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Itamara
Ribeiro
Brasil
vivendo em Belo Horizonte . MG
34 anos . artista

Sempre fui apaixonada por linhas. Desenhos e bordados fazem parte da minha infância. Quando criança, desenhava de forma bem solta e interferia nas revistas, fazendo um dente banguela nas modelos, bigode, aumentava os cabelos, me divertia com as possibilidades do desenho. O mesmo acontecia com o bordado. Usava os restos de linha da minha mãe para compor.

Formei-me em Artes Visuais na UDESC, em Florianópolis. Lá retomei os desenhos e bordados de forma mais consciente, misturando tudo no mesmo suporte. E olha no que deu.

Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Lápis, papel e espelho ou fotografia para fazer os desenhos. Gráficos de revistas de artesanato para usar como suporte e para fazer as colagens. Linhas, agulha e um pouco de memória para fazer os bordados.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Uma vez um homem me contou que tinha se lembrado de sua avó ao ver um desenho meu. Ele disse: “ela usava esses moldes para costurar” e depois desatou a chorar. Motiva-me pensar que meu trabalho pode emocionar alguém.

As narrativas cotidianas me inspiram. Uma conversa no ônibus, no mercado ou no posto de saúde. Gosto de ouvir mulheres que nunca vi.

Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Desenho quando estou inquieta, faço vários esboços em um curto espaço de tempo, de modo compulsivo. Geralmente desenho a partir de fotografias.

Depois, seleciono o suporte, espalho os gráficos de revistas pelo chão e fico testando os desenhos em diferentes fundos, até encontrar a composição que quero. Às vezes fico com vários trabalhos parados nesta etapa.

E, por fim, faço os bordados, que considero uma atividade mais meditativa.

Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Gosto de ver revistas antigas. Atualmente estou apaixonada por guias e manuais de boas maneiras, destinado às mulheres, como, por exemplo: A Enciclopédia do Lar, O Jornal da Mulher, A Moda em Paris, assim como fotonovelas.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto de "A mulher e o lar em ponto corrente". Fazê-lo foi revelador. Ponto corrente foi um dos pontos que aprendi com a minha mãe, ao me ensinar ela disse: esse ponto corrente eu aprendi com a sua avó. Ao fazer o trabalho, eu consegui reviver o cotidiano doméstico da minha avó, da minha mãe e o meu. Não sei se isso é possível, mas de alguma forma eu revivi. Acho que "A mulher e o lar em ponto corrente" ilustra o conceito do meu trabalho.

Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O fato d'eu ter largado um emprego na cidade e ter ido morar na roça, apenas com filho e marido, fez com que eu vivesse a casa de forma muito intensa. A imersão no ambiente doméstico e os questionamentos que surgiram a partir daí direcionaram o meu trabalho.

Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Egon Schiele é minha referência de desenho, acho seu traço solto e sensual.

Aprendi os primeiros pontos de bordado com minha mãe, e as referências quanto a isto são muitas. Posso dizer que não sigo uma linha. Sempre dou uma olhada nos trabalhos da artista Junko Oki. Ela faz bordados incríveis com o washi (tradicional papel japonês) e com tecidos antigos. São vários de pontos soltos e desordenados, é caótico e lindo.

Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim. Percebo o preconceito de diversas formas e às vezes ele está tão velado ou cristalizado que parece ser natural. Tento me posicionar artisticamente sobre alguns temas que envolvem machismo e homofobia.

Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
Itamara Ribeiro por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ficar em casa fazendo minhas coisinhas.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

A arte é um canal de comunicação, é preciso usá-lo para denunciar, gritar, pedir, mostrar, trocar, agradecer.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho lido muitos guias e manuais de décadas passadas, destinados ao público feminino, e me assustado com o quanto seguem presentes. Sinto vontade de trazer esses textos para o meu trabalho.

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