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Giulia
Fioratti
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
23 anos . ilustradora . tatuadora

Desenho e pinto desde que me entendo por gente, minha brincadeira preferida era chegar da escola e ficar no meio dos meus lápis de cor e canetinhas, rabiscando tudo que viesse na cabeça, criando histórias e universos imaginários...

Sinto que hoje meu trabalho é apenas uma formalização dessa minha brincadeira de criança, mas basicamente, lá no fundo, sou a Giulia menina que olha pro mundo com os olhos gigantes e brilhando.

Pra mim desenhar sempre foi mais do que um passatempo, é como uma necessidade biológica, tão importante quanto comer ou respirar. Eu preciso disso, foi a forma que encontrei de dar um pouco de vazão ao tanto que eu guardo no meu peito. Quando fico muito tempo sem desenhar começo a me sentir pesada, como se todos os sentimentos fossem se acumulando e criando uma pressão interna muito grande.

Lá pelos meus 20 anos eu já trabalhava como ilustradora freelancer quando surgiu também em mim o desejo de aprender a tatuar. Me fascinava a simbologia tão forte de transformação através da dor que a tatuagem carregava, dor essa que é física mas interna também, e então ressignificá-la através desse ritual. Hoje divido meu tempo entre meus projetos artísticos pessoais e as tatuagens.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Depende do meu momento pessoal, ultimamente tenho gostado muito da textura do grafite no papel, misturado aos lápis de cor, mas a aquarela é outra paixão muito forte minha.

Gosto também da mistura entre imagem e palavra, muitas vezes meus desenhos e pinturas vêm acompanhados de frases ou textos, coisas que estou sentindo no momento e que meu coração me diz.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Eu sou uma pessoa muito intensa e me sensibilizo com facilidade, então só sei estar no mundo com o coração aberto, escancarado. Às vezes a gente está andando na rua e o muro da casa tem uma textura linda com as tintas descascadas se sobrepondo, ou tem um casal se abraçando há tanto tempo que nem percebem que o sinal de pedestre já ficou verde, ou uma senhora está comendo um doce num banco de praça e os olhos dela guardam toda a solidão do mundo; tudo isso é inspiração.

A minha busca é encontrar uma forma de representar esses momentos e sentimentos subjetivos em imagens e cores.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Bastante solitário, gosto de estar em um ambiente calmo e às vezes ficar olhando para o papel por muito tempo, focando no sentimento que quero transmitir. Tem dias que as imagens vêm de supetão na minha mente, prontas, e eu me coloco a passá-las para o papel rapidamente, antes que elas me escapem. Tem dias em que não vem imagem nenhuma e eu fico mais quietinha, trabalhando só com texturas e cores, me desbloqueando.

Na tatuagem é um pouco diferente porque não posso olhar só para dentro de mim, tenho que mergulhar no meu cliente e entender como ele sente aquela questão, aquele momento, e então buscar uma simbologia para representá-lo. Então para criá-las eu sempre parto de muita conversa, para entender as motivações daquela pessoa, qual seu momento presente. Estimulo meus clientes a me trazerem referências subjetivas, como imagens, poemas, músicas, textos e outras plataformas que eles sintam que representa o que querem transmitir na tatuagem. A partir disso eu uso a minha sensibilidade pessoal para pinçar nesse grande apanhado de informações algo que sintetize aquele momento em um desenho.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu procuro esse equilíbrio entre estar presente no mundo, atenta às referências que o dia a dia vai colocando na nossa frente, e que podem estar nos lugares e momentos mais inesperados, e entre estar fechada no meu mundo interno, das sensações, onde eu assimilo todas essas informações. Um não pode existir sem o outro, mas eu tenho uma tendência muito grande a me perder dentro de mim, ficar fechadinha na minha bolha interna se não prestar atenção.

