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Hanna
Lucatelli
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
27 anos . artista

Me chamo Hanna Lucatelli, tenho 27 anos, moro em São Paulo. Me formei em 2014 em Design de Moda. Parecia ter um bom futuro nesse meio, até que entendi que já tinham fabricado roupas suficientes para muitas gerações antes mesmo que eu começasse a criar as minhas e que a industria têxtil, como é hoje, é extremamente nociva para o meio ambiente e para a sociedade.

Trabalhei em algumas agências até que me dei conta de que tinha algo muito errado em ficar o dia todo fora de casa, trabalhando em algo que não gostava, ganhando apenas o suficiente para pagar alguém que cuidasse do meu filho para que eu pudesse estar fora.

Larguei tudo. Fiquei totalmente sem rumo nessa época, mas o universo acabou me levando para um caminho novo e em 2015 abri um brechó que me permitiu unir viagens, que amo, com um trabalho mais coerente e sustentável dentro da moda.

A pintura e o desenho entram nessas fases como hobby, mas fui sentindo que depositava cada vez mais energia e tempo nesses projetos. Os amigos foram incentivando, indicando trabalhos, fui estudando e testando novas técnicas. Quando me dei conta, estava levando esses meus desenhos para a rua. Não sei bem como aconteceu... foi acontecendo, fui sentindo e fui seguindo.

Desde sempre pinto e desenho somente mulheres, mas atualmente tento as enaltecer como deusas e tento passar a mensagem de que o amor é a única salvação.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Uso computador para fazer o projeto. Nas ruas uso tinta, régua, escada, caneta, rolo, pincel e vou testando outras ferramentas para chegar na textura que quero.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

As mulheres, as ruas, São Paulo, e o sentimento de que precisamos passar por uma revolução através do amor e de um novo olhar quanto às mulheres.

Outro dia meu filho, de seis anos perguntou “mãe, porque você só pinta mulheres?” e eu perguntei quais as pessoas que estavam na rotina dele e ele disse; “você, minha vó, minhas duas professoras, minha motorista, minha professora de música, minha bisa, minha médica....” Assim como ele, me vejo, desde pequena rodeada por mulheres inteligentes, fortes, amorosas... guerreiras. Isso é o que mais me inspira.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Começa de forma instintiva. Buscando imagens de mulheres com as quais me identifico, e a partir disso, crio projetos digitais com cenários e frases. Depois passo para a rua tentando sempre fazer um projeto que se relacione com aquele lugar.

Na verdade, o que mais me importa é a mensagem escrita... o resto é mais artifício.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tento me expor. Se deixar eu vivo na concha, tenho um pouco de dificuldade em me relacionar com as pessoas, mas preciso conhecer gente e lugares novos para me inspirar.

Viajo sempre que posso, e quando estou em São Paulo tento sair andando pelas ruas com um olhar curioso de turista, aberta a novas imagens, texturas e sensações.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Meu preferido é um muro que fiz no Butantã em São Paulo com o dizer “Amar”.

Foi o primeiro muro externo e encontro com ele quase diariamente. Sempre olho nos olhos da mulher que pintei e ela dialoga comigo de alguma forma, como quem diz "vai dar tudo certo, estou aqui". Virou um personagem fixo do meu dia a dia.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

No último mês pintei um muro em Londres e foi um processo muito intenso.

Em 2014 viajei para Londres como finalista de um concurso de moda para novos estilistas. Me apaixonei pela cidade, e principalmente me apaixonei por uma região na cidade que pulsava arte de rua. Ficava tonta sem saber para onde olhar de tanta coisa que via. No ano seguinte voltei para o mesmo bairro. Me sentia inspirada, me sentia contaminada com aquela energia de alguma forma. Voltei outra vez, e outra e outra. Sempre para o mesmo bairro e para as mesmas ruas.
No mês passado fui convidada para pintar um dos muros daquele lugar, e antes que conseguisse processar o que aquilo significava, estava lá pintando.

Foi um processo transformador por diversos motivos. Foi o maior espaço que ja pintei, trabalhava por muitas horas sem intervalo, chorei algumas vezes lembrando o que aquele lugar significava, e quando estava no processo de finalização fui ameaçada e intimidada por algumas pessoas, que de alguma forma se sentem responsáveis pela curadoria do local. Percebi de imediato que isso acontecia por eu ser mulher, por ser “novata”, por estar representando uma mulher indiana e por ter sido chamada para estar lá por uma mulher. Pela primeira vez na vida senti, de forma tão clara, que alguém se sentiu “maior” do que eu por ser homem e que se aproveitou disso. A situação só se amenizou quando um amigo e outras pessoas se juntaram para me defender.

O muro ainda está lá, com uma mulher, deusa, indiana e com a frase “love saves”.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Meu ponto principal é a mensagem, então minhas influências são mais espirituais do que artísticas. Ainda estou tentando entender como juntar tudo, mas leio muito sobre a mística feminina, sobre amor, espiritualidade...

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Todos. Acho que existe um preconceito quanto a qualquer pessoa que tente se expressar livremente em uma sociedade que, para funcionar, precisa que as pessoas sejam ferramentas e não questionem suas funções, mas óbvio, que com a mulher isso toma uma proporção maior.
Você cresce ouvindo como teu futuro deve ser e para o que foi “programada”. Se formar na escola, entrar na faculdade, casar, ter um filho, cuidar da família. Parece que a mulher só tem valor, a partir do momento que segue esse roteiro.

Com 20 anos eu estava separada e cuidando sozinha de um filho, podia ser triste para algumas pessoas, mas senti que aquilo me libertou. Estava livre, podendo, à partir daí, fazer o que eu quisesse porque o que a sociedade “exigia”, mesmo que de forma velada às vezes, eu já tinha feito, e não tinha me preenchido.

Hoje me sinto dona de mim, mas sim, para muitas pessoas estou em uma posição marginal por não ter um plano de carreira e uma vida profissional convencional.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Me sentir livre. Fazer o que tenho vontade de fazer, do jeito que tenho vontade de fazer. Amar sem medo, sem pudor e sem poder.

E claro, quando alguém me diz que passar por aquela pintura no dia a dia deixa o dia mais feliz, mais leve.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Pensar menos e fazer mais, sentir mais, deixar fluir. A gente pensa demais, idealiza demais. No fundo estamos borbulhando de ideias, mas criamos mil barreiras para não colocarmos em prática.

Pensa em escrever um livro? Escreve! Pensa em pintar? Pinta! Pensa em abrir um negocio? Abre!

Se junte com tuas amigas, crie uma rede de apoiadoras. Seja para criar um filho ou abrir um negócio. Se junte com outras mulheres!! Precisamos de parceiras, de amigas, de colaboradoras.

Confie no teu instinto, confie nos sinais que o Universo te mostra. Acredito que as mulheres tem uma sensibilidade muito especial e que precisamos nos reconectar com ela.

Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
Hanna Lucatelli por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Quero continuar pintando, continuar viajando, continuar aprendendo e pretendo abrir um espaço fisico com brechó, biblioteca de arte e filosofia, café e espaço para roda de discussões e oficinas. Uma lugar grande com quintal, onde todo mundo se sinta em casa e onde se possa criar uma rede de amigos e apoiadores.

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