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Kelly
Alonso Braga
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
49 anos . artista

De repente, aos 45 anos, eu descobri que desenhava, joguei algumas tintas, acrescentei textos e linhas, e assim, me tornei artista visual. Hoje escrevo e ilustro meus livros “Comprido”, “Cachecol, o livro bordado”, “Do amor nada se entende”, “Saulo, o comedor de linguiças”, “O Buraco” e “Fábrica de caixas” e zines “Pegue seu zine e suma!!!”, todos pela Poupée Rouge Publicações Independentes. Pinto quadros sobre vários assuntos, adoro temas como café, um gosto cotidiano e também desenho animais, em especial gatos, uma paixão! Sou bordadeira, uma descoberta recente, e criei o Bordado em Conservas, feito em latas de atum e sardinha, bordo também em bastidores utilizando, linha, café e nanquim.

 

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Utilizo sempre acrílica, pastel seco, nanquim, café, colagens de jornais e revistas, papelão, Kraft, enfim, tudo o que for preciso pra dar uma autenticidade no que desejo expressar.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Criar é tudo pra mim, é uma satisfação que não tem hora pra chegar, e qualquer motivo já é um grande motivo para o ato criativo. O inesperado é a melhor inspiração, faz com que você entre em contato com algo que não pensou antes, e isso enriquece, libera padrões, abre a mente.

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// Como é o seu processo criativo?

Eu tenho uma rotina meio caótica, trabalho sobre mesas bem bagunçadas, uma tem o computador e impressora e sobre ela, livros antigos de sebos que uso como fundo de ilustração, em outra, todas as tintas, lápis, canetas, potes de café, enfim tudo que dá cor, e noutra, tudo referente ao bordado, linhas, agulhas, bastidores, retalhos. As vezes mistura tudo e fica uma loucura, e é nessa confusão que eu encontro paz para criar. Digo também que é a noite que me sinto mais confortável para as experimentações e acrescento que geralmente sonho com ilustrações e livros, durmo até com um caderninho ao lado para desenhar e escrever, e no dia seguinte as reproduzo e geralmente o resultado é bem positivo.

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// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu desenho o tempo todo, qualquer lugar que estou, já tiro da bolsa um papel, um caderninho, muitos lápis e já começo, é um exercício prazeroso e constante, é algo que recomendo, quanto mais você se dedica ao desenho mais criativo você fica.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Cada livro que crio, me dá muita alegria, é um filho que nasce. O primeiro a gente nunca esquece, quando o vi todo branquinho, capa dura, contando uma história muito especial, isso me deu orgulho, me incentivou, fez com que algo que era só um plano, se tornasse real, e isso é tão importante, o Comprido foi pra algumas livrarias e saiu críticas em jornal e revista, e acima de tudo, pessoas se emocionam quando leem a história desse menino comprido, acho que consegui atingir o objetivo de um bom livro, comunicar, emocionar e fazer pensar.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Minha carreira está só começando, creio que o mais importante está por vir, mas o primeiro livro, como já citei, e a primeira exposição, no Conjunto Nacional em SP, “Café de todo jeito”, serão sensações eternas na minha vida, um exemplo de força, conquista e alegria, não dá para esquecer coisas tão boas.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

O Expressionismo é muito forte e belo, tanto no cinema como na pintura, formas e cores intensas, algo sombrio no ar, uma angustia, uma solidão, uma dor transformada em arte e isso me atrai, tem a ver com a minha essência, uma vez um curador me disse “ adoro seus quadros, me passam uma depressão colorida” creio que seja essa referência do Expressionismo.

Pra citar nomes, Edward Munch, amo desde criança, é uma paixão, Ernst Ludwig Kirchner, Chaim Soutine, James Ensor, adoro seu lado crítico. Poetas como Maiakovisk, que trás a revolução na alma e além disso, sempre procuro me inspirar em mulheres e a força de sua arte, Anita Malfatti, Marina Caram, Paula Rego, Manuela Franco, Alissa Yufa, Fatemeh Mohamadi, Cecile Perra e muitas outras, afinal tem muita gente boa por aí, que maravilha!

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Isso com certeza tem, mas eu felizmente, nunca sofri, até agora tive boa aceitação. Creio que sofro mais por ser autodidata do que ser do sexo feminino, as pessoas torcem o nariz quando você não tem faculdade ou especialização na área, mas nos meus planos pretendo estudar ilustração em Sarmede na Itália, todo conhecimento é bem-vindo e é um objetivo na minha vida, mas ao mesmo tempo não se deve julgar um artista pelo seu diploma, visto que na história grandes pintores largaram o ensino de artes para traçar seu próprio caminho e tiveram êxito, outros que se formaram, só reproduziram o que o sistema determina.

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// E o que te faz feliz?

Ser reconhecida naquilo que faço com tanto carinho, que é a minha arte. Fora isso, meus gatos, família, chocolate, café, praia, viagens, cinema e comprar material de trabalho sem limite de crédito, muito bom!!!

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Digo isso a todas as pessoas, mesmo que seu trabalho não esteja incrível do jeito que você gostaria, não esconda, mostre, é uma forma de amadurecer. Quando a gente vai se reprimindo, porque não está de acordo com o padrão tal, isso faz com que você se feche e não encare a realidade do seu trabalho. Hoje eu escrevo, desenho e bordo dessa forma, amanhã, serei melhor, isso faz parte do processo, mas não me permito a esconder o que crio, eu mostro, pergunto, escuto coisas boas e ruins, e essas opiniões, avaliações e críticas me ajudam a ser melhor sem perder a minha essência. Eu não posso jogar fora aquilo que conquistei, seja o que tenha criado, veio de meu esforço, é um reflexo do meu pensamento diante das situações da vida e que se aprimoram conforme a minha dedicação.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou sempre com novos projetos, nesse momento, algo bem inusitado aconteceu, um curador chinês Jingjing Shi da Artbank, selecionou minhas obras para fazer parte do seu site, e, conforme a reação do mercado chinês há a possibilidade de exposições em   Shanghai e Beijing e isso será uma grande oportunidade para explorar o mercado exterior.

Aqui no Brasil, eu e minha irmã Cristiane Alonso, vamos dar oficinas no espaço Cultural La Casita, coordenado pela Nice Lopes, que é ilustradora e tem uma iniciativa incrível de levar arte através de cursos e feiras gráficas ao povo santista, vale a pena conhecer. Eu vou dar uma oficina de bordado para iniciantes e minha irmã de encadernação artesanal, no final de março, não percam!!

Fora isso, esse ano produzo três livros pela Poupée Rouge Produções Independentes, dois em fase de finalização “A fábrica de caixas” sobre gatos e o “Buraco” um livro adulto de imagens, com temática sexual e em breve, inicio a produção do livro “O beijo” que é uma metáfora sobre a importância transformadora da leitura.

E claro, a produção de bordados e Zines, continuam a todo vapor!!!

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