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Grazie Gra
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
artista

Sou artista plástica paulistana, filha de brasileira com italiano, vivo e trabalho em São Paulo.

Grazie é parte da escrita do meu nome, Graziele, eu comecei a assinar Grazie porque pude pegar parte do meu primeiro nome e fazer ligação com a palavra “obrigada” em italiano, então ficou Grazie, de gratidão.

Penso que sou uma pessoa abençoada pela vida, Eu ganhei um dom e pude desenvolve-lo. Quando recebemos algo natural, isso é um dom, você nasceu com aquilo e é aquilo que você tem que desenvolver na vida. E eu sou grata pelo que eu recebi, então, é daí, desse trocadilho.

Os muros são os suportes principais das minhas criações, eu uso uma mistura de técnicas com tinta acrílica, spray e às vezes stencil. Meu trabalho, ora contrasta, ora harmoniza com o cinza e o caos urbano, dessa forma, disputa o olhar do transeunte para uma reflexão por alguns segundos e quem sabe, um abrigo nos pensamentos das pessoas.

Trabalho com outros meios também como gravuras, escultura e performance e faço parte da Cia Actomas, que trabalha as artes do corpo e artes cênicas.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Gosto de experimentar várias técnicas e materiais porque eu acho que consigo extrair deles propriedades muito singulares com resultados bem diferentes. O que eu entendo por ferramenta, seria a linguagem, então, geralmente a minha arte nos muros não faz parte da mesma linha de pesquisa quando eu utilizo por exemplo a gravura. Cada plataforma de trabalho tem suas exigências, suas resistências, cabe ao bom artista tentar entender isso e se apropriar do material de uma forma não impositiva, mas sim tentando entender a sincronizar a sua proposta com os suportes e materiais utilizados.

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// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Sempre fui uma garota observadora e curiosa, eu olhava muito a cidade e por onde eu passava eu reparava intervenções que as pessoas faziam nas ruas e achava instigante a forma que os artistas se apropriavam do espaço público, essa coisa divergente, vandal e outsider e ao mesmo tempo artística me encantou completamente.

Eu queria de alguma forma fazer parte daquilo, eu queria desenhar nos muros e foi isso o que eu comecei a fazer. Foi uma conversa, inspiração externa, que é a cidade, conversando com a minha inspiração interna o meu mundo interno, com o meu feminino, humano e criativo.

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// Como é o seu processo criativo?

Acho que a criatividade está inserida dentro de um contesto que é um campo pré-definido e simbólico de ações.

Sou inspirada por muitos aspectos da vida. As pessoas me inspiram, sobretudo as relações humanas, a humanidade no ser humano e suas dualidades, a compaixão, a maldade, a tristeza, a paz, o tempo, a deterioração e a incerteza.

O meu trabalho é muito ligado ao feminino. Toda história de vida começou num ventre de uma mulher, a mulher é força geradora, é aquela que dá o alimento ela é o alicerce da casa. A mulher é fonte de poder.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Penso que manter a criatividade não é uma questão de escolha. Ela acontece com o fluir do trabalho, e na concretude de ideias... É como se fosse um ciclo onde as minhas ideias geram a produção e a produção gera mais ideias, então um fator, consequentemente se alimenta de outro, e assim segue. Bem, tudo isso funciona porque é regado por muita persistência apaixonada e disciplina.

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O meu projeto preferido sempre é o atual. Pois os que já fiz já foram, sem dúvida eles me deixaram algo que eu pude aprender para poder desenvolver o projeto atual. Ele pode não ter muita importância do ponto de vista profissional para currículo, mas pra mim não tem coisa mais importante que poder estar criando, manipular o material e executar, pois esse é um momento de eu estar comigo mesma e de levar o que eu posso até os limites da minha capacidade, enfim, é o pragmatismo do momento presente.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acho que não tive esse momento na trajetória em si, mas o marco pra minha vida foi sim quando eu decidi ser artista para sempre. A minha essência é a mesma, mas os meus valores mudaram.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu tenho uma extensa lista de artistas que eu admiro de várias épocas e movimentos artísticos. Gosto do Leonardo, Cezanne, Matisse, Rubens, Miró, Portinari, Anita Malfati. Eva Hesse, Rauschenberg, Hélio Oiticica, Evandro Carlos Jardim, entre outros…

Sabe, às vezes eu olho pra um trabalho de um artista contemporâneo e aquilo mexe com algo em mim, eu procuro saber como é essa pessoa. Pra mim é relevante ter alguma informação sobre quem faz trabalhos que eu admiro.

Para mim não me interessa alguém que tenha um dom, mas sim, o que ele faz com esse dom que recebeu. Por exemplo, um cientista que usa toda a sua inteligência e todo o seu conhecimento para fabricar uma bomba e acabar com o mundo. Esse tipo de pessoa não me interessa. Tem que ter algo mais além de fazer muito bem o seu trabalho e esse tipo de qualidade que faz uma pessoa ímpar não se compra em perfumaria.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Moramos em um país machista, logo encontramos preconceito em todas as áreas profissionais, inclusive na área artística, por incrível que pareça. E justamente nessa área, onde encontramos pessoas esclarecidas, intelectuais, e pessoas ditas “abertas”, ainda nessa área, encontramos machismo. E digo mais, no graffiti esse machismo parece mais acentuado ainda, porque geralmente, existem exceções, o mano que te convida pra grafitar não está interessado na pessoa da artista ou no seu trabalho e sim se ele vai poder ter “algo a mais” que ele vai poder extrair desse rolê. Cabe as artistas deixarem as coisas bem claras do que elas querem.

Tem varias situações... Tipo, os manos que te colocam num patamar inferior porque você é mulher... bem ridículo... O que eu tenho pra dizer em relação a essa desigualdade é que eu só lamento, pois as mulheres estão cada vez mais unidas, (salvo exceções, porque são competitivas entre si, inclusive no graffiti, mas isso é um outro assunto), e mostrando seu trabalho, sua qualidade e estão construindo história.

Particularmente eu não sou de reclamar, eu reverto situações adversas através do meu trabalho.

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// E o que te faz feliz?

Poder realizar o meu trabalho e melhorar cada vez mais para poder deixar o melhor de mim.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Produzam. Dediquem-se a sua linha de pesquisa.

Criem um ambiente onde você possa trabalhar tranquilamente, sem interferências rotineiras e familiares. Não leve a arte para um patamar terapêutico ou de hobby. Leve a sério o seu trabalho. Seja forte para levantar quando cair e seja humilde para aceitar que você não sabe tudo. Ouça os mestres, e saiba o momento de dizer tchau e de procurar outros mestres. Não passe a vida inteira sendo aluna, procure o seu protagonismo.

Não procure reconhecimento, busque aprimorar o seu trabalho, o que virá depois é consequência. Dedique uma parte do dia ou semana a exercícios físicos e a leitura.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Eu tenho alguns projetos sim, tanto para o Actomas Project como também para pintura, mas por enquanto eles ficam em segredo. Acredito que todo tem um tempo certo. É uma semente que vamos regando e cuidando um dia elas se tornarão árvores.

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