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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Kiri
Miyazaki
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
29 anos . artista

A arte sempre esteve presente na minha vida, minha mãe sempre cantou muito para mim e para meus irmãos. Com nove anos iniciei minha vida como bailarina clássica e foram mais de nove anos dançando. Lembro-me até hoje do frio na barriga quando eu pisava nas coxias. Meu irmão pequenino e meus pais nos assistindo, foram tempos muito felizes. Sou grande amante de música erudita, apesar de não ter tido oportunidade de aprender nenhum instrumento musical. Antes de iniciar o ballet lembro-me de meu pai colecionar cds de música clássica e eu e meus irmãos ficar ouvindo e brincar de tocar instrumentos imaginários, reger a orquestra ou cantar como se fossemos cantores de ópera ou ainda mais tarde eu e minha irmã ensinando para meu irmão passos de ballet.

Também brincávamos muito de usar as roupas antigas dos meus pais, mais tarde eu ainda comecei a cortar e tingir as que minha mãe deixava eu “adaptar”. Na época eu não tinha repertório de tingimento e nem de fibra, então era comum eu manchar as roupas. Eu sempre amei fuçar no guarda roupa da minha mãe e achar roupas muito diferentes e ouvir sobre elas. Minha mãe foi uma grande incentivadora das minhas experiências têxteis desde cedo. Temos inúmeras fotos de eu e meus irmãos vestidos de roupas antigas. Mais tarde, fui fazer faculdade, passei por outras áreas antes de me assumir artista. Somente olhando pra trás pude perceber que a vida inteira eu tive um lar que me propiciou ser sempre muito criativa. A minha formação é em Design de Moda, área escolhida porque eu gosto muito de me expressar por tecidos, tingimento e interferências têxteis em geral.

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Meu objeto de estudo é uma planta com nome popular Índigo Japonês. Dela é possível extrair um pigmento azul que tinge tecido, madeira e alimentos. Eu faço todo o processo da germinação à extração do pigmento azul, essa é minha principal ferramenta de expressão, por ela eu fiz as pazes com minhas origens e com meus ancestrais, também me assumi artista e tintureira. É como um amuleto da sorte, um talismã. Além disso, também me expresso por tecidos, bordados japoneses como sashiko e boro que tem uma grande ligação com o Índigo Japonês.

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Nossa! Pergunta difícil! Eu gosto de vivenciar, de estar no lugar, pode ser natureza, cidades novas, gente, bicho. Neste vivenciar gosto de tocar, de cheirar. Presto muito atenção no barulho também, tenho grande sensibilidade a barulho. Até o clima me inspira, o ar do litoral é muito diferente do ar da montanha ou mesmo do cerrado. Sou do interior de São Paulo de uma cidade quase no centro oeste brasileiro e lá é muito quente, abafado e seco. Já o ar de São Paulo sempre tem uma brisa quando o sol se põe. Lembro-me de estar um dia Cuiabá quando passei na faculdade, meu DEUS eu não conseguia respirar de tão calor. Gosto muito de ler e tentar passar meus sentimentos para o tecido. Atualmente estou lendo um livro sobre artistas brasileiras e fico imaginando como era viver naquela época que ser artista mulher era um ato revolucionário, que não podíamos ir para a Academia e todas essas minhas sensações eu tento passar para os meus tecidos.

Ah! E eu amo ouvir grandes sinfonias, sempre choro quando escuto a nona sinfonia do Beethoven, sempre!

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Não é linear, por exemplo, eu leio, vários livros ao mesmo tempo e por isso não me pergunte os nomes e as histórias que eu misturo tudo... Eu começo vários tecidos ao mesmo tempo também. Um dá origem a outro normalmente. Eu penso muito (e posso me perder) por isso preciso colocar todos os meus tecidos na minha frente para visualizar se estão terminados.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Bem, eu tenho uma rotina para não trabalhar tanto. Quando a gente faz o que ama não tem sábado, domingo, feriado, nem noite e dia. Por isso, eu faço caminhadas diárias com meu cachorro e meditação. Também cozinho minha própria comida e cuido da casa. Ter um ambiente cuidado, cheiroso e aconchegante faz toda diferença.

