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Iêda
Carvalho
Brasil
vivendo em Contagem . MG
24 anos . ilustradora

Me chamo Iêda, tenho 24 anos, sou bissexual e negra. Resido em Contagem, região metropolitana de BH. Sou graduada em Design de Moda pela UFMG e foi na faculdade que o interesse pela ilustração começou a se solidificar, embora sempre tenha sido bem forte em mim.

Comecei a me interessar pela área criativa ainda cedo, vendo os desenhos que meu pai fazia. Passei a fazer os meus próprios da maneira que sabia e ao longo do tempo fui conhecendo grandes professoras, novas técnicas e novas maneiras de criar, aprendi o valor da prática e da persistência e então, algo que antes era apenas diversão, se tornou meu trabalho, algo que me gratifico muito em realizar.

Gosto de trabalhar com o semi-realismo e me interesso muito por retratos e representações humanas, talvez porque a face, principalmente os olhos, dizem tanto sobre um indivíduo, sobre seus sentimentos, carregam uma história, e transmitem sensações com as quais podemos nos identificar mais facilmente. Acredito na arte como forma de expressão e autoconhecimento e as temáticas que mais gosto de retratar tangenciam questões coletivas e individuais passando por temáticas de gênero, negritude, universos lúdicos e temas relacionados a natureza que se desdobram em produtos gráficos, tais como, caderninhos feitos a mão, adesivos, imãs, prints e artes originais.

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Me expresso principalmente por meio do desenho e os materiais que mais utilizo são o grafite, a aquarela e mais recentemente, a linha. Gosto de como o grafite, um material rígido, pode ser utilizado também para transmitir suavidade e delicadeza e de como nos possibilita trabalhar com detalhes. Gosto da fluidez da aquarela e não pretendo ter total controle sobre ela ou utilizá-la como preenchimento de formas pré-estabelecidas, e sim, deixá-la livre para que novas formas apareçam nas composições.

A linha surgiu no desenho como forma de geometrizar e trazer para o campo da visão e do tato as sensações subjetivas e energias invisíveis que cercam todos os seres.

Também gosto da colagem, da maneira como ela nos dá possibilidades, de como as partes de uma composição, antes separadas e divergentes, se juntas, trazem harmonia e um novo sentido ao que antes eram apenas recortes potencialmente interessantes.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior motivação para criar é saber que meu trabalho tem cumprido seu objetivo de tocar as pessoas de alguma forma e inspirá-las. Gosto de ouvir as interpretações das pessoas sobre minhas artes e aprendo muito com elas, a partir desse feedback novas ideias e possibilidades de criação surgem. Sou muito grata pela resposta positiva que recebo ao compartilhar minhas ilustrações e ao finalizar minhas encomendas. Nada disso faria sentido se não pudesse ser compartilhado.

Meu leque de inspirações é bem diverso, mas posso destacar a importância da figura feminina e da negritude em meu trabalho, por sua carga emblemática e sua força, e a natureza de um modo geral, me voltando mais para a botânica e a entomologia (ciência que estuda os insetos).

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo começa muito antes do lápis tocar o papel, ainda dentro da cabeça, fomentando inspirações que surgem em muitos momentos. Quando ainda não tenho uma ideia bem clara do que gostaria de fazer, me sento, encaro o papel em branco e começo a fazer esboços mais ou menos ordenados, tentando encaixar as ideias até chegar em uma forma mais “limpa”. Acredito que mesmo quando não sabemos exatamente o que fazer, é necessário fazer mesmo assim e assumir os erros e acertos que esse processo nos traz. Quando ja tenho uma ideia clara do que gostaria de produzir tento encontrar referências imagéticas que me ajudem a criar um suporte para o primeiro esboço. Ferramentas como o Photoshop me ajudam muito, na medida em que posso organizar essas imagens fazendo com que se assemelhem ao máximo a minha ideia para a composição. Parte importante do processo de criação é manter um ritmo de trabalho. Muitas vezes a produção que considero sem sucesso em algum dia, pode ser revista e continuada em um outro dia sob uma nova perspectiva.

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tenho sempre um caderninho de anotações comigo onde anoto tudo o que me inspirou de alguma forma durante o dia, seja uma conversa com um amigo ou uma árvore chacoalhando com o vento, gosto de prestar atenção nos detalhes e nas sensações que um dia pode me proporcionar. Também guardo recortes de revista, pequenos objetos, imagens, fotografias, enfim, tudo o que me faça ter vontade de criar. Tenho uma parede inteira onde colo e penduro todas essas coisas, pra que eu possa vê-las todos os dias. Funciona como um “brainstorming”onde posso mover, trocar as coisas de lugar, acrescentar e descartar novas ideias e inspirações.

