m
Laís
de Souza
Brasil
vivendo em São José dos Campos . SP
30 anos . bordadeira

Eu sou a Laís, gosto muito de dançar - quanto mais esquisito melhor, viciada em brigadeiro e acho que uma boa risada é uma das conexões mais sinceras que podemos fazer entre as pessoas. Atualmente eu tenho um coletivo de bordado com mais 5 amigas-sócias, o Clube do Bordado. Ele existe na minha vida desde 2013, mas só em 2014 tomou corpo como algo profissional. Bordar foi o que me curou de uma crise com a minha criatividade que começou na faculdade e só foi crescendo. Fiz faculdade de Design Gráfico na UEL. Guardo com muito carinho os anos na universidade, mas foi nesse mesmo período que entrei em crise com as minhas criações. Crise essa que durou uns bons 10 anos e só foi se dissolvendo depois que o bordado entrou na minha vida.

Laís de Souza por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Bordado é a que eu mais utilizo. Gosto muito de desenhar e pintar com aquarela. Em alguns momentos eu escrevo também. Me ajuda a organizar pensamentos quando está tudo muito confuso ou dolorido.

Laís de Souza por Projeto Curadoria
Laís de Souza por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

O processo de criação começou por uma necessidade de colocar para fora tudo que fervilhava aqui dentro. Quando estou criando eu entro em um estado que, para mim, é tão vital quanto comer ou respirar. Todas as vezes que essa parte da minha vida foi suprimida eu ficava emocionalmente doente. Hoje em dia tento ser um pouco mais prática porque o meu sustento vem também das minhas criações. Então o dinheiro virou uma grande motivação para criar - sem tantas crises! Acho que o que mais me inspira é o amor, tanto romântico, estar apaixonada, quanto o fraterno, o pelo mundo e tantos outros amores. Tudo que me toca profundamente me inspira. Nem sempre é tão poético assim, hahaha, às vezes algo que eu vi e achei graça também me inspira. Acho que poderia resumir em: amores (bem ou mal resolvidos), a natureza (sou bem contemplativa e posso passar muito tempo admirando uma bela paisagem), o cotidiano e suas cenas engraçadas (hoje eu vi um pato em baixo de um banco de um parque e essa imagem não me sai da cabeça), e os meus sentimentos (sempre tem muito de mim em tudo que eu crio).

Laís de Souza por Projeto Curadoria
Laís de Souza por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Depende se ele vêm de uma demanda externa ou interna. Se vem de uma demanda externa - por exemplo: uma encomenda de bordado, ou uma coleção que vamos lançar com o Clube; ele passa por 5 etapas. A primeira é escrever o que tem que ser feito a mão, digitar não vale. A segunda é pesquisa imagética no Pinterest. Depois começo a fazer os primeiros rascunhos de desenho a mão também. Chega o momento que eu travo e preciso largar tudo, levantar, dar uma caminhada, ir dormir, mudar o foco, enfim, o momento da pausa, que dura alguns minutos, ou muitos dias... Por fim, eu volto com os rascunhos até finalizar e fechar a criação. Essas etapas às vezes se misturam e se intercalam, mas sempre passo por todas elas.

Agora quando a demanda é interna aí é completamente vomitado. Eu tenho uma ideia ou algo que preciso colocar pra fora e coloco tudo para fora de uma vez só.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Terapia uma vez por semana para não ter mais crises com a minha criatividade. Tentar ser mais prática com as minhas criações (não tão emocional) e me manter em movimento. Acho que quanto mais eu crio mais criativa eu fico. Então o manter-se em movimento é essencial.

Laís de Souza por Projeto Curadoria
Laís de Souza por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meus trabalhos e projetos preferidos são os que eu faço de forma autoral. Eu adoro criar em conjunto com as minhas sócias. Isso foi o que me salvou de mim mesma. Porém o que mais enche meu peito de orgulho é o que eu consigo fazer sozinha. É quando eu consigo me enxergar por inteiro exposta em algum trabalho. O motivo é porque o que eu faço em conjunto é o que me fortalece, mas o que eu faço sozinha é quem eu sou.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Com certeza foi a criação do Clube do Bordado. Eu era muito perdida profissionalmente antes do Clube. Trabalhava em uma coisa ou outra. Já fiz freelas de design gráfico, já trabalhei com produção de moda, de objeto, de evento, já trabalhei de vendedora em loja de roupa e de lingerie, ja fiz curso de cool hunter, já vendi brigadeiro. Mas nada ia para frente, nada dava muito certo, nada prosperava. O Clube do Bordado foi a primeira vez que algo profissional prosperou na minha vida. E isso mudou tudo. Mudou a minha relação com trabalho, dinheiro, amigos, comigo mesma, com a minha criação, com a minha autoimagem e como eu devolvo tudo para o mundo. Eu me redescobri como uma pessoa criativa, eu perdi o medo de falar em público, eu deixei de ser tão tímida, tão insegura, eu descobri minha voz própria, eu fui viajar sozinha, eu voltei a me cuidar. Nossa mudou TANTA coisa que é até difícil de colocar em palavras.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Me inspiro muito no trabalho de todas as meninas do Clube. Eu sempre gosto muito do que elas produzem e isso me alimenta a criar coisas novas. Música é sempre uma grande inspiração, sempre me leva para estados quase meditativos que ajudam a criação a fluir. Gosto muito do trabalho do diretor Wes Anderson, as cores que ele trabalha nos filmes dele sempre são uma grande inspiração e se reflete na minha forma de montar cartelas de cores.

Laís de Souza por Projeto Curadoria
Laís de Souza por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Ainda existe. Eu sinto um pouco menos no meu trabalho por estar em um meio muito privilegiado. O público que acompanha meu trabalho não costuma fazer esse tipo de censura. Mas me lembro de uma vez que eu postei uma foto minha com uma blusa transparente e as reações foram de choque completo. Minha mãe não entendeu nada. Recebi muitas mensagens de homens objetificando meu corpo. Quando reclamei para o "crush" da época, ele deu de ombros. Para ele era muito claro que o fato de uma mulher expor o próprio corpo, o mínimo que ela deve esperar é que o seu corpo seja objetificado. Ainda temos um looooongo caminho pela frente.

// E o que te faz feliz?

Já comentei um pouco disso na minha apresentação. Mas reforçando e complementando: dançar, comer brigadeiro, abraçar as pessoas que eu amo, sentir uma brisa gelada na bochecha em um dia ensolarado de outono, dar risada até a barriga doer, conseguir olhar com orgulho para quem eu sou.

Laís de Souza por Projeto Curadoria
Laís de Souza por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Se apoiem umas nas outras. Criem grupos. Coletivos. Se ajudem. Criem em conjunto, criem sozinhas. Não deixem de criar jamais. Não deixem de se expressar. Gritem, pintem, bordem, martelem, chorem, deem gargalhadas, olhem para dentro, olhem para fora, se abracem e nunca se calem. Ao menos que seja para tomar fôlego.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

O nosso projeto mais novo no Clube do Bordado é a loja online, colocamos ela no ar tem pouco tempo e estamos preparando produtos com o maior carinho. Projetos pessoais, descobri essa semana na terapia que amo cor. Decidi que vou explorar mais isso, ainda não sei bem como... talvez com tingimento de linhas, talvez com trabalhos mais abstratos, enfim... ainda não sei qual vai ser a forma disso, mas com certeza é um caminho que eu vou trilhar.

Laís de Souza por Projeto Curadoria
COMPARTILHE
b
//+entrevistas