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Kalina
Juzwiak
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
30 anos . artista . designer

Nasci e cresci entre a natureza e o urbano. Santos foi a minha cidade natal, mas logo mudei para São Paulo, onde vivi grande parte da minha vida. A natureza fazia parte do meu crescimento em quase todos os finais de semana. Montanha ou mar, em família e com esportes ao ar livre.

Uma família multicultural ajudou para o contato e aprendizado de diferentes línguas e tradições. Meus pais incentivaram o nosso, das minhas irmãs e meu, desenvolvimento artístico através de viagens. Diários eram desenhados ao invés de escritos, e por isso esta técnica é uma coisa presente na minha vida desde pequena também.

Em uma fase da minha infância fui uma criança bem tímida, e por isso, me expressar sobre papéis foi uma forma que encontrei para externalizar tudo aquilo que estava dentro de mim. Eventualmente, já maior, pedi para os meus pais para me aventurar em uma superfície diferente - a parede do meu quarto. Queria testar e experimentar uma nova forma de aplicação do que tinha na minha mente. E assim comecei, primeiro me restringindo ao espaço atrás da porta, ás minhas primeiras linhas em superfícies maiores.

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Até e faculdade era uma paixão que se mantinha a quatro paredes, trancada em gavetas. Mas, durante o curso de Arquitetura e Urbanismo, ao utilizar o aprendizado em ilustrações de perspectiva - e doodles durante aulas teóricas, fui incentivada por amigos a abrir as tais gavetas.

Alguns anos depois comecei a me aventurar mais, e partir para a parede de amigos e familiares, até cobrar uma primeira arte por um valor quase insignificante na época, mas que marcou a possível comercialização daquela forma de expressão. Conscientemente foi uma forma de desenvolver a técnica, segurança e a minha própria identidade para me arriscar em paredes ainda maiores e por mais retorno financeiro.

Tudo começou realmente com uma atitude, de querer me abrir mais para o mundo, de deixar uma marca positiva e emotiva na vida das pessoas. Esta, aconteceu em forma de arte. Após experiências nacionais e internacionais - durante algum tempo vivendo na Suíça - decidi desenvolver uma outra aplicação da criatividade e me aventurei nos estudos em design gráfico. Desde então venho me aventurando em projetos de diferentes tamanhos, disciplinas e impacto, usando a criatividade como ferramenta de minhas habilidades.

Hoje digo que faço arte e design, com uma visão sistêmica. Pessoas e empresas me escolhem para transformar suas visões em realidade e criar projetos e experiências disruptivas.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A diversidade e versatilidade me movimentam. Cada dia em um lugar novo, novas ideias, novas superfícies, novos desafios. As linhas e energias fluem. As ferramentas para este mundo de possibilidades são inúmeras.

Estampas começam com ilustrações sobre papel, em nanquim, e tratamento e acabamento digitais. Artes em paredes podem variar de canetas permanentes a tintas acrílicas e resistentes à água. Telas acontecem de forma livre com os mais variados materiais. Lápis? normalmente fica como coadjuvante.

Não gosto de me prender a técnicas fixas, gosto de explorar, de testar e tentar as minhas próprias misturas. O momento define os meios e o resultado, deixando o inconsciente se expressar.

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// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Pode parecer generalista, mas tudo ao meu redor me inspira. A observação é uma característica que a minha timidez de infância me deu de presente.

Observo as pessoas, suas expressões, suas roupas, as cores, o ambiente em que estou, a natureza, as nuvens. É algo que acontece quase que inconscientemente. Ao entrar em qualquer lugar é como se os olhos escaneassem tudo aquilo que compõe o espaço. Pense na criação de um belo smoothie. Ingredientes de diferentes cores e sabores. Unidos e batidos criam um resultado inesperado.

A inspiração e a criação funcionam assim, como um processo natural de inspirar e expirar.

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// Como é o seu processo criativo?