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho um artigo maravilhoso sobre trocas baseado no livro Ensaio sobre a Dádiva do Marcel Mauss que fiquei muito feliz com o resultado. O curta-metragem-Tingimento Natural com Índigo: da germinação à extração do pigmento azul- que estou trabalhando junto com a Clara Zamith e a Amanda Cuesta duas mulheres maravilhosas e grandes artistas está ficando lindo. A exposição que estou finalizando que é a materialização do curta-metragem está incrível, serão aproximadamente 11 obras têxteis. Sobre todos estes trabalhos há uma grande carga emocional envolvida, são textos, filmes e tecidos que eu tive que olhar muito fundo para dentro de mim. E para isso eu precisei ter muita auto-compaixão e honestidade comigo mesma para poder passar tudo àquilo que eu acredito. O artigo foi trabalho de um ano inteiro. O filme e a exposição eu comecei a estudar em meados de 2014/2015 para em 2017 começar a gravar. É sobre aceitação de si, sobre carinho consigo mesma para poder passar para o outro o seu melhor.

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

A minha vida sempre foi um grande vai e vem. Eu me mudei mais de quinze vezes de casa. Mas um grande divisor de águas foi quando a Flavia Aranha me apresentou o tingimento com plantas e mais tarde eu fui aprender o tingimento com Índigo Japonês no Japão. Influenciou toda a minha vida não só profissionalmente.

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tem muita mulher maravilhosa que me inspira! A Clara Zamith que faz a direção de fotografia do nosso doc tem um olhar maravilhoso e muito afiado. A Amanda Cuesta que faz a produção executiva é uma baita mulher, canta muito e tem uma bagagem cultural sem fim. Dentro do campo têxtil eu amo a Sonia Gomes, Rosana Paulino, Rosana Palazyan e Lotta Pia Kallio. Dentro da literatura eu gosto muito de autores existencialistas como o Heidegger que está sendo meu guia para questões relacionadas à construção do eu. O Mauss me influencia até hoje com seu pensar sobre a dádiva que coloca o objeto de troca em um local místico e carregado de significado.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe muito preconceito em ser mulher e com isso em tudo que fazemos. Pense, não temos liberdade nem para andar na rua sem ser abordada, não temos paz em sentar em um restaurante sozinha e tomar uma taça de vinho. Então imagina quando a gente estuda, fala, se impõe, a gente incomoda. Eu sempre fui muito questionadora, eu sempre perguntei os porquês e nunca aceitei facilmente coisas impostas e isso sempre me trouxe algumas responsabilidades, me assumir artista foi uma delas.

Essa semana eu participei de um concurso de artistas. Foram catorze contemplados, dos quais nove foram homens. E dos três suplentes dois são homens. E eu me pergunto por quê? Entende? Foram mais de 600 projetos inscritos, eu tenho certeza que tinha muita mulher maravilhosa tentando, se isso não for preconceito eu não sei o que é.

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Pão com manteiga quentinho e café feito na hora. Cheiro de terra molhada e de grama cortada. Quando minhas plantas germinam e quando elas ficam com bastante folha. Meu cachorro correndo no parque. Pipoca feita na panela. Batata frita. Tingir meus tecidos e esperar como será o azul. Ler um livro muito esperado. Viajar.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Se conheçam, se amem se aceitem e vamos nos unir cada vez mais. Quando forem criar sintam o que faz seu coração vibrar. Nada é mais importante do que vocês mesmas. Não se preocupem se o que fazem parece esquisito, ou que não sejam produtos do ponto de vista do capitalismo. Façam!

Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
Kiri Miyazaki por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Todos os meus projetos são desdobramentos da minha pesquisa com Índigo Japonês. Para o próximo semestre quero aumentar a produção de índigo para disponibilizar para outras artistas e profissionais. Compartilhar esse conhecimento de tingimento por meio de oficinas. E em um futuro próximo quero escrever um livro.

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