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Jessica
Rodrigues
Brasil
vivendo em Dublin . Irlanda
24 anos . tatuadora

Sou uma pessoa que resolveu tatuar e viajar, tudo junto ao mesmo tempo, e é constantemente chamada de louca por isso!

Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Atualmente tenho usado somente nanquim.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha motivação é poder ver o brilho nos olhos de alguém quando vê o que eu fiz e diz “é exatamente isso que eu sempre sonhei!”. Eu costumo dizer que todos os meus desenhos são feitos para alguém. Muitas vezes eu não conheço este alguém, muitas vezes é uma pessoa próxima que eu nem imaginava. Mas sempre existe esse alguém. E carrego como uma missão viajar e fazer os desenhos se encontrarem com as pessoas para as quais foram feitos. Por isso tatuo cada desenho uma vez e entrego os originais no final. Cada processo é único e entregar no final é como a finalização de um ritual de fazer o desenho e a pele que ele vai habitar se encontrarem.

Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Alguns dias eu fico com um vácuo na minha memória e não consigo fazer coisa alguma. Outros dias as ideias tomam meus pensamentos e eu preciso colocá-las no papel quase que num processo catártico, num hiper-foco que pode durar mais de 10h e eu praticamente não paro de desenhar.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Preciso ver, ouvir, tocar e sentir coisas diferentes. Tudo pode ser fonte de inspiração se eu me dedico inteiramente a vivenciar aquilo. É muito difícil conseguir estar presente nos momentos numa época que a preocupação extrema com o que está por vir é o mais recorrente. É um eterno exercício de estar presente e aproveitar cada momento, sem isso as criações ficam vazias.

Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Um projeto que me sinto muito feliz de ter iniciado foi o de tatuar mulheres negras e fotografar as sessões. Sinto que propagar um portfólio com peles que não sejam brancas é algo extremamente importante. Eu quero que as pessoas se reconheçam nos meus desenhos e confiem no meu trabalho, e pessoas negras quase nunca tem essas referências no meio da tatuagem como um todo. Precisamos de quem nos mostre resultados lindos e não quem tente nos limitar. Eu tento fazer minha parte.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Creio que o momento mais decisivo foi quando no início eu resolvi que focaria meu trabalho no autoral. Não é algo fácil fazer essa decisão quando ninguém te conhece e você não vive um momento estável financeiramente. Então eu precisei dar muitos passos pra trás antes de dar algum pra frente. Fiquei muitos meses sem tatuar por frustração e por achar que não seria boa o bastante. Eu não fazia ideia do que estava fazendo, e estava inclusive fazendo tudo ao contrário do que me aconselhavam os “mais experientes”. Meu objetivo é fugir de tatuagens em série, então tudo isso valeu a pena.

Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minhas maiores influências são Frida Kahlo, Salvador Dali e René Magritte. Gosto muito do modo que os 3 retratam seus mundos e foram muito importantes para mim quando comecei a criar por me fazerem olhar diferente para coisas comuns.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu costumo dizer que vivo numa bolha, e quase nunca essas coisas me afetam. Mas muitas vezes sutilmente sinto um certo preconceito por não corresponder ao estereótipo de tatuador. Por eu preferir algo mais autoral eu sempre sou vista como arrogante por querer algo na contra mão do estabelecido, e pra isso tive que bater de frente com a opinião de muitos homens que me achavam “ousada demais” por ignorar os “conselhos” deles.

// E o que te faz feliz?

Me faz feliz ver que consigo trazer algo de bom para pessoas a ponto de elas escolherem marcar isso pro resto da vida. Eu posso desde matar a simples vontade de ter um desenho na pele até ressignificar marcas e cicatrizes. Não é raro as pessoas terminarem a sessão emocionadas. Na ponta das agulhas não tem apenas tinta, tem sonhos, tem vida, tem alguém ali que, por algumas horas, é todo o meu mundo.

Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

É clichê dizer pra não ter medo de errar? Às vezes nós somos nossas piores críticas. Podemos ser mais pesadas conosco que com qualquer outra pessoa. E essa tentativa de perfeição pode nos paralisar. Já me paralisou diversas vezes. Não existe o momento certo em que uma inspiração sobrenatural vai te atravessar e a partir daí você saberá tudo que precisa fazer. Às vezes a gente não faz ideia, mas faz mesmo assim até dar certo.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Eu tenho mantido um diário botânico com várias flores e folhas que encontro caídas pelas ruas de Dublin. Isso tem me feito prestar mais atenção em detalhes que passavam desapercebidos antes, pois até plantas mais comuns tornam-se interessantes quando colo no meu caderno e a desenho. Isso me ajuda a fixar os pés no presente. Em breve esses desenhos também estarão disponíveis para tatuar.

Jessica Rodrigues por Projeto Curadoria
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