O processo depende do momento. Não existe regra e nem fórmula. Mas, posso dizer que em grande parte dos momentos, flui com leveza e certeza.

Por vezes de forma rápida e espontânea. Em outras, exige um pouco mais de procrastinação criativa. O ato de inconscientemente carregar e desenvolver a construção na mente. A seleção consciente de imagens que inspiram ou que se relacionam com o determinado cenário. Até que de repente a mente informa, coloque para fora. E então a composição vai tomando forma, quase que um reflexo daquilo que vejo nas minhas janelas. Movimento e linhas.

O incerto e espontâneo que constroem a certeza de aquilo foi feito para aquele alguém. Ou espaço.

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// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Me mantenho acordada. Presente nos momentos, aberta para absorver o meu entorno, acordada para me interessar por tudo aquilo que se aproxima. Pesquisas externas em diferentes meios e disciplinas, e uma constante busca no interno. Um jogo entre consciente e inconsciente. Ser criativo não é só conhecer ou produzir arte. Para mim, ser criativo, é uma atitude perante a vida. É estar aberto. É aplicar o isto no meu dia a dia. É tornar-se um hábito. E se tornou para mim.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

As criações são diárias, como palavras que são trocadas em um diálogo. Às vezes tenho obras favoritas, mas acredito sempre que posso mais e melhor. Busco uma evolução constante, pratico o desapego e por isso a cada dia me apaixono novamente.

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

A minha carreira profissional começou na Arquitetura e Urbanismo. Muitas aulas, projetos e trabalhos. De estágios, a empregos ao meu próprio escritório. Mas sempre uma vontade de evoluir, de desconstruir o sistema e construir algo multi disciplinar. Onde pessoas e matérias se juntam para criar o novo. Mentes, criações e colaborações que possam permitir isto.

Em meio a questionamentos dos métodos e do ambiente que estava inserida, deixei a arte fluir mais. Começar a desabrochar. Decidi fazer uma transição, mas sentia que esta precisava ser feita longe da minha zona de conforto absoluta.

Mudei para a Suíça, com um dinheiro que guardei da experiência de ter o meu próprio escritório de arquitetura. Estimei alguns meses longe, mas me deixei aberta para a história de viver de arte e poder explorar outra cultura. Pensava que se sobrevivesse bem de arte em um país mais distante - onde tinha alguns contatos, e inclusive uma irmã - conseguiria voltar para o meu habitat e transbordar esta vontade. E foi isso que aconteceu.

A Suíça foi um passo de extrema importância para o meu crescimento pessoal, para o meu relacionamento com a minha irmã, para a desconstrução de uma timidez ainda um pouco enrustida, para a saúde e a segurança de viver da arte. Ser autônoma. Ser uma empreendedora criativa.

Desde a volta, estes últimos três anos, foram de ascensão. No meio do caminho decido também me graduar em Design Gráfico, que me deu outra visão e abriu outras portas para oportunidades e composições também. Uma rotina diária de constante construção, alimentação de uma fonte quase inesgotável de criação e constante evolução.

Ação! Esta palavra faz parte de todos os dias. Altos a baixos fazem parte, assim como a escalada de uma montanha. Para alcançar o próximo pico, tenho a consciência de que preciso descer deste que estou admirando a vista no momento. A caminhada continua e tenho aproveitado cada momento da melhor forma que posso, sempre com foco e disciplina. A arte é um mero produto de um estilo de vida que escolhi viver. E ativamente escolho todos os dias.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

É curioso observar que quando estava focada na arquitetura, buscava minhas inspirações no Design. Quando passei pelo design, buscava inspirações na Arte. E na arte busco inspirações em tantos outros caminhos.

A fonte de inspiração é ativa e constante. Às vezes sinto a necessidade de estudar um pouco mais fundo alguns artistas, mas ao mesmo tempo me encontro vendo imagens desde abajures, a móveis, a posters, a composições de um espaço, ao desenho do piso e da metamorfose das nuvens. Tudo ao nosso redor tem movimento, e é este que me alimenta.

