m
Julieta
Fialho
Brasil
vivendo em São Sebastião . SP
27 anos . arquiteta . artista

Nasci e cresci na Praia de Camburi, Litoral Norte de São Paulo, e desde muito cedo estive conectada com a natureza e o mar. Na infância e adolescência dividia meu tempo entre a escola, o surfe e os amigos.

Sempre fui apaixonada por criar, inventar e construir coisas. Aos 18 anos me mudei para São Paulo para estudar Arquitetura e Urbanismo na Escola da Cidade. Depois de formada, trabalhei em alguns escritórios de arquitetura, mas não me sentia realizada: eram muitas horas de trabalho na frente de um computador, e sentia falta de uma proximidade real com os materiais e do trabalho com as próprias mãos.

Há dois anos comecei a fazer xilogravuras no meu tempo livre. A paixão pelo trabalho manual e o contato com a madeira foi crescendo e aos poucos fui trocando a rotina de um escritório por um trabalho artístico prazeroso, que eu acredito e que me realiza como pessoa.

Em 2016 criei a Cauda Gravuras, que são xilogravuras que estampo em diferentes superfícies e materiais como: papel, tecido e folha de madeira.

Busco com meu trabalho resgatar minha memória de infância da praia e aproximar as pessoas da natureza, com desenhos inspirados em seres marinhos a animais da Mata Atlântica.

Depois de nove anos morando em São Paulo, no começo desse ano, 2017, resolvi voltar a morar na praia de Camburi e abrir meu ateliê de xilogravuras. Apesar de ser recente a mudança de vida, já me sinto muito feliz e realizada em poder trabalhar com o que acredito, e poder dividir meu tempo entre o mar, o sol, o surfe e a arte.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

No momento utilizo a xilogravura para me expressar. É uma técnica que me mantém calma, trabalha minha paciência e ao mesmo tempo minha força. Gosto muito da xilo pois é uma técnica onde o imperfeito faz parte do processo e do resultado.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Trabalhar com madeira me inspira muito. É um material vivo, que tem cheiro, cor e textura. Cada pedaço de madeira que esculpo é único.

Além disso tudo que vem da natureza me inspira. Surfar é um dos momentos que mais me inspiram, talvez por isso minhas obras estejam tão relacionadas ao tema marítimo.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Não penso muito antes de criar uma obra, gosto de ser mais intuitiva. Minhas melhores criações nasceram espontaneamente, e muitas vezes o que considerava um erro acabava tomando outra forma e se reinventando.

Quando pego o pedaço de madeira tento aproveitar o máximo dele, por isso muitas vezes o desenho nasce de uma forma já predefinida. Faço um esboço do desenho em um papel e depois passo para a madeira. Muitas vezes acabo adaptando o desenho para encaixar melhor com os veios da madeira.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Acho que hoje morando na praia não faço nada em específico, fica mais fácil pois tudo ao me redor me inspira e me alimenta a criatividade. Tem dias que estou lavando a louça e plim.... surge uma ideia.

Antes, quando morava em São Paulo, eu sabia que precisava estar em ambientes silenciosos e perto da natureza para poder criar.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Acho muito cedo para ter um projeto preferido, pois ainda estou testando e experimentando muitas coisas.

Comecei estampando as xilogravuras em folhas de papel e tecidos. Com o tempo as pessoas começaram a querer comprar a matriz de madeira, mas eu não queria vender, foi daí que surgiu a ideia de estampar em folha de madeira. Assim a pessoa poderia relembrar a origem da técnica, além dos veios da madeira darem movimento para fundo, como uma espécie de água.

Agora estou introduzindo as cores e colagens de papel, e testando sobreposições de imagens, e isso me abriu um universo de possibilidades pela frente que ainda tenho para explorar....

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive dois momentos muitos importantes na minha vida artística.

O primeiro foi quando descobri a Xilogravura. Cansada do ritmo do escritório de arquitetura, em 2014 resolvi tirar um tempo para mim, e fui morar 6 meses em São Francisco – Califórnia. Foi do ócio criativo que surgiram as minhas primeiras xilogravuras. Aprendi sozinha vendo vídeos no Youtube, e quando voltei para o Brasil fiz um curso com o Luciano Ogura para aperfeiçoar a técnica. A partir daí não parei mais de cavar madeiras.

O segundo momento está sendo agora que resolvi trabalhar apenas com meus projetos, e me mudei para Praia de Camburi. Está sendo um momento muito importante de desconexão do excesso de informações que estamos sujeitos hoje em dia, e de conexão com minha essência e com a natureza.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minhas inspirações e influências vem muito da natureza, especialmente do mar. Agradeço aos meus pais por terem me criado em um lugar tão especial, e terem me dado a liberdade de poder inventar, criar, e fazer tudo que eu acreditava, pois hoje vejo o reflexo que isso teve na minha vida, no meu trabalho e nas minhas escolhas.

Acho que não tenho um artista preferido, mas tenho muitos artistas brasileiros que me inspiram: Samico, J. Borges, Angela Leite, e meu professor de xilogravura Luciano Ogura.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Me considero uma artista muito jovem, ainda não enfrentei nenhum preconceito, mas como já sofri em muitas outras ocasiões acredito que infelizmente isso deva acontecer. Mas cada dia que passa fico feliz de ver as mulheres mais fortes, unidas e empoderadas. Um projeto como esse do Curadoria é muito importante para mostrar o universo criativo feminino para o mundo.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Tantas coisas...

Estar dentro da água é uma das principais, pois me ensinou muito sobre a vida e a respeitar a natureza. Nunca fiz terapia, nem meditação, mas acredito que o surfe é a maneira que encontrei de esvaziar a mente, de refletir e de me auto conhecer. O silêncio, a imensidão, a força da água, e poder presenciar um nascer ou um pôr do sol dentro do mar é um daqueles momentos que agradeço simplesmente por existir. Além de estar rodeada da beleza da fauna marinha.

Muitas outras coisas me fazem feliz também: viajar, comer, desenhar, esculpir na madeira... Mas acho que agora o que mais me faz feliz é poder ter tempo. Tempo para tomar um café da tarde com minha mãe enquanto observamos os pássaros na nossa varanda, isso me traz uma paz e uma felicidade gigante, e estive distante durante os anos que vivi na cidade.

Sinto que estou no momento mais feliz da minha vida, pois me sinto realizada profissionalmente, e feliz de ter encontrado um trabalho que eu acredito, que alimenta minha alma, que me desafia, e que me faz ser apaixonada pela vida e pela natureza todos os dias.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não sei se podemos chamar isso de instinto, mas sinto que as mulheres possuem uma sensibilidade especial, e que é só estar atento a esse chamado que está aqui dentro e seguir em frente. Tudo que fazemos verdadeiramente e de coração aberto, a vida nos retorna em dobro.

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho ido bastante ao porto dos barcos caiçaras na praia de Boiçucanga. Tudo que vem do mar me inspira muito, e agora estou tentando inserir nos quadros vestígios do mar, como pedaços de rede e de madeira.

Acho que vai dar certo. Aguardem para ver o resultado...

Julieta Fialho por Projeto Curadoria
COMPARTILHE
b
//+entrevistas