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Juliana
Manara
Brasil
vivendo em Londres . Reino Unido
34 anos . fotógrafa . artista

Nasci no Brasil, em Campinas - SP, e vivo em Londres há 8 anos. Estudei Comunicação Social e Fotografia na Universidade PUC e foi onde consegui meus primeiros trabalhos fotografando para revistas e jornais. Percebi que a fotografia, além de uma paixão, se tornou o recurso que poderia me dar oportunidades. Passei a conhecer muito sobre fotografia, ainda com uma câmera analógica, aprendendo sobre filmes e revelação, gostava de freqüentar diariamente o Dark Room da universidade. Era uma terapia passar horas desenvolvendo aquelas fotos. Com propostas e pequenos trabalhos aparecendo, eu percebi que era hora de investir nessa carreira. Eu me preparei, vendi todo equipamento e carro, juntei dinheiro e me inscrevi para estudar em um instituto de fotografia em Paris e foi a transformação para tudo que vivo hoje.

Em Paris, além da fotografia comercial eu mergulhei em um mundo mais artístico. Muitas ideias criativas que tinha no passado passaram a se tornar realidade pois aprendi muito a desenvolver imagens e toda parte desde a iluminação, modelos e design até a pós-produção. Conheci fotógrafos e artistas conceituados através de palestras ou visitas em seus estúdios. Conversar com eles e acompanhar o estilo de vida que levam, embora muito difícil, se tornou para mim uma inspiração e também um desejo de atingir pelo menos um pouco daquilo através da minha prática.

Hoje vivo da arte e da fotografia.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Fotografia. Tenho câmera digital e analógica. Gosto da 35mm mas também utilizo câmeras de diferentes formatos como 4x5 de grande formato. Além da fotografia por si própria, eu gosto de misturar com outras práticas como colagens e interferir nas fotos tanto utilizando a tecnologia e softwares ou mesmo pintando e grafitando sobre elas.

Eu criei personagens para as obras e eles expressam a nossa existência de uma forma surreal mas explorando temas que acontecem no nosso dia a dia. Não foco somente em assuntos polêmicos, gosto de abordar fantasia e beleza que também existem no nosso mundo.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Muitas coisas me inspiram. Como já desenvolvi uma ideia e um estilo, eu estou sempre em busca de mais conhecimento relacionado ao meu trabalho, e isso sempre ajuda nas inspirações.

Gosto muito de pinturas de artistas do séculos passado, por exemplo, ver o mundo que eles viam e tentar enxergar as transformações. Eu amo o Bosh e tenho livros e livros com as obras dele. Estou sempre envolvida com exposições modernas, assisto filmes, leio e dou aula em um Instituto de Fotografia em Londres que envolve muitas práticas criativas, portanto estou sempre rodeada de pessoas com ambições parecidas e que compartilham muitas ideologias que, de uma certa forma, ajudam muito.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Sempre ando com um caderninho e um lápis. Se estou no metrô e vejo um poster que as cores me chamam a atenção, já surge uma ideia e eu já escrevo para não esquecer. A verdade é que essa criação não é forçada, está dentro de mim, algo natural. Depois me concentro nas inspirações e estudo as ideias e as mais possíveis de desenvolver. Então eu desenho melhor a minha proposta de trabalho, como se fosse um arquiteto desenvolvendo a planta de uma casa.

Meu trabalho envolve design de roupa para os personagens, de cenário para a foto ou um lugar na natureza, além dos equipamentos, e preciso ir atrás disso pois é uma das principais partes para a composição da obra.

Tem trabalhos que preciso da ajuda de outros profissionais então junto o time que pode colaborar para isso.

Depois começa o trabalho de produção e pós-produção. E como expor ou apresentar para o mundo.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu gosto de vários, tem alguns que simbolizam momentos pessoais e eu crio importância para eles, mas não chamam atenção do público da mesma forma que chama para mim. Tem outros que atraem os olhares do público e interesse de galerias, e esses trabalhos deram destaque para minha carreira artística, sem mesmo eu imaginar durante a criação que teriam tanta atenção. Um exemplo desses foi uma série chamada Freedom, desenvolvi pensando nos animais e criei uma série de fotografias em formato Tríptico, 3 partes compondo uma só obra. Acredito que essa obra não precisa de muito para expressar um valor universal e foi o maior sucesso de todas que já fiz até hoje, em termos de venda, exposição e mesmo a atenção e os feedbacks que recebi de pessoas que conheceram. A prática e o desenvolvimento de cada um pode ser diferente, alguns mais simples com expressão forte, outros utilizo muitas técnicas diferentes e pode levar muito tempo. As cores influenciam as linhas e as histórias contadas pelas imagens influenciam o valor de cada obra ou projeto. 
 Minhas obras preferidas não tem valor financeiro.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Deixar o Brasil para estudar em Paris foi legal no começo, mas perceber que ficaria mais tempo sem datas para voltar foi difícil pois amo muito o Brasil. E depois deixar Paris para viver em Londres e decidir que aqui tentaria crescer como profissional.