Gosto de ter tempo, a criatividade morre sem o ócio. Pra mim é importante ter um dia em que posso acordar sem me preocupar com compromissos, pegar um livro de poemas e ficar lendo tranquila, sentar na rua e ver as pessoas passando... Sinto que isso dá tanto combustível para a minha obra quanto trabalhar e desenhar por horas seguidas.

Tenho uma professora muito querida, a Catarina Gushiken, que sempre fala do yin e yang, o equilíbrio entre a energia introspectiva e acolhedora e entre a potente e de ação. E ela tem toda razão, preciso dos dois para criar.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Geralmente meu trabalho preferido é o último que fiz, porque representa meu momento presente, de uma forma mais sincera e potente.

Na tatuagem meus projetos preferidos são os maiores, e aqueles em que o cliente me dá bastante liberdade criativa.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Esse ano tem sido bem importante para mim como artista e tatuadora, porque sinto que estou num caminho de definição do meu estilo e da minha voz. Tem sido um ano de turbilhão no meu peito, e as imagens e ideias têm brotado de um jeito muito forte. Estou mudando bastante meu estilo, sinto que os desenhos e pinturas que fazia há um ou dois anos atrás já não me representam mais como artista. E é assustador e empolgante ao mesmo tempo, estou aberta a esse processo e quero ver onde ele vai me levar.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Tenho muitos, e eles mudam muito dependendo do meu momento pessoal. Gosto de conhecer o trabalho do maior número de artistas possível, ficar um tempão olhando suas obras, me deixando mergulhar naquilo... e aí na hora de pintar ou desenhar meus próprios trabalhos estar só comigo, deixar a influência vir de um modo mais inconsciente, a partir dos meus próprios filtros. Acho que nesses tempos de informação tão fácil é muito tentador ficar puxando referências a cada momento que a gente encontra um impasse, uma dificuldade no nosso desenho, mas aí a gente está reproduzindo a voz do outro, a solução do outro... e eu quero encontrar a minha própria voz e soluções.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe sim, mas eu tento não deixar isso me abalar. Eu nunca me enxerguei como menos por ser mulher, como se algo fosse deixar de ser uma possibilidade para mim por conta do meu sexo. Sei que sou privilegiada e que para muitas outras mulheres as dificuldades não se apresentam da mesma forma, mas a minha posição foi sempre de focar em mim, no meu trabalho, na minha força pessoal, e as coisas naturalmente aconteciam e brotavam assim. Eu sei quem eu sou, e quando é assim a gente acaba não ligando muito para o que os outros vão dizer ou pensar. Se alguém me subestimar, por ser mulher, ou jovem, eu respondo com alma, com coração, com trabalho árduo e sincero. E até hoje isso não falhou.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Tanta coisa!

Acordar num dia de chuva com calma e não ter nenhum compromisso, fazer um jantar gostoso pra minha mãe ou meus amigos, estar com meu namorado, o Arthur... gosto desses momentos pequenos do dia-a-dia, de estar presente no cheiro do café preto sendo passado, o som da minha mãe lendo um livro na sala, na luz que entra pela janela no fim da tarde.

É muito boa também a sensação de quando eu termino uma tatuagem e minha cliente vai até o espelho pra olhar pra ela pela primeira vez, e de repente os olhos dela ficam iluminados e ela abre um sorrisão. Quando você entrega uma encomenda de ilustração e a pessoa te manda uma mensagem agradecendo, dizendo que eu consegui capturar tudo o que ela queria passar. Enfim, é muito bom saber que tudo o que eu tenho aqui dentro ressoa.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Se conheçam e sejam sinceras com o que estão sentindo, sonhem, vão e façam, não esperem por aprovação ou permissão (sinto que em algum ponto estou dizendo isso para eu mesma).

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, o ano que vem vai ser cheio de coisas boas e novidades. E eu estou muito empolgada com tudo que está vindo, mas ainda não posso falar mais do que isso.

Giulia Fioratti por Projeto Curadoria
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