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Laura
Athayde
Brasil
vivendo em Belo Horizonte . MG
27 anos . designer . quadrinista

Tenho 27 anos e sempre, sempre, sempre amei desenhar. Isso provavelmente veio do fato de que, desde pequena, eu amava quadrinhos. Aprendi a ler com a turma da Mônica – sim, essa é uma história bem comum entre quadrinistas brasileiros! – e adorava copiar os desenhos e criar minhas próprias histórias.

Acontece que nunca vi isso como uma carreira possível; portanto, quando chegou a hora de decidir o que fazer depois da escola, fiquei dividia entre o Design Gráfico e a Advocacia.

A pressão familiar venceu e acabei indo cursar Direito, o que me levou a parar de desenhar por alguns anos, apesar de jamais ter abandonado a leitura de quadrinhos.

Finalmente, em 2013, comecei a entrar em contato com a HQ nacional através de páginas do Facebook. Essa característica aproximadora das redes sociais, que me colocaram diretamente em contato com autores, foi imprescindível pra que eu animasse a fazer as minhas próprias experiências com a linguagem, e aqui estou agora – cursando Design Gráfico, com histórias publicadas independentemente ou em antologias e muitos planos de continuar produzindo HQ!

Laura Athayde por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Principalmente o quadrinho e a ilustração. Pelas características próprias do momento em que vivemos, moldado pelo acesso à Internet e às redes sociais, vejo nessas linguagens altamente viralizantes um potencial comunicador muito poderoso.

Laura Athayde por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A minha motivação não é mercadológica ou profissional; não tenho interesse particular em ganhar dinheiro com quadrinhos, apesar de conhecer e admirar pessoas que tem essa pretensão. A minha motivação é comunicar: sinto que consigo provocar o diálogo e a circulação de ideias através do que faço. Como uma pessoa interessada e participante de debates políticos e sociais, isso é importantíssimo pra mim. E justamente por isso prezo tanto a liberdade criativa que não sei se teria caso precisasse assegurar o conforto do público ou a rentabilidade do meu trabalho para sobreviver.

A minha inspiração são minhas vivências cotidianas. Isso naturalmente perpassa por questões de gênero, sociais, políticas, raciais, dentre outras. E, como a comunicação é uma via de mão dupla, também me motiva o aprendizado diário com as discussões que meu trabalho provoca na Internet, com o diálogo com outros artistas e com o público e com a coleta de relatos e materiais para uma série baseadas em fatos reais chamada Aconteceu Comigo.

Laura Athayde por Projeto Curadoria
Laura Athayde por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Varia muito. Para fazer tirinhas sobre o meu cotidiano, vou anotando situações interessantes ou inspiradoras no próprio celular e, quando tenho um tempo, sento, seleciono, reescrevo e transformo em quadrinhos. Com histórias longas, o processo é parecido: vou colecionando ideias aqui e ali e eventualmente sento pra organizar tudo.

Já participei também do Coletivo Mandíbula, que me estimulou muito a pensar e trabalhar sobre temas mais variados. Éramos sete artistas e cada uma postava num dia fixo da semana. Cada semana, uma de nós dava uma palavra-tema para guiar os quadrinhos de todas. Inicialmente me opus a esse esquema, justamente por achar muito difícil trabalhar sobre temas impostos! Acontece que, topando o desafio, acabei sendo estimulada a refletir sobre temas que possivelmente não abordaria por conta própria, especialmente coisas mais politicamente engajadas, como aborto.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

É uma questão de exercitar! Depois de um tempo fazendo quadrinhos quase que diariamente, minha cabeça acabou ficando treinada e essa transformação de qualquer acontecimento em três quadros ficou quase que instantânea. Como estou trabalhando numa agência publicitária atualmente e tenho tido menos tempo e energia para dedicar a esse processo, percebi que não acontece mais tão naturalmente. Não é nenhuma novidade, o segredo é realmente a prática e a dedicação.

Laura Athayde por Projeto Curadoria
Laura Athayde por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito da série Aconteceu Comigo, que já mencionei aqui. A minha ideia com ela era fazer com que histórias sobre as mulheres mais diferentes possíveis circulassem, fossem conhecidas por outras mulheres e por quem mais se interessasse e, assim, estimulasse a empatia. Mas o objetivo principal era aprender com essas histórias já que, para mim, era impossível conhecer intimamente o cotidiano de uma mulher negra, por exemplo, ou os dilemas de uma pessoa trans, e eu queria saber mais sobre isso, sobre as vivências das outras mulheres.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O marco é bem nítido: novembro de 2013. Foi aí que descobri que existiam quadrinhos muito próximos do meu cotidiano, que eu me interessava por essa temática e, principalmente, que eu podia – e gostaria – de fazê-los.