Acho que Londres ajudou pois concentra muitos artistas e tem muitas coisas acontecendo na cidade mas, de uma certa forma, aqui é muito concorrido e para ter destaque tem que realmente trabalhar e se dedicar muito. Acho que essa energia ajuda muito.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu gosto de muitos artistas do passado, como disse antes, Hieronymus Bosh é um dos prediletos, eu adoro os personagens e a guerra com a realidade e a fantasia que ele pintava em 1500 acredito. Outros pintores também influenciam bastante, mas para citar um que estou sempre acompanhado e amo muito é o alemão Jonas Burgert, eu acredito que vejo o mundo da fantasia da mesma forma que ele pinta e tenho prints dele que nunca me canso das cores.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria

Lógico não posso deixar de citar fotógrafos.

Eu estou numa fase, talvez devido as aulas de fotografia que dou na Speos - Instituto de Fotografia - onde foco muito nas fotografias de moda, embora não tenha nada a ver com minhas obras. Tenho desenvolvido muitos projetos onde esses fotógrafos são parte fundamental para o processo criativo. Eu adoro Paolo Roversi, ele foi um dos meus tutores em Paris, conheci ele pessoalmente e ele também dá aulas no instituto em Paris. Conhecer ele em pessoa me fez sentir ainda mais o poder das fotografias de moda que ele desenvolve. Gosto muito do Tim Walker também.

Designers como Alexander McQueen também já me influenciaram através de temas, roupas , valores e cores.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Não sei responder diretamente sobre preconceito com se expressar livremente, mas sim pela própria mulher ter o reconhecimento como artista, esses debates sobre a mulher no mundo da arte está em alta. Para ela se expressar livremente precisa também ter o reconhecimento artístico primeiramente.

Eu espero estar muito enganada, mas se for olhar os artistas que citei na pergunta  acima são todos homens, eu acompanho muitas mulheres artistas e fotógrafas incríveis que gosto muito e elas são muito provocativas, principalmente Tracey Emin, mas gosto muito de outras como Charlotte Corbett, Sarah Luccas e a incrível Louise Bourgeois, mas elas não são inspirações para meus trabalhos mas sim como mulheres e eu as adoro artisticamente.

Mas às vezes, quero muito estar errada, sinto que ainda existe uma adoração por homens artistas. Tivemos essa discussão no instituto, onde alunos tinham que trazer nomes de fotógrafos prediletos e iríamos debater sobre esses artistas, tivemos provavelmente 2 mulheres citadas e 12 homens.

Vejo também que está havendo uma importância e um impacto para as causa feministas onde envolve não somente artistas mas todas as mulheres no mundo e assim ter o respeito igual pelos sexos.

O mundo, ou falando melhor, o mercado da arte está com a preocupação de representar mais mulheres artistas então nos últimos meses acompanhei exposições, temas e etc focado em mulheres artistas.

Tenho muitas amigas feministas e artistas, e as obras delas são focadas nessas causas e tem bastante atenção para elas. Elas se expressam em defesa das mulheres e utilizam temas às vezes até “vulgar” para defesa das causas das mulheres e assim ganharam respeito, pelo menos da sociedade londrina, uma cidade que tem pessoas mais abertas. Eu não sei no Brasil, ou outras países como seria.

Se eu sofri algum preconceito eu não sei dizer, não senti diretamente. Mas sim, já passou pela minha cabeça que se eu fosse homem com as mesmas práticas se seria diferente... não vou ter essa resposta nunca mas já pensei nisso...

// E o que te faz feliz?

Criar e criar e ver as obras prontas e conseguir me comunicar através delas.

Além da arte, me faz feliz conhecer pessoas interessantes com visões do mundo parecidas e que agregam coisas positivas.

Viajar me faz feliz.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não parar de criar e não ter medo de fazer algo que não dê certo ou sentir vergonha de mostrar para o público. O público ensina o artista a crescer. Eu só consegui melhorar e continuar a crescer pois as pessoas que seguem meus trabalhos e os compradores de arte proporcionam as respostas e os impactos que geram nossas atividades.

Muita gente não acredita em si próprio e por isso deixa o talento de lado, na minha opinião arte não precisa ser esteticamente perfeita, mas acho que ela deve sim tocar as pessoas de certa forma.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria
Juliana Manara por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, sempre. Novos personagens estão sendo desenvolvidos e uma nova série de fotografias estão em processo. Estou focada em algumas práticas mais conceituais e video também. Se os planos derem certo estamos focados em uma exposição em São Paulo em 2018.

Juliana Manara por Projeto Curadoria
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