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Lena
Muniz
Brasil
vivendo em Curitiba . PR
46 anos . artista

Nasci em Joinville - SC, e morei boa parte da vida (boa mesmo) em Florianópolis. Sou de família grande, minha mãe era estilista e meu pai militar, com uma quedinha para a boemia. Eles trabalhavam muito mas sempre reuniam os amigos para festas em nossa casa, que estava com as portas abertas (abertas mesmo) durante o dia todo. Meus irmãos (somos em 10) são artistas também, cresci cercada de músicos, artistas visuais, bailarinos, fotógrafos, atrizes. De todos os centros culturais que eu visitei, não há nenhum como a minha casa de infância e adolescência.

Eu trabalhei com moda, com criação, especificações e no chão de fábrica, mas quanto mais eu tinha contato com a indústria mais ela me decepcionava. Muitas vezes é desumano. Nos anos 2000 iniciei uma pesquisa em consumo consciente e craftativismo e quando vi já não tinha mais vontade de desenvolver produtos em série. Quero a marca dos dedos, quero os erros, as falhas humanas em cada coisa que eu produzo.

Lena Muniz por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

O mundo. Sempre quis entender como funciona o mundo.

// Como é o seu processo criativo?

Depois que fiz a Especialização em Poéticas Visuais, vi que o processo é um eterno retorno e tudo que vi, vivi, fiz, li, pensei e como eu entendi todas essas experiências estão ali no que eu produzo. Inicialmente foi difícil perceber que o que eu produzo é reflexo do que penso, sobre o que eu penso e de como penso. Às vezes estou preocupada com a técnica e é bem divertido quando isso acontece.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu tento apenas realizar algumas ideias, que são muitas. Tem que escolher bem e viabilizar, às vezes não sai do papel justamente por não ser viável. Acho que a criatividade é mais importante na realização pois sou artista MULHER brasileira, não tenho dinheiro de editais, nem tenho galeria para me bancar e muita gente não sabe onde me encaixar.

Lena Muniz por Projeto Curadoria
Lena Muniz por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu gosto muito da minha pesquisa em bordado confessional, acho importante falar do que não é dito, entender porque certas coisas são constrangedoras e não podem ou devem ser partilhadas. O trabalho em bordado iniciou em 2006, 2007. Bordando, mais que desenhando ou pintando, você entra em um estado muito íntimo. É como se o avesso e direito se comunicassem e você ali é quem puxa as questões. Não é terapia mas tem uma relação se pensarmos em psicanálise e arquivamento. E então eu no meio dos bordados e tecidos, senti uma necessidade de dureza. Ao mesmo tempo que as mulheres precisam aprender a amar mulheres, elas precisam ter força para enfrentamentos. Tem que ter dureza para se posicionar e enfrentar quando precisamos, não é fácil. Aí entrou a cerâmica e os corações. Adoro a ideia de que queimam em alta temperatura e ficam fumegantes. Agrada-me a ideia de emoção.

Lena Muniz por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Em 2010 comecei a perceber que a gente estava entrando numa era hiper conservadora e machista. As pessoas já não tinham vergonha de falar certas coisas. Eu sempre achei que era feminista mas como todo mundo, fui me desapegando de certas ideias, lendo mulheres, vendo mulheres com outros olhos. Eu desaprendi a misoginia que me foi ensinada. Eu aprendi a amar as mulheres. Nessa época, eu fazia pesquisa de tendências e a imagem da Ophelia era muito forte. A Ophelia pré-rafaelita, escapista, pipocava no Tumblr e eu me perguntava o motivo. E parti para pesquisar Ophelia e o que descobri foi um pré levante feminista. As mulheres de 2010, que compartilhavam essas imagens, logo começaram a produzir suas próprias versões de Ophelia, e o escapismo foi virando força, poder. Eu fiz muitos desenhos na época e os adoro. Esse é o trabalho mais importante para mim até hoje pois ele me deu todo tipo de coragem, inclusive de me posicionar. O mais incrível é que este ano vi um filme sobre Effie Gray que contava como Millais (pintor de Ophelia) era apaixonado por ela, que era casada com Ruskin e sofria em um relacionamento abusivo. Quando Millais retratou Ophelia, o fez justamente pensando em uma mulher à beira da loucura, sucumbindo, uma morte em vida.

Lena Muniz por Projeto Curadoria
Lena Muniz por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu adoro desenho e isso é muito forte no meu trabalho. É uma coisa que amo fazer, ilustrar. Adorava livros ilustrados, enciclopédias. Amo desenho. Tenho um irmão que desenhava muito bem, outros que faziam arquitetura. Eu desenvolvi amor pela caneta de nanquim. Uma das coisas que eu gostava de desenhar era uma mulher com um love escrito no lugar do olho. Vi Alphaville do Godard e tinha a cena em que ela escrevia nos olhos pois a censura não permitia livros. São coisas que eu vejo, escuto, relaciono com o mundo e às vezes sai um trabalho.

Lena Muniz por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Estamos vivendo tempos difíceis.

// E o que te faz feliz?

Estar com pessoas que sabem colaborar e que podem se desapegar da vontade de controle sobre o outro e pessoas reconhecendo seus próprios privilégios.

Lena Muniz por Projeto Curadoria
Lena Muniz por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

O trabalho acontece quando há continuidade. Um desenho só, não é um trabalho. Mas um desenho depois do outro, e do outro, e do outro, isso faz um trabalho acontecer.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Eu, hoje, vejo que todos os trabalhos andam juntos e há mil desdobramentos possíveis deles e entre eles.

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