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Hélia
Aluai
Portugal
vivendo em Lausanne . Suíça
43 anos . artista . ilustradora

Nasci na ilha do Sal em Cabo-Verde, quando Cabo-Verde era ainda uma colónia Portuguesa. Vim para Portugal meio ano mais tarde, para uma pequena cidade piscatória/balnear localizada a 20 km do Porto, chamada Espinho. Cresci dentro de uma família um pouco atípica, pois sou a 4ª filha de 5, todos eles influenciados pela minha mãe, sensíveis à arte. Cresci, por isso, junto ao mar, no meio de livros e desenhos e a contrariar o rigidez imposta por um pai militar!

Mais tarde mudei para a cidade do Porto, onde me formei em Escultura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Entretanto especializei-me em Arquitetura, com o mestrado na Escola Superior de Arte do Porto. Trabalhei como decoradora durante anos, até o dia em que resolvi dedicar-me inteiramente à minha própria pesquisa pessoal. Mais recentemente, em 2014 e por motivos pessoais, mudei-me para Lausanne, na Suíça, onde tive que começar tudo de novo, até mesmo aprender uma nova língua!

Hoje trabalho em ilustração e em animação para crianças, organizo exposições individuais e colectivas, mercados de arte, etc.

Hélia Aluai por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

O meu trabalho desenvolve-se essencialmente em duas vertentes: (1) a ilustração, onde geralmente utilizo como matérias-primas a tinta da china, aplicada sobre a forma de mancha e a linha de aparo; em paralelo (2) desenvolvo um trabalho de outro cariz, onde transformo uma máquina de costura em instrumento de desenho.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Mais do que uma motivação, sinto-o como uma necessidade. Eu costumo dizer que desenho porque não sei escrever, o desenho é a minha forma de comunicação. Quanto à inspiração, bem, enquanto artista tudo a pode servir, embora pessoalmente pense que, parafraseando um cliché, o trabalho resulta de 5% de inspiração e de 95% de transpiração.

Hélia Aluai por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Normalmente ando sempre com um caderninho onde “registro” e “guardo” ideias, sob a forma de desenho, textos, imagens que encontro, etc. Depois, e ainda que raramente olhe/procure o que quer que seja nesse meu caderninho, creio que o facto de ter refletido nalgum momento sobre algo leva a um processo natural de interiorização e, com isso, de inspiração!

O processo de criação do trabalho de arte têxtil é algo diferente. Além de mais doloroso e íntimo, funciona quase como uma espécie de purgação! É um trabalho de desenvolvimento contínuo iniciado em 2012 e que assenta em determinados conceitos. Tem uma vertente teórica, não é aleatório, já que é orientado em determinado sentido, sendo também um trabalho de pesquisa, que me obriga a desenvolver esse background teórico. Este trabalho é constante, vai ganhando corpo ao longo da vida, um pouco aqui, um pouco ali, um pouco todos os dias.

Hélia Aluai por Projeto Curadoria
Hélia Aluai por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tento ter uma vida tranquila, equilibrada, ler, assistir a filmes, ir ao teatro, ao ballet, ouvir música. Basicamente, experienciar diferentes vertentes culturais para com isso poder “crescer” diariamente, ser, ser melhor, não apenas como artista. Conhecer pessoas, novos lugares, “fazer a festa”, comemorar todas as pequenas vitórias e dias e, acima de tudo, partilhá-las com quem amo!

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Não tenho trabalhos ou projetos preferidos. Em termos gerais haverá, obviamente, uns que me agradaram mais do que outros, porque, do meu ponto de vista, resultaram melhor. A verdade é que fico sempre com a sensação que poderia ter feito melhor! O que é um pouco frustrante, por um lado, mas ao mesmo tempo impulsa-me a tentar fazer cada vez melhor! E isso creio ser importante, pois creio não haver nada pior do que a cristalização daquilo que é a expressividade artística.

Já vivi momentos muito bons em que me senti feliz por fazer o que faço. O que me agrada mesmo não é o projeto em termos pessoais, isso pouca importância tem. Conta, sim, a interação que ele mesmo pode provocar na comunidade! O trabalho artístico transmite sempre algo, ainda que, em certos casos, essa mesma mensagem possa ser bastante pessoal...

Hélia Aluai por Projeto Curadoria
Hélia Aluai por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O primeiro marco importante foi quando decidi dedicar-me em absoluto ao meu trabalho pessoal. Outro foi o de ter que mudar de país, o que é um pouco complicado!

Em termos profissionais tenho daqueles momentos, mas não gosto muito de olhar para eles com essa importância, porque a “vida é feita de pequenos nadas”. Por isso mesmo cada momento é importante! Ainda assim, o prémio na Bienal de Cerveira de em 2011, a residência artística realizada no corrente ano no Canadá, a exposição efetuada em Genebra, ou mesmo o trabalho que estou a desenvolver com a Vista Alegre, têm um peso especial...

Em relação à trajetória, bem, essa vai-se adaptando. Mais uma vez não posso dizer que tenho um objectivo ou um alvo concreto, pois essa adaptação passa por percorrer um caminho ao qual me adapto e adapto-o consoante às necessidades ou possibilidades... algo constante, dinâmico, se quisermos, mutante!

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

As influências são muitas e variadas, encontro-as em todos os “cantos” e “encantos”. Penso que será quase impossível enumerá-las. Como disse anteriormente, a inspiração vem a cada momento, em tudo aquilo que me rodeia e aquilo pelo qual eu me faço rodear e experiencio! Não falo só de Artes Visuais ou determinados pintores, bailarinos, escritores... a influência vem muitas vezes das coisas mais simples do dia a dia, um momento, um gesto, um toque, um cheiro...

Hélia Aluai por Projeto Curadoria
Hélia Aluai por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Em termos profissionais e em geral, creio que sim. Infelizmente ainda se sentem alguns preconceitos em relação à mulher. Na área artística, e ainda que isso seja menos comum, ainda existe, e é uma luta que tem que ser continuada!

// E o que te faz feliz?

A felicidade é algo que tenho dificuldade em encontrar. Vou tendo alguns momentos de felicidade que tento não os tornar fogazes, retendo-os tanto quanto possível. Esses podem acontecer esporadicamente, não planeados, sem procurar. Mas na maior parte das vezes, creio, vêm em pequenas coisas, de um sorriso, de um olhar, de um toque! E quando isso acontece, tento usufruir o mais possível!

Acho que o nosso cérebro tem tendência para valorizar mais os maus momentos do que os bons!

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Acreditar, continuar a acreditar, acreditar sempre, mesmo quando parece impossível! E não parar de realizar, de aproveitar cada minuto da vida para o fazer!

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Neste momento tenho alguns projetos entre mãos. Para além de uma série de exposições agendadas, este ano e o ano que vem tenho uma parceria com uma outra artista onde estamos a desenvolver uma linha de candeeiros. Um outro projeto a ser desenvolvido durante o próximo ano corporiza um espetáculo multidisciplinar, onde me cabe desenhar em areia sobre uma mesa de luz, música ao vivo de uma harpa e de um saxofone! O improviso torna a experiência muito mais intensa.

Hélia Aluai por Projeto Curadoria
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