A única verdadeira inspiração que posso compartilhar com certa certeza, é a valorização do branco. O respiro. O silêncio. Estes elementos que para mim geram o equilíbrio. O vazio às vezes carrega mais informações do que o espaço preenchido.

É o equilíbrio entre todas as partes envolvidas em um sistema, que torna ele harmônico. E ah! o silêncio! Aquele que só é interrompido pelo respirar, pelos pássaros, pelo acontecer orgânico de um ambiente em movimento natural. Posso sentar ali, sozinha, por horas, e apenas sentir.

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"A inspiração e a criação funcionam assim, como um processo natural de inspirar e expirar."

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

No meu ambiente não sinto necessariamente obstáculos para a liberdade de expressão. Penso que muito depende da postura nas situações. O que mais sinto, neste meio, é a descrença em relação ao artista - seja homem ou mulher - existem pré - configurações que nos definem apenas por um rótulo. Sou um ser adaptável e acredito no potencial de mudar estas configurações estabelecidas, seja na mente de um humano ou em um espaço.

Sim, existem ambientes onde isto se torna mais difícil. A crença, a voz, a opinião demora um pouco mais a ser ouvida. Mas aprendi a ler e interagir em ambientes, para deixar, ao fim, uma marca positiva. Ao quebrar os tabus impostos pelo status quo, é possível ganhar admiração, dos mais variados homens e mulheres.

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// E o que te faz feliz?

Aquilo que escolho fazer. Quando era mais nova carregava um peso de ter que agradar, de ter que estar em um local. Com o tempo aprendi a fazer as minhas escolhas. Companhias, caminhos, clientes. A decisão é minha. Trabalho e lazer se tornaram um só.

A vida é a vida que escolho caminhar todos os dias. E se não estar feliz nesta vida, quando é hora de estar?

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações ?

O caminho não é um mar de rosas e antes de existir a criação, existe a criação de uma disciplina. Acreditar e trabalhar para construir e alcançar as vontades.

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// Você tem algum novo projeto em andamento? Aproveite esse espaço para compartilhar um pouco sobre ele.

A criação de novas ideias e propósitos é diária. Construções mentais que vão passando para o plano físico aos poucos. Uma das grandes felicidades que tenho no momento é a oportunidade de co-criar com a minha irmã que é fotógrafa. Ela capta paisagens e momentos, de forma espontânea, e capta a sutileza e força de um mesmo clique. Com a sobreposição de olhares, de uma mesma origem, mas residindo em polos distantes, estamos criando séries, onde desconstruímos uma o olhar da outra, e criamos assim imagens complexas e ricas, mas que ao mesmo tempo instigam pela simplicidade de um momento vivido intensamente. Aos poucos estamos divulgando e comercializando esta colaboração que chamamos de #kajuemaja ( lê-se cajú e maia ).

Como digo para os que me conhecem de mais perto. Não gosto de dizer que sou artista, designer ou arquiteta, mas sim que faço arte e design com uma visão sistêmica. Acredito na pluralidade e interconexão de disciplinas. E aquela ideia, desde o início de minha carreira de trabalho - ainda na arquitetura - vem se tornando realidade. Criar e participar de um negócio multi disciplinar, onde pessoas, de diferentes áreas colaboram para criar projetos integrados e impactantes. Este novo ano que começa trará também um novo marco nesta vontade. Junto com o Marcos Korody, meu sócio, amigo e amor, decidimos unir os nossos super-poderes e experiência em diferentes mercados, e estamos criando uma nova empresa. Uma plataforma de mentes e mentores multidisciplinares para marcas e empreendedores, concebida para catalisar projetos humanos disruptivos, através de uma visão sistêmica e métodos de alto rendimento. O objetivo é gerar impacto positivo em suas esferas de influência e na sociedade. Em breve mais detalhes da “person.a”

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