m
Juliana
Bestetti
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
34 anos . artista . ilustradora

Meu desenho tem forma orgânica, em traços finos, delicados que nascem de uma fusão de sonhos e silêncios. São histórias contadas de forma resumida, compactadas em delicadezas. A falta da forma realista, do corpo desenhado em proporção, do nariz, da boca, traz estranheza porque fala pouco, mas pode dizer muito.

Sou nascida e criada em Salvador e trago na bagagem uma jornada de auto-conhecimento que ocupa mais espaço no meu currículo do que meus diplomas. Sou auto-didata. Nunca estudei desenho, não tecnicamente. E apesar dos cadernos da escola sempre tão rabiscados, fui levada a me arriscar no mundo das artes só depois dos 21, quando me juntei ao primeiro coletivo de lambe-lambe criado no país (acredito eu!) - o COLAtivo. Ali, na rua, meu mundo se abriu e, apesar de tanta vivência nos museus da minha cidade, comecei a enxergar as tantas nuances da arte contemporânea. Desse momento em diante, comecei uma saga para me entender naquele meio. E ela não terminou (e espero que não termine nunca!). Depois de um tempo nessa busca contínua, me encontrei nos anseios, nas agonias, no fervilhar de ideias e sentimentos que pulsavam aqui mesmo, dentro de mim, dentro do meu silêncio e da minha própria forma de enxergar ao redor.

Na mala, intervenções e mostras coletivas, como ToyCentro (2006), O Ciúme Ilustrado (2010), Festival Vivadança (2011/2012), Inverno Astral (2013), VISIO., Casa Preta, Lalá Multiespaço (2014/2015 - permanente), entre outras da cena soteropolitana. Dialogando com a cenografia no lançamento do projeto A Caixa Não é De Pandora (2014), Divina Graça - show de Bruno Capinan (SESC Belenzinho, Itaú Cultural (2017), além de capas de discos (EP Circo Litoral e Divina Graça de Bruno Capinan) e a primeira mostra individual "Sobre Sonhos e Silêncio" (2015).

Hoje, vivo do que produzo. Batalho todos os dias para que esse lugar de produção e interação não seja engolido ou mastigado pela vida tão urgente lá de fora.

E eu ainda acredito. Acredito na arte como catalisador, na arte como forma, como mensagem, como expressão pura de sentimentos que, antes de serem partilhados, são individuais. Acredito no poder transformador, e em toda poesia que pode existir em poucos traços, quando me exponho sem me preocupar em dizer muita coisa... apenas tocar, com delicadeza, o mundo do outro.

Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Hoje,  papéis e porcelanas. Descobri um suporte até então desconhecido  pra mim e instigante nas porcelanas brancas. Lembro de entrar numas lojas antigas do centro de Salvador e achar naqueles empilhados de pratos brancos uma espécie curiosa de fantasia.  Descobri ali, em 2013, uma possibilidade e, hoje, produzo basicamente peças decorativas. Além disso, testo e pesquiso novos suportes e ferramentas, diariamente. Mas,  ainda preservo a minha paixão pelos muros e paredes.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior inspiração para criar são as pequenas delicadezas da vida. São as nuances dos sentimentos mais puros. Acredito na beleza desses detalhes, na poesia. A literatura, a fotografia, o cinema e a música também fazem parte dessa motivação.

// Como é o seu processo criativo?

Meu processo anda lado a lado com a espontaneidade. É mais uma extensão do meu trabalho do que um preparo. Os erros, os estudos, os testes... tudo acaba sendo incorporado ao meu trabalho.

Trabalho, pesquiso, testo o todo tempo. Estudo e comprovo no fazer. Um itinerário criativo que acaba sendo a continuidade de um trabalho em constante processo. Uso poucos rascunhos, acolho possíveis imperfeições e assimetrias. Quando a inspiração vem, vai pro objeto e já vira obra.  Aprender e observar com calma o desenrolar do meu trabalho são partes importantíssimas do meu processo criativo.

Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Não tenho uma rotina. Procuro estar com a mente sempre em movimento. Escutando, observando e silenciando também. Leio, assisto filmes, ouço músicas que me dizem alguma coisa... me dou pausas necessárias.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Acho que o mais importante foi ter montado minha primeira mostra e ultrapassado muitas inseguranças e medos.  Foi o meu projeto favorito até hoje. Nele, pude explorar e mostrar um recorte importante com muitas partes do meu trabalho, contando a história dessa trajetória.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sair da minha cidade, desta última vez, está sendo um marco transformador.

Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

O cenário underground, os artistas novos, são uma grande parte do que me inspira. A cidade, os passantes, a música, a poesia, o amor em várias das suas formas.

Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu acho que a gente carrega algumas coisas que dificultam nosso caminho até a expressão livre. A gente, com o medo dos julgamentos diários, acaba carregando um pouco isso na hora de se expressar. Aconteceu comigo, pelo menos. Pra mim, foi um caminho longo até me sentir livre para me assumir artista e admirar meu próprio trabalho, antes de qualquer coisa. A gente precisa de um impulso a mais, uma força interna maior para transpassar tudo isso e ter a liberdade plena de expressar nossos sentimentos, nossos desejos.

Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

O mar, o tempo, o silêncio... tocar o mundo de alguém com o que eu faço. Isso me deixa feliz. Nesse terreno árido, nesses dias difíceis, me completa saber do outro que chega até mim, com carinho e delicadeza. Brota em mim um sentimento engrandecedor de reciprocidade.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não desistir. Se é preciso uma força redobrada, que se encontre! Se é um sonho, que seja alcançado. Pesquise, observe, estude e se entregue. Pode ser cruel, às vezes, mas não desista enquanto não tiver tentado.

Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Nesse momento, meu projeto é tentar chegar devagarzinho aqui no Sudeste. Me jogando aos poucos. Sem grandes ambições.  O projeto em andamento é chegar!

Juliana Bestetti por Projeto Curadoria
COMPARTILHE
b
//+entrevistas