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Juliana
Fiorese
Brasil
vivendo em João Pessoa . PB
30 anos . ilustradora

A minha primeira lembrança artística vem da minha mãe; eu lembro demais que, na minha infância, ela gostava muito de desenhar comigo (ainda hoje, de vez em quando, quando preciso trabalhar até tarde, ela pega papel e lápis de cor para me acompanhar). Então, eu sempre gostei muito de desenhar - como a maioria das pessoas -, nesse período; e esse gosto percorreu por todas as seguintes fases da minha vida, mesmo que com uma frequência menor.

Na adolescência o meu shopping eram as livrarias e as papelarias, eu não conseguia sair desses lugares sem comprar livros, canetas e lápis coloridos. No momento de decidir sobre que área escolher para prestar vestibular, eu ainda estava um pouco perdida. Sabia que queria trabalhar com desenho, de alguma forma, mas não sabia qual era o curso. Então escolhi Arquitetura e Urbanismo. Eu adoro arquitetura, mas não era o que me fazia sentir realizada profissionalmente. Trabalhei ao longo de 5 anos dentro de um escritório de arquitetura e, durante esse período, surgiu a oportunidade de estudar Design Gráfico em 2013.

 

Juliana Fiorese por Projeto Curadoria

Até então, eu não tinha nenhum contato com a área. E foi dentro do curso de design que eu comecei a me dedicar mais à ilustração. Em todos os trabalhos que eram passados, eu dava um jeito de colocar algum desenho meu nas apresentações. Então, com o tempo, eu resolvi me dedicar apenas à esta área; saí do escritório de arquitetura, e hoje trabalho com o que mais gosto: ilustração. Bem aos pouquinhos comecei a desenvolver o meu próprio estilo, estudando cada vez mais sobre esse universo tão mágico e divertido. E continuo estudando, para aprender sempre e cada vez mais.

Eu sempre tive incentivo dos meus pais, e acredito que esse apoio familiar é muito importante.

// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu sempre uso lápis grafite, nanquim e pintura e colagem digital na maioria dos meus trabalhos. Todas as possibilidades de expressão artística me encantam; espero experimentar muitas ao longo do meu trajeto como artista.

Juliana Fiorese por Projeto Curadoria
Juliana Fiorese por Projeto Curadoria
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// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A inspiração vem de diversos lugares: da beleza da vida, do dia-a-dia, das pessoas, da natureza, da forma como as coisas acontecem; esses certamente são alguns dos meus canais de inspiração.

Mas, uma das minhas maiores motivações para criar, vem da literatura. Histórias que conseguem me transportar para universos e situações totalmente diferentes das que eu vivo, me encantam e me transformam de tal maneira que eu sinto necessidade de colocar no papel algo relacionado a tais experiências, sempre tão mágicas e tão incríveis.

E, além disso, só pelo fato de eu me emocionar de alguma forma com o que eu desenvolvo, serve de inspiração para continuar o meu trabalho e tentar melhorá-lo sempre. Ainda mais quando eu percebo o retorno das pessoas, que também se sentem tocadas pelo o que faço. É muito satisfatório e inspirador.

// Como é o seu processo criativo?

O meu processo criativo tem início, principalmente, nas observações das situações e das personagens que eu encontro nos livros. A observação geral de situações do dia-dia, de cenas de filmes, e até mesmo nas músicas, vão fazendo parte do repertório e as ideias começam a surgir. Quando estas já estão bem formadas, dou início ao processo de ilustração, mas sempre aberta ao surgimento de novas possibilidades.

Eu sempre começo os meus desenhos com lápis grafite e sempre faço diversas e diversas correções ao longo de todo o trabalho. A possibilidade de conseguir apagar e refazer algum traço que eu considero ruim me ajuda demais no processo de criação. A finalização e os detalhes são feitos com nanquim. Por fim, faço a parte de colorização no Photoshop.

Juliana Fiorese por Projeto Curadoria
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// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu gosto muito de observar, escutar, refletir. E sempre estou com algum livro; as histórias sempre me trazem ideias que preciso expor, e isso acaba mantendo a criatividade funcionando. Gosto de descansar quando não estou conseguindo produzir nada; isto é um combustível para as próximas criações. Também estou sempre em busca de referencias; gosto muito de ver o trabalho de outros artistas.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

É muito difícil escolher o projeto preferido, pois todos foram/são desafios muito grandes e eu acabo colecionando sentimentos muito intensos por cada um deles, principalmente pela dedicação em cada etapa do processo. Ver que eu alcancei os meus objetivos com cada trabalho me emociona muito, e isso acontece com todos os projetos desenvolvidos.

Mas, existem duas ilustrações que eu tenho muito carinho por ter feito e que eu posso destacar aqui.

Uma é a minha ilustração da Alice, que desenvolvi para o projeto do livro “Alice’s Adventures in Wonderland Illustrated by 150 artists”, publicado  em comemoração aos 150 anos da história “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”. 

