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Larissa
Arantes
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
32 anos . designer . ilustradora

Sou designer formada pela ESDI/UERJ e passei por um período de 10 anos trabalhando em agências e escritórios de design. Sempre tentei incluir minhas ilustrações nos trabalhos de design gráfico, mas mesmo assim minha expressão pessoal acabou ficando em segundo plano durante estes anos. Em 2016, com a saída de um emprego, decidi me dedicar aos meus projetos pessoais como ilustradora, resgatando antigas paixões.

Comecei a atuar como ilustradora freelancer e a divulgar meu trabalho nas redes sociais. No começo desta retomada surgiu a oportunidade de participar de uma feira de produtores independentes. Desde então    continuo participando destes eventos, principalmente de feiras de artistas independentes, que são uma excelente forma de conhecer outros ilustradores e de entrar em contato direto com seu público.

Tenho um traço mais feminino e uma inclinação para os detalhes. Gosto de buscar referências que instiguem o olhar, que explorem o universo feminino para além do senso comum. Me interessa a mistura do delicado com elementos surrealistas, distorções de escala e de significados.

Larissa Arantes por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Várias, sou muito curiosa... comecei com a aquarela, que amo. Mas é raro conseguir vender uma pintura original por conta do preço, então comecei a pesquisar alternativas de impressão com as quais eu pudesse fazer baixas tiragens, sem perder o caráter artesanal. Foi aí que eu comecei a produzir algumas serigrafias e risografias. Recentemente comecei a explorar o universo da linoleogravura, que também permite impressões de pequena tiragem. Não tenho uma técnica preferida para me expressar. Gosto de explorar as possibilidades de diversos materiais e superfícies.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu sinto necessidade de criar, tanto é que escolhi a carreira de Design Gráfico como um meio de satisfazer isso. Não é bem uma coisa que precise de motivação, é mais uma válvula de escape pra mim. É a melhor forma que eu encontrei de me colocar no mundo. Sem isso, eu ficaria neurótica.

Larissa Arantes por Projeto Curadoria
Larissa Arantes por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Sou uma pessoa muito diurna, que gosta de acordar cedo para aproveitar ao máximo o dia. Por isso gosto de trabalhar com o sol, de preferência ouvindo música. Estou quase sempre ouvindo alguma coisa quando desenho, pois me inspira e dá o ritmo pro meu processo. Às vezes surge uma ideia que anoto mentalmente, fico dias com ela na cabeça, às vezes semanas só amadurecendo, para depois passar para o papel. Prefiro começar uma ilustração à mão e, dependendo do caso, digitalizá-la só depois, durante a colorização e finalização do desenho.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Consumir arte em suas diversas formas é o melhor combustível: ler, ir a exposições, ouvir música, ir ao cinema... isso tudo cria repertório. Uma ideia proposta por um artista pode instigar novas ideias em nós.

Larissa Arantes por Projeto Curadoria
Larissa Arantes por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Recentemente venho explorando os zines como suporte artístico. Eu tinha bloqueios em ser lida, me recusava a mostrar qualquer escrito meu. Me sentia muito mais vulnerável com as palavras do que com os desenhos. Mas fiz dois zines que tiveram uma aceitação bem legal e que me incentivaram a produzir mais. As pessoas que se dão o tempo de folhear os zines nas feiras que frequento costumam demonstrar mais interesse no meu trabalho, nos meus processos. Elas tendem a conversar mais, e eu gosto desse tipo de interação. Por isso sinto vontade de explorar mais este universo das publicações independentes.

Larissa Arantes por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sempre gostei de desenhar e de produzir coisas com as mãos. Mas, conforme fui entrando no mercado de trabalho, fui sendo engolida pelo dia-a-dia das agências de design. O ritmo de trabalho nesta profissão costuma ser intenso, então não sobrava muito tempo livre para produzir minhas coisas. Sempre que podia, tentava encaixar ilustrações minhas nos projetos que eu desenvolvia como designer, mas não era suficiente. Fui perdendo o hábito e passei muito tempo sem desenhar nada autoral. Há alguns anos isso vinha me incomodando, e eu sentia a necessidade de voltar a produzir algo meu. Fui juntando dinheiro e coragem para seguir em carreira solo, fazendo as coisas que eu queria fazer... mas a demissão do meu antigo emprego veio antes, no meio de uma crise econômica intensa aqui no Brasil. Foi quando pensei: não tem jeito, é agora ou nunca.

Larissa Arantes por Projeto Curadoria
Larissa Arantes por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Muitos artistas me influenciam, não necessariamente visuais. A música está sempre presente nos meus processos, e alguns estilos acabam me influenciando mais. Tenho paixão pela produção musical brasileira da década de 70. Acho que tinha um orgulho de ser latino-americano bem presente nas produções desta época. Eu busco me conectar com isso, com minha origem, com minhas raízes: sou brasileira, tropical, latino-americana. Temos muitas coisas belas na América Latina e que são pouco valorizadas. O brasileiro, em especial, costuma buscar inspiração no hemisfério norte e se desconecta de si mesmo e de seus vizinhos. Falamos e escrevemos em inglês nas nossas produções artísticas; por quê?

Larissa Arantes por Projeto Curadoria
Larissa Arantes por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe, sim. A expressão masculina ainda é vista como neutra, natural, default. Tudo o que é feminino ainda é taxado como inferior, como uma expressão de segunda categoria. Existe uma repressão velada nas expressões criativas... geralmente quem consome mulheres são apenas as próprias mulheres. Às vezes sinto que para ser mais valorizada e alcançar um público maior eu tenho que masculinizar meu trabalho. Poucos homens se interessam pelo trabalho produzido por nós. A maioria esmagadora do meu público é composto por mulheres. Me questiono se isso é uma segmentação natural de público ou se é um reflexo da desvalorização do que é percebido como "feminino".

Larissa Arantes por Projeto Curadoria
Larissa Arantes por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Natureza. Adoro o cheiro do mato, verde, montanhas, cachoeira, mar. E gatos. Amo gatos.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Vencer o medo de se expressar. Colocar em seu trabalho suas experiências, vivências, visão de mundo; é isso o que vai torná-lo particular. Ser verdadeira consigo mesma. Usar a internet como ferramenta, mas não perder o contato com o mundo real. Frequentar feiras de artistas e produtores independentes, conhecer e conversar com outras mulheres criativas, estabelecer vínculos, trocar experiências. A internet é um ótimo veículo para buscar conhecimento e divulgar seu trabalho, mas nada substitui as trocas presenciais.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho um projeto na cabeça, ainda muito embrionário... neste tempo frequentando eventos de artistas independentes pude conhecer várias mulheres com trabalhos artísticos incríveis. Gostaria de fazer algo que unisse a diversidade destas produções femininas. Divulgo quando tiver o projeto formatado.

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