Além disso, gosto de ver trabalhos de outros artistas tanto pela internet quanto pessoalmente e sempre faço trocas artísticas quando possível. Considero o contato direto com a obra original muito importante para conhecer o processo e materiais dos artistas mais intimamente, por isso, também vou bastante à exposições e museus.

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito da minha série de ilustrações intitulada “Emaranhados”, que une a ilustração em grafite ao bordado no papel.

Acho importante que, mesmo que não se venda o  trabalho original, a pessoa que compra consiga ver a “mão do artista” naquela reprodução e com o bordado eu consigo atingir esse objetivo.

Além disso, o bordado eleva a experiência de contemplar uma arte do nível apenas visual para o nível tátil também.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acredito que minha primeira exposição foi um grande marco, foi ali que pude perceber o quanto a ilustração significava pra mim e o quanto eu ainda poderia compartilhar com o mundo. Ela aconteceu durante um seminário na minha universidade, onde fui convidada por minha professora de ilustração na época a participar.

Ver as pessoas prestando atenção nas minhas ilustrações e interagindo com o que eu havia criado foi importante pra que eu acreditasse mais no que eu fazia e considerasse a carreira criativa algo totalmente possível.

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Fui muito influenciada pelas professoras de ilustração que tive, mulheres incríveis que me fizeram acreditar em meu potencial e me introduziram nesse caminho.

Existem muitos e muitas artistas que me servem de inspiração. Gostaria de citar os trabalhos de Egon Schiele, Escher e Gustav Klimt, pelos quais sempre tive grande fascínio. Na contemporaneidade, quando surgem mais mulheres nas artes (e a internet tem esse papel fundamental de criar a ponte entre elas e nós) conheci e acompanho o trabalho de ilustradoras incríveis como Agnes Cecile, Sara Golish, Ozabu, Julia Panadés (artista de BH), Paula Bonet e muitas outras.

Gosto de refletir sobre como estes artistas trabalham com a arte figurativa, sobre seus processos, a maneira de usar a cor e suas composições de uma maneira geral. São fonte infinita de inspiração e admiração. No entanto sinto falta de mais referenciais negras no campo das artes.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Vivendo em um mundo onde o machismo é estrutural, esse preconceito se dá em várias áreas, inclusive nas artes. Isso é bastante visível quando olhamos por exemplo para galerias de arte e exposições (a nível global) onde o percentual de mulheres participantes é mínimo, quando em editais para exposições artísticas locais a grande maioria dos selecionados são homens, enquanto sabemos que existem mulheres fazendo trabalhos incríveis sem ter o devido reconhecimento. Sinto isso no meu trabalho e no trabalho de outras companheiras que incontáveis vezes tem suas produções ignoradas pelo sistema artístico mas creio que essa realidade está mudando aos poucos.

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Ver as pessoas coexistindo e se respeitando, podendo se expressar livremente e se sentindo confortáveis consigo mesmas, ver as mulheres se tornando protagonistas de sua própria história e acreditando mais em si mesmas, estar em contato com a natureza e comigo mesma.

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Uma dica importante é valorizar e conhecer seu trabalho antes de tudo, pois vivemos em um mundo onde nem sempre a arte é valorizada e precisamos estar seguras sobre o valor daquilo que fazemos. A prática nunca é demais, então devemos estar sempre buscando evoluir e nunca nos acomodar com o que já sabemos, há sempre muito para se aprender.

Outra dica super importante é aproveitar muito de tudo que a internet pode nos oferecer em termos de divulgação, alcance e parcerias. Por meio dela podemos alcançar pessoas em lugares inimagináveis e vice versa, podemos levar nossa voz e nossas questões para muito além do entorno onde residimos.

Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
Iêda Carvalho por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Comecei a produzir uma zine esse ano chamada “Simbiose”. Nela, a proposta central é reunir produções literárias de mulheres de diversas regiões do Brasil a fim de lançá-las sob o formato de uma pequena publicação quadrimestral onde cada texto é acompanhado de uma interpretação imagética ilustrada por mim. Os textos não possuem uma forma literária fixa, de maneira que cada mulher pode enviar sua produção no formato que mais lhe for confortável e as ilustrações (desenvolvidas nas técnicas de grafite e aquarela) buscam complementar e sustentar a ideia central dos escritos de uma maneira poética coesa. A zine visa trazer visibilidade tanto para os trabalhos de ilustração quanto para as produções das escritoras, fazendo isso de maneira colaborativa. Pretende-se que, a cada lançamento, sejam selecionados textos de novas escritoras num espaço onde a diversidade (de gênero, cor, sexualidade, etc) sejam consideradas e respeitadas. A primeira edição está prevista para sair no mês de outubro trazendo textos de 6 escritoras diferentes.

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