Juliana Fiorese por Projeto Curadoria
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O projeto reuniu 150 ilustradores do mundo inteiro para desenhar, cada um e ao seu estilo, uma página deste livro e continuar transmitindo a história de Lewis Carroll. A obra foi produzida na China e todos os lucros com a venda dos livros são destinados à educação de crianças da China e da Mongólia, onde pretendem construir uma escola de arte onde as crianças possam aprender, experimentar e desenvolver sua imaginação. Este é o principal motivo por destacar aqui como um dos preferidos.

A outra ilustração que destaco é o desenho da Mônica, para o livro “Mônica(s)”, desenvolvido para comemorar o aniversário de 50 anos da Mônica, publicado pela Maurício de Souza Produções (MSP). O livro também contou com a participação de 50 artistas, onde cada um representou a sua própria Mônica. Eu devo aos gibis da “Turma da Mônica” toda a minha paixão atual pela literatura, que move o meu trabalho com ilustração. Fazer parte deste projeto foi um dos acontecimentos mais felizes e importantes em todos esses anos que trabalho com desenho.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O marco mais importante para a minha carreira foi conseguir sair do escritório de arquitetura para me dedicar exclusivamente à ilustração. E essa foi uma das decisões mais difíceis que eu tive que abraçar, principalmente por conta das incertezas que acompanham os artistas.

Ter um projeto realizado através de financiamento coletivo, no início dessa decisão, assim como ser convidada para participar de dois projetos incríveis, Alice 150 e Mônica(s), também foi muito importante para minha carreira e me fez acreditar que eu conseguiria trabalhar com o que amo fazer.

Atualmente, toda a força e vontade que tenho em continuar vem das pessoas que acompanham meu trabalho e o tratam com um carinho imenso. Sou muito grata a essas pessoas.

Juliana Fiorese por Projeto Curadoria
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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Existem muitos artistas pelos quais sou apaixonada pelos trabalhos que eles desenvolvem/desenvolveram. Gosto muito dos trabalhos da Nina Pandolfo e da Anna Anjos; as cores de Frida Kahlo e de Tarsila do Amaral me arrebatam. Sou encantada pela arte do Mark Ryden, da Nicoletta Ceccoli e do Shiko, dos quais estou sempre pesquisando seus trabalhos, seja em livros ou na internet. Adoro acompanhar as ilustrações da Frannerd e da Iraville, e diversos outros artistas, que acabam me motivando a aprender e melhorar cada vez mais.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu nunca sofri, no que eu desenvolvo por aqui, nenhum preconceito por expressar as minhas ideias pelo fato de ser mulher. O que eu sinto é que ainda há um preconceito sobre a profissão do artista no geral e uma certa desvalorização como profissão; mas também sinto que isso vem mudando lentamente.

Juliana Fiorese por Projeto Curadoria
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// E o que te faz feliz?

Literatura, estar com as pessoas que eu amo, minha família, meu marido, conseguir trabalhar com o que eu escolhi fazer por amor, as conquistas de cada projeto, tudo isso me deixa muito feliz.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações ?

Eu sempre falo que produzir muito é essencial – e realmente é, principalmente no início da carreira. Mas também é importante saber separar a vida profissional da vida pessoal.

Sair, observar o comportamento das pessoas, da natureza, refletir sobre as situações do dia-a-dia, ler livros, assistir filmes e séries, é essencial, pois é o que vai proporcionar referência visual, o que é muito importante para a criatividade. Descansar também é imprescindível, para recarregar as energias.

Manter uma rotina, desenhar muito, errar e aprender com os erros, pesquisar ilustradores e artistas que você gosta vai ajudar muito na jornada em busca do seu estilo próprio de desenho. Quanto mais você produz, mais ideias novas vão surgindo. E sempre procurar melhorar naquilo que se faz, nunca ficar confortável em uma zona de conforto.

Publicar os trabalhos na internet para que as pessoas comecem a conhecer o seu trabalho. A internet está aí cheia de ferramentas facilitadoras para nos ajudar, é só saber aproveitá-las. É a partir disso tudo que se ganha experiência e as oportunidades aparecem.

Ter consciência que é uma caminhada difícil também é muito importante, e por isso exige uma força maior da pessoa que escolhe trabalhar com desenho. É importante não desistir na primeira dificuldade que aparecer, porque elas irão aparecer sim. Vão surgir momentos de questionamentos, por isso, de todos os pontos que falei aqui, o mais importante é que se tenha amor pelo que faz. Sem o amor pela profissão – e isso vale para todas as áreas – dificilmente o que você escolheu vai dar certo. Ame o trabalho que você escolheu fazer.

Além disso, eu diria para não ter medo, para se arriscar sempre. Eu acredito que qualquer pessoa pode vir a tornar-se um ilustrador, desde que queira realmente e que lute por isso; como é com qualquer outra atividade, na minha opinião.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Ainda estou lapidando uma ideia para pôr em prática ao longo deste ano, mas que talvez o projeto só fique pronto em 2018; adianto que envolve literatura, financiamento coletivo e que está sendo pensado e desenvolvido com muito amor e carinho. Enquanto isso, todos os meses trago novidades para a minha lojinha online: www.julianafiorese.iluria.com.

Juliana Fiorese por Projeto Curadoria
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