A partir daí, as coisas aconteceram depressa, porque o mercado de HQ nacional está em fase de franca ebulição. Tem espaço para novos artistas, existe interesse do público e atenção da mídia sobre esses trabalhos, os eventos estão mais frequentes e abertos a novidades. Então, mesmo começando a desenhar tirinhas sem grandes pretensões, eu logo estava participando de feiras gráficas junto de colegas iniciantes e calejadas, todas juntas e igualmente empolgadas com a possibilidade de abrir espaço nessa área para as mulheres independentes.

Não demorou para que eu decidisse fazer algo que se alinhasse mais com esse interesse crescente e que pudesse me ajudar a ser melhor nele; então troquei o Direito pelo Design, que estou cursando atualmente num instituto de tecnologia, e passei a me dedicar a essas duas paixões.

Laura Athayde por Projeto Curadoria
Laura Athayde por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Dentre as artistas nacionais, gosto muito do trabalho da Aline Lemos, da Gabi Lovelove6 e da Ana Luiza Koehler, que abordam temáticas parecidas com as minhas e procuram refletir sobre política, economia e sociedade em seus trabalhos. Gosto também do Marcelo D’Salete, o livro dele sobre escravidão no Brasil, Cumbe, é maravilhoso, Neil Gaiman, Amruta Patil, Fefê Torquato, os meninos da Editora MÊS, que tem trabalhos interessantíssimos focados em mitologia brasileira, e estou ansiosíssima pra ler o quadrinho do Guilherme Petreca que está na minha cabeceira!

São todos artistas que transitam entre o político, o cotidiano e a ficção/fantasia, que são meus temas preferidos para trabalhar atualmente.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe, e é inegável. A recepção de certos temas, quando abordados por mulheres e homens, é radicalmente diferente. Mulheres estão mais suscetíveis a críticas e ofensas, especialmente na Internet, e isso é algo que vejo acontecendo bastante com colegas. Já houve casos de quadrinistas homens postando quadrinhos derrogatórios sobre o trabalho de colegas mulheres, diminuindo-as em um meio em que já há tão poucas oportunidades para elas. Fora a perseguição dos trolls de Internet e das consequentes ameaças de morte, estupro, etc. Nunca fui pessoalmente afetada por nenhum dos dois tipos de perseguição, mas exemplos não faltam.

Isso acontece também fora do ambiente virtual. Tomemos, por exemplo, o caso da Folha de São Paulo, que fez um concurso recentemente para escolher novos cartunistas. Para abrir esse novo espaço, eles retiraram do jornal a tirinha da Olga, a Sexóloga, escrita e desenhada pela Thais Gualberto, que se manifestou nas redes sociais dizendo acreditar que isso se devia ao fato de a Olga ser um veículo para falar abertamente sobre sexo de um ponto de vista feminino, o que talvez tenha sido considerado “indecente” pelo público da revista. A história fica pior: nenhuma mulher sequer foi escolhida na seleção. E piora ainda mais: alguns dos trabalhos selecionados eram nitidamente misóginos e racistas.

Fica nítido que, tanto nos grandes veículos editoriais quanto dentro do próprio mercado de quadrinhos, a igualdade de tratamento entre profissionais homens e mulheres está longe de ser uma realidade.

Laura Athayde por Projeto Curadoria
Laura Athayde por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Aaaaah, fazer quadrinhos! Viajar! Ver pessoas, andar no sol. Mudar de cidade. Conhecer lugares. Beber café enquanto bato papo. Ler, ver filmes, ter ideias. E, claro, destruir o patriarcado, um quadrinho de cada vez!

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Prática, dedicação e evitar ao máximo transformar um prazer em uma atividade dolorosa. É complicado ser produtivo e, ao mesmo tempo, não sofrer com a pressão de produzir com frequência, especialmente com outros compromissos disputando tempo e energia (trabalho, faculdade… nem sempre o que amamos se encaixa estritamente em uma dessas categorias). Mas precisamos encontrar esse equilíbrio; o mundo já é estéril e cinza demais para que abdiquemos das nossas paixões.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho algumas coisas em fase de produção. Quero contar a história de Zigsa, uma garota sagrada em um lugar inventado que, ao se deparar com o mundo real, começa a se questionar sobre a validade das hierarquias e sobre o valor de viver segundo as próprias escolhas. Também quero escrever uma história maior sobre a qual não posso revelar muito, só que envolve robôs gigantes!

Laura Athayde por Projeto Curadoria
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