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Johanna
Jaumont
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
30 anos . joalheira

Sou ourives, francobaiana e tenho 30 anos. A França do meu pai, a Bahia da minha mãe e a São Paulo da minha escolha me fizeram ser uma mistura louca de referências.

Quando eu era mais nova, nessas idas e vindas de países, eu gostava muito de reparar nas diferenças de cheiro, paisagem, pessoas e ficava nessa viagem por horas.

Por causa dessa minha história eu decidi cursar Geografia e tentar entender o mundo. É claro que só me formei com mais perguntas do que quando iniciei o curso, mas a geografia me fez gostar da dúvida.

Acabei não trabalhando na área e fiquei perdida por um bom tempo trabalhando em um monte de coisas que não me deixavam muito feliz, até que vi uma amiga postando um monte de foto das joias dela.

Fiquei curiosa, fui e comecei um curso de ourivesaria e nessa tentativa eu acabei me encontrando, criei minha marca e atualmente as coisas estão caminhando de uma forma muito legal.

Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Minha expressão passa pelo metal. Gosto muito desse material duro, frio e difícil de trabalhar.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Desde adolescente sentia que tinha algo esquisito em mim e que lidar com o cotidiano era muito difícil. Vida vai, vida vem, o sentimento permanecia e eu sabia que precisava de ajuda.

Depois de muitos anos fui em busca de descobrir o que estava acontecendo e foi então que fui diagnosticada com depressão. A depressão é cruel, silenciosa e dá o bote quando você menos espera.

Eu fiz do meu hobby minha profissão, pois é ela quem me mantém sana e, portanto, é a vida que me inspira.

A transformação e o movimento das coisas me inspiram muito.

Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo é bem bagunçado! Tento organizar meus pensamentos, desenhos e referências, mas no fim das contas tudo sai de forma muito orgânica.

Tenho ideias dentro do ônibus, antes de dormir, num sonho, ou enquanto tomo banho e desorganizada que sou, nunca tenho um caderno em mãos pra anotar as ideias que surgem e então, guardo com muito carinho na minha memória e assim que chego no meu ateliê, desenho tudo sem muita censura e vejo o que sai disso.

Depois desse processo eu filtro tudo e vejo o que faz sentido pra mim e começo então a produção.

Na bancada o projeto também pode mudar porque posso perceber que não ficou muito legal, então o processo é bem fluido e tento exercer essa liberdade sem entrar na neura do pragmatismo.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Observar, conversar e conhecer o trabalho de outras pessoas me mantém criativa, pois acredito que nesse movimento a gente expande nossas barreiras.

Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Atualmente meu projeto preferido é a pesquisa que faço da mistura do cobre com a prata.

Acho o máximo trabalhar com materiais diferentes e ver como eles interagem ao longo do processo da criação de uma joia.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acredito que o momento decisivo foi quando decidi que não podia mais deixar minha saúde de lado e isso foi há, mais ou menos, dois anos.

Percebi que eu estava muito mal e cada vez mais isolada do mundo.

Foi nesse período que eu, desesperadamente, procurei algo que me fizesse bem e me ajudasse a lidar com a depressão.

Um dia eu estava no Facebook e vi uma amiga ourives, a Lina Prades, postando um monte de fotos do trabalho incrível dela e pensei: “ahhh, vou tentar isso ai...”

Quase desisti na primeira aula, mas com o apoio dos amigos eu continuei e cá estou!

Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho muitas influências, que vão desde o patinho nadando na lagoa até ver vídeos de suspensão corporal!

Gosto muito da arquitetura e design dos anos 50-70. Amo as formas, os movimentos e as cores daquela época, mas acredito que misturo tudo que gosto e acabam saindo as joias que faço.

Existem também alguns artistas que admiro muito e que acabam influenciando meu trabalho.

Gosto demais do trabalho delicado e duro da Pilar Garrigosa, as peças grandes e agressivas do Parts of Four e do exagero e exuberância do House of Malakai.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Vivemos em uma sociedade patriarcal e, portanto, sinto o machismo em todas as esferas do meu trabalho. Desde a parte criativa, passando pela precificação das joias até a forma como falo com meus clientes.

Existe uma expectativa em relação às joias e às joias feita por uma mulher. As vezes faço joias grandes, pesadas e agressivas e ouço que são muito “masculinas” ou que eu deveria fazer isso ou aquilo.

Todos têm algo a dizer e eu acredito que isso se dá por eu ser mulher.

Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

A troca me faz feliz.

Poder conviver com pessoas criativas e me deixar contaminar pelo trabalho daqueles que admiro me deixa profundamente feliz.

Outra coisa que me deixa muito feliz é ver alguém usando minhas joias! Adoro ver alguém experimentando uma peça e ver o sorriso no rosto!

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Vai. Só vai.

Se joga e confia em você.

Acredita que a tua expressão é válida e merece crescer e sair pelo mundo afora.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tem um novo projeto acontecendo que é o de montar meu ateliê numa casa compartilhada com outros artistas incríveis de várias áreas como cerâmica, marcenaria, luminárias e cathering.

Nosso novo espaço se chama Casa Ponto e estamos colocando todos nossos esforços e corações pra criar um espaço criativo de troca.

Johanna Jaumont por Projeto Curadoria
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