa, passo para o papel e tento adaptar o que imaginei, o resultado é sempre diferente do pretendido mas não significa que tenha ficado pior do que pretendia, é o processo.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tudo o que é expressão artística eu tento aprender e acho que vou passar a vida a fazer! Adoro cozinhar, costurar, decorar a casa, jardinar, tudo o que é para transformar, eu transformo.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O trabalho que mais gostei de fazer foi ilustrar a crónica Modern Love do The New York Times, que o Diário de Notícias publica em português aos domingos. Nos EUA a crónica é feita pelo Brian Rea, que é um artista incrível! Durante mais de um ano senti que era feliz a desenhar histórias de amor. Sonho com uma oportunidade destas outras vez.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sim. Quando ganhei o concurso Sou Ilustrador e comecei a desenhar para o Jornal i. Na altura eu nem sabia bem o que ía fazer, não tinha ideia da responsabilidade e da capacidade de resposta e poder de síntese que era necessário para ser um ilustrador editorial. Mas aprendi, claro, depois de muito erro e vergonha acumulada!

Leonor Zamith por Projeto Curadoria
Leonor Zamith por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

A lista de artistas que eu admiro é longa mas assim, de repente, Maira Kalman, Olaf Hajek, Violaine et Jérémy, Erin Fitzpatrick, Gill Button, Thibaud Hérem, Tom Froese, Pascal Blanchet, Virginie Morgand.

Os meus ilustradores portugueses favoritos são a Marta Monteiro, Os Planeta Tangerina, a Catarina Sobral, o João Fazenda, a Mariana a Miserável, os Pandora Complexa, a Wasted Rita, sinto uma tremenda injustiça em listar artistas porque ficam muitos de fora que considero igualmente especiais. É por isso que não costumo falar em filmes, pratos, ou discos preferidos.

As minhas influências diretas são pouco visíveis no meu trabalho. Quem vê as minhas ilustrações não imagina que por trás está uma pessoa que adora a natureza, passo uma ideia de pessoa mais urbana e até melancólica mas não sou bem assim.

As influências indiretas são as mais consideráveis e por isso acho que o meu trabalho é um exercício de proporções e equilíbrio de cores que fui aprendendo com a experiência.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Apesar de ter já 15 anos de experiência profissional ainda sinto que falta muito para chegar onde pretendo. Este processo lento tem também a ver com o preconceito de uma mulher não ser tão capaz de dar respostas como um homem. Acho que os ilustradores editoriais mais publicados nos jornais são homens o que contradiz a minha opinião de que a mulher deveria ter os mesmos direitos, está claro. Apesar das diferenças evidentes para as mulheres acho que a minha educação me criou bastantes obstáculos e talvez por isso eu não me dedique mais à causa feminina.

Leonor Zamith por Projeto Curadoria
Leonor Zamith por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Gosto em especial de fazer os meus filhos felizes!

Acabar um trabalho faz-me feliz! Fico feliz com muita coisa, mas acima de tudo fico feliz por ainda ser capaz de sonhar. Tenho sonhos que são facilmente transformados em objectivos e vou sonhando e fazendo e trocando por sonhos novos.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Tenho muito pouco para dizer quando se trata de aconselhar alguém porque eu não sinto que tenha já definido aquilo que é certo ou errado mas parece-me importante dizer que se não sentirmos a admiração dos outros pelo que estamos a fazer devemos tentar perceber porquê. Ser ilustrador não é só dar resposta a um pedido, é deixar outras pessoas entrarem no nosso trabalho e essa gestão emocional é muito complicada. A dica que eu dou é não reagir só ao que é proposto, é apresentar sempre o que nos parece o melhor, é fazer duas ou três propostas se necessário, mas explorar sempre mais do que uma possibilidade para mostrar melhor o que somos capazes de fazer.

Leonor Zamith por Projeto Curadoria
Leonor Zamith por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, sempre muita coisa em andamento mas nem tudo acaba impresso! Neste momento estou a concorrer ao Concurso Serpa, com um álbum ilustrado para crianças em parceria com o ilustrador OkDavid.

Estou a começar um padrão, que nunca tinha feito antes e estou a fazer ilustração para latas de biscoitos com fachadas de azulejos antigos portugueses. Também estou a fazer mapas, que adoro e vou ver em breve uma ilustração minha em rótulo de garrafa de vinho. Estou a preparar um portfólio online actualizado onde vou mostrar tudo isso.

Leonor Zamith por Projeto Curadoria
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