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Kat
Alden
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
25 anos . tatuadora

Pensando em cinco adjetivos, diria que sou uma pessoa independente, observadora, determinada, desorganizada e falante. Minha história de vida é pouco ortodoxa, sou baiana, filha de pais jovens, já morei em seis cidades diferentes dentro e fora do Brasil. Já quis ser doula, psicóloga, veterinária, bióloga, tatuadora e no fundo, bem lá no fundo, artista plástica. Contudo minha primeira graduação foi Administração!

Não obstante, arte sempre foi uma constante na minha vida. Desde os oito anos executo trabalhos manuais, com 15 anos comecei a fazer mosaico, com 16 comecei a fazer desenho, posteriormente desenho de observação e modelo vivo, também já experimentei cerâmica, escultura em argila, atualmente faço aulas particulares de pintura e curso Gravura na Escola de Belas Artes da UFRJ.

Tatuagem sempre foi uma vontade distante, acho que por estar muito distante do meu universo, mas acabou acontecendo naturalmente por intermédio de um colega de classe nas aulas de desenho, Ganso Galvão, que me convidou para ser aprendiz no estúdio dele e me abriu as portas para esse universo imenso da tatuagem e modificação corporal. Atualmente fora tatuagem e arte, gosto muito de andar de patins, ler, ficar em casa, meditar, estar em contato com a natureza e viajar sempre que dá, seja pra perto ou longe.

Kat Alden por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Atualmente tenho usado apenas a tatuagem como forma de expressão, pratico também pintura e desenho mas a título de estudo mesmo, porque gosto muito e me ajuda a aprimorar minha percepção visual, complementa e enriquece meu processo criativo.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Quando penso em um bom projeto de tatuagem o que mais me inspira é o desafio de entender o sentimento principal que a pessoa que vou tatuar quer comunicar. Acredito que mais que ilustrar um objeto/símbolo, na tatuagem o principal é traduzir o ímpeto que levou a pessoa a querer marcar em sua pele pra sempre afirmando isso.

Kat Alden por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Começa com uma boa conversa, pode ser pessoalmente, mas na correria da rotina nem sempre dá, então eu bolei um questionário abordando vários aspectos que fui entendendo como relevantes para o processo de criação do desenho da tatuagem.

Aos poucos fui percebendo que fazer com que a pessoa tire esse tempo pra responder o questionário e organizar em palavras os pensamentos, faz com que ela mesma reflita sobre suas motivações e o significado do ato de se tatuar. Depois de ler tudo eu guardo aquela proposta na mente, mas só vou de fato trabalhar no desenho na semana que tatuo, às vezes com alguns dias de antecedência, às vezes no dia anterior, que é quando eu busco dentre as referências que tenho salvas e referências fotográficas na internet algo que me motive a começar.

Essas referências são fotografias que eu mesmo tiro e outras que salvo, fotografias de moda, cenas de cinema, texturas aleatórias das ruas e da natureza, pinturas, mosaicos, colagens, bordados, enfim, já usei como ponto de partida desde o azulejo do banheiro da minha faculdade até um Monet. Pensada a ideia, algumas vezes eu chego a finalizar o desenho com nanquim no papel e outras eu finalizo uma parte e deixo o restante por finalizar no dia, direto na pele, com caneta.

Kat Alden por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Trabalho. Sentar para desenhar todo dia é o que faz com que eu explore e intensifique cada vez mais essa prática, e o mesmo se dá para tatuagem. É certo que há momentos de menor e maior inspiração, isso não tem como negar, mesmo assim sinto que é importante me manter praticando. Quando me percebo num momento criativo é mais fácil pensar em ideias e desenhar rascunhos ou às vezes só o movimento que eu quero que a tattoo tenha, busco por referências, visito exposições, espaços culturais, prédios que me inspiram, ando pelas ruas... eventualmente, num momento de baixa criativa ou no dia-a-dia vou voltar para essas anotações e de fato colocá-las no papel e lapidá-las para projetos de tattoo que me surgem.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito de projetos abstratos porque por não retratarem algo específico, abrem espaço para que cada um signifique aquelas formas com um pouco do que é seu. Isso para a tatuagem funciona muito bem, pois aquelas formas tomam novos significados ao longo do tempo, não concordam ou discordam necessariamente com nada, gosto de dizer que são um manancial de possibilidades. Dito isso, gosto muito também de projetos grandes, pois me possibilitam explorar algo que é objeto de estudo para nós tatuadores, que é o corpo e suas diretrizes e movimentação.

Kat Alden por Projeto Curadoria
Kat Alden por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Minha carreira na tatuagem é muito recente, tatuo há apenas um ano e meio, comecei como aprendiz no estúdio que hoje sou tatuadora e, não consigo me recordar de nenhum grande marco.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu nunca fui de cultivar ídolos, acaba sendo assim também nas artes. Sigo e admiro o trabalho de muita gente talentosa, contemporânea ou não, não só na tatuagem como em todas as outras áreas em que se dá a manifestação artística. O prazer e a emoção que me causa ouvir um bom instrumentista tocar no metrô, pode ser de mesma intensidade que entrar no Pompidou e ver um Duchamp pela primeira vez, ou sentir o cheiro da terra e do mato enquanto vejo o verde e o fluxo da água cristalina nas pedras, ou mesmo uma performance no corredor da faculdade. Pra quem já se pegou chorando com a luz no rosto de uma velhinha no trem, é injusto citar quatro ou cinco para levarem o crédito, por mais brilhantes que sejam.

Kat Alden por Projeto Curadoria
Kat Alden por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

O universo da tatuagem ainda é majoritariamente masculino e machista, trabalho em um estúdio tradicional e já bem consolidado no mercado e a equipe que era majoritariamente composta por homens agora está bem mais equilibrada neste sentido. A postura dos meus colegas de trabalho com relação a mim e às outras tatuadoras é respeitosa e acolhedora, isso não significa que não hajam atitudes e falas machistas que podem e devem ser colocadas em pauta e discutidas, e geralmente são. Acho muito importante o empoderamento de artistas femininas na tatuagem e acredito que ser parte de uma equipe mista é uma oportunidade grande de politizar questões que não seriam politizadas caso eu e outras mulheres não estivéssemos ali.

// E o que te faz feliz?

Viver a minha verdade, poder trabalhar no que eu acredito, ser sincera com quem eu me comunico e convivo e, por último mas não menos importante, aprender com a verdade do outro também.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ser autentica, buscar se entender e trabalhar em questões suas, sem gastar energia física e psicológica trabalhando questões alheias a você, que te foram impostas. E também praticar, muito, não tem nada que você verdadeiramente se dedique que não vai gerar frutos. E por frutos eu quero dizer um bom trabalho, algo que você olhe e fique satisfeita, mesmo que momentaneamente.

Kat Alden por Projeto Curadoria
Kat Alden por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

No momento não, me concentro nos projetos de tatuagem e em estudar algumas técnicas e teorias que dizem respeito as artes em geral. Me sinto num momento de muita entrega e pesquisa, tentando entender ainda esse terreno vasto e fértil da tatuagem contemporânea, sem grandes pretensões além disso.

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