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Julia
D’Alkmin
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
28 anos . designer . tatuadora

Acho que o que mais conta sobre mim é de onde eu vim. Meu pai é artista plástico e arquiteto e acho que desde pequena eu ouço histórias de Sci-Fi e coleciono as revistas que meu pai comprava em sebos. Desde PHOTOs antigas até umas mais fashions, como a Tank Magazine. Lembro até do meu pai ter um catálogo impresso enorme do Getty Images que eu usava para fazer colagens. Minha mãe é professora de Yoga e sempre foi essa parte que me fez buscar equilíbrio na vida em diversos aspectos - que eu ainda não encontrei - enfim. Acho brega falar mas sou um serzinho criativo por natureza. Eu estudei quase a vida toda em escolas construtivistas e minha primeira graduação foi na PUC SP onde estudei Comunicação e Multimeios. Fiz uma iniciação científica estudando os textos do Vilém Flusser para a Folha e o Estadão entre as décadas de 70 e 80. E ele me me deu um tapa na cara basicamente. Por que eu estava tão focada em passar minhas ideias escrevendo quando visualmente o mundo é mais rico? Saí de Multimeios e fui para o Senac estudar Design Gráfico. Desde antes de me formar já trabalhava como designer, então segui na "publicité" por um tempo, odiando e me frustrando até chegar a trabalhar com marcas e editorial.

Em 2015, depois de um "burn out" leve, eu diria, eu estava em um show e me bateu: Cara, eu curto muito tatuagens. Será que eu saberia tatuar? E olho para o lado e a Elissa Rocabado, tatuadora e diva estava ali, curtindo o show também. Pedi para ser aprendiz dela e ela me disse: eu não sei se eu sei ensinar alguém, mas vem no estúdio e a gente conversa.

Alguns meses depois, eu comecei com uma laranja, depois em mim mesma, aí nos amigos e isso foi tomando um espaço lindo no meu coração. Há duas semanas aluguei o meu primeiro espaço para ser um estúdio. É um passo super bacana. Me faz me sentir profissional.

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu uso desde o lápis, passando por aquele Photoshop básico, a câmera do meu celular, da minha Polaroid, até a minha máquina de tatuar, que é uma rotativa feita a mão. Amo ela. Ela é pesadinha, silenciosa e a gente se dá muito bem.

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu amo quando eu entrego um projeto. Partindo dessa premissa amo poder mergulhar no que esse novo universo que me foi apresentado, as suas potencialidades e entender dentro do contexto que estamos e do meu repertório ver o que se conversa e o que não tem diálogo para que eu corra atrás para descobrir como dialogar e poder materializar de alguma forma.

Amo quando termino uma tatuagem e a pessoa vai olhar no espelho. O que me inspira é esse processo de entender uma ideia, desenvolver, poder aplicar e dar significado, seja num editorial, numa foto daquele momento de timing massa ou numa tatuagem.

No momento, a tatuagem é algo que me dá mais tesão mas não abro mão das demais formas.

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu abro um rascunho do e-mail e começo a escrever o que eu entendi e o que eu acho que pode ser. É uma fase de brainstorm meio babaca. Mas aí depois eu acabo indo no Tumblr e vou navegando por imagens e sempre acho algo que me dá uma ideia. Uma forma, uma cor ou uma tipografia que eu penso: é isso, tenho que começar fazendo isso. E aí nem eu sei te dizer o que eu faço depois.

No caso de uma tatuagem, eu ouço o que a pessoa quer. O importante é conhecer ela também. E aí sento numa posição super desconfortável no meu sofá e desenho na mesa de centro. Desenho num sulfite e não apago muito, os traços vão se modificando um em cima do outro. Aí passo a limpo duas ou três vezes antes de passar a limpo com caneta e finalizar com tracinhos ou pontos. Eu preciso estar de bom humor para desenhar. Senão tudo sai uma bosta. Sério.

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Colecionar imagens. Conhecer Tumblrs e artistas.
Eu passei muito tempo pesquisando mestrados fora e ainda vou e busco universidades, projetos dos alunos, projetos dos professores. Isso é uma coisa que eu amo. Ver o que pessoas de outros países e outras escolas estão fazendo.

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu gosto muito do meu Album Cover Project que marcou uma fase que eu queria ser só designer de capas de álbuns. E cada dia, por um mês eu usei técnicas diferentes para criar o nome de uma banda, pensar na sua sonoridade e criar a capa do álbum.

Eu acho que eu amo e tenho um super orgulho de todas as tatuagens que eu faço. Elas representam que eu pude conhecer e interagir com uma pessoa nova e trocar energias. E toda experiência de tatuar alguém é nova e super massa. Ainda estou encantada com esse processo.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Quando eu não fui creditada por um trabalho que fiz no final do curso Abril de Jornalismo isso me marcou muito. Me senti muito mal com toda a profissão e isso me levou a querer tomar mais as rédeas da minha vida profissional. Me fez querer deter mais do meu processo criativo e a confiar mais no meu taco.

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu amo o trabalho da Lotta Nieminen. Acho ela foda. Ela não é uma designer, ela pensa em todos os aspectos visuais em diferentes escalas e plataformas.

A Elissa Rocabado, que é uma mulher forte, inteligente e batalha diariamente para poder viver a vida dela e dar uma vida para o filho dela que seja com atenção e amor.

E eu sigo milhares de pessoas via Instagram e Tumblr, acho que a cada dia eu me apaixono pelo trabalho de uma pessoa diferente e sigo atrás para ver a trajetória dela. Ler sobre trajetórias me deixa mais tranquila de que todo mundo tem uma diferente - e que todas elas tem algo em comum: dúvidas e uma certa coragem de pagar para ver o que a pessoa pode fazer com essas perguntas que a gente se faz todos os dias.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Já trabalhei em lugares em que o fato de eu ser mulher automaticamente me fazia mais "perceptiva" e "delicada" para certos aspectos de visão na publicidade e no design. Não é verdade. Eu sofro de uma leve dislexia de designer. Às vezes tem aquele erro grotesco de português mas é porque eu não tinha percebido, mas a combinação e kerning das letras estava legal. Então, existem concepções masculinas sobre designers mulheres que são equivocadas. MAS, toda generalização é estúpida. Então, não é em todo antro que você vai achar um preconceituoso. Atualmente, na Inobi onde trabalho, a maioria das sócias são mulheres e as designers também são. Todo mundo quer fazer um trabalho foda e pronto. Não importa o sexo. Importa o que a gente vai fazer na segunda com aquela ideia incrível da última sexta, saca?

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Viver um dia de cada vez e que nesse dia eu consiga fazer tudo que eu quero e preciso.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ser curiosa. A gente acha que sabe as coisas, mas o mundo é muito grande. A gente tem que ter mais energia para ir atrás de entender o mundo de diferentes formas. E não me levem a mal, eu sei que isso é super amplo e chega até a ser genérico. Mas na vida não é só ver um TED sobre um assunto X e falar: massa. É ir atrás dessa pessoa, ver como esse assunto x pode entrar no seu contexto vivencial melhor e como isso pode ser usado nas decisões diárias que tomamos, tanto profissionalmente quanto pessoalmente - e no caso dos profissionais criativos essas divisões são muito tênues.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Em breve eu vou fazer tatuagens temporárias dos meus desenhos, mas ainda não me decidi quais desenhos! Pensei em fazer uma votação via Instagram!!

Julia D’Alkmin por Projeto Curadoria
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