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Gabriela
Stragliotto
Brasil
vivendo em Porto Alegre . RS
26 anos . artista

Nasci em Caxias do Sul – RS e comecei a pintar ainda criança, com oito anos de idade entrei no meu primeiro ateliê. Viajei muito o Brasil de carro, desde pequena, e isso também me influenciou bastante. Minha família tem indústria no agronegócio no Mato Grosso (eu sei, nada a ver) e por causa disso são incontáveis as viagens que fizemos e as paisagens. Sou Publicitária por formação, pela ESPM, mas não me vejo muito nessa carreira. Estudei e trabalhei com vídeo algum tempo, por causa de um sonho mal resolvido de ser cineasta. Voltei a pintar em 2012, depois de morar um ano em Londres, onde cursei pintura e mixed media na Central Saint Martins UAL. Também comecei uma segunda faculdade em Design de Moda - não cheguei a concluir, mas tenho alguns projetos nessa direção.

Nessas idas e vindas, moro há oito anos em Porto Alegre, onde fica meu ateliê. Ainda trabalho na empresa da minha família, mas a maior parte do tempo a distância – então organizo meu dia para combinar essas duas realidades diferentes. Nessa confusão, aprendi que não precisamos limitar quem somos e que as coisas que aprendemos vão somando e construindo nossa realidade e as particularidades do que fazemos.

Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Na pintura, gosto de explorar materiais e ir descobrindo com a prática. Tenho pintado com tinta a óleo, tinta acrílica e nanquim e fiz alguns trabalhos que as convergem, em mixed media. Além disso, gosto de contar as histórias das telas, ou pelo menos um vislumbre do que há por trás – através da escrita ou da palavra falada, do áudio.

Quero cada vez mais tornar o meu trabalho uma experiência, que envolva como uma história ou uma reflexão. Estou descobrindo aos poucos as melhores formas de fazer isso.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Me inspira muito a forma de conexão que a arte oferece, essa possibilidade de uma conversa com o que há de mais humano no outro. Minha motivação vem da tentativa de criar trabalhos que, quando observados, despertem alguma sensação em comum na pessoa que observa: experiências e sensações pelas quais todos eventualmente passamos, mesmo que de formas e em contextos diferentes. Isso que nos une independente da nossa história pessoal e que possibilita a intimidade, a emoção, a troca entre a autodescoberta do artista e o olhar do outro, até mesmo entre dois observadores. Acredito que a arte pode nos despertar, ouvi isso uma vez... de que andamos adormecidos e a arte pode nos despertar. Esse é o ponto.

// Como é o seu processo criativo?

No início é sempre um sentimento, acho que o sentimento é a semente da ideia. Ou uma história de alguém, ou mesmo minha, que me toque de alguma forma. Então isso vira uma imagem, um desenho. Às vezes procuro referências de algo aproximado com aquilo que imaginei, às vezes vou no instinto. Por fim vem a pintura e a tinta, que acaba sempre transformando tudo. Nesse processo de pintar surgem novos caminhos, ideias para as telas seguintes, para a montagem, o texto, é preciso permitir e aceitar que as coisas se transformem.

Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Essa é uma pergunta importante, tive alguns momentos em que parei de pintar bem por causa disso... da tela branca. Não sei se existe receita pra se manter criativa. Acredito que a criatividade vem da curiosidade pela vida e funciona melhor quando é honesta, uma curiosidade sincera, quase inocente sabe? Se permitir viver e observar.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto dos meus trabalhos mais recentes, dos últimos meses. Eles têm uma conexão com a meditação e uma necessidade que tenho sentido de sair do realismo, essa sensação de algo novo se formando é muito boa.

Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Não sei se tenho, faz pouco tempo que considero minha arte uma carreira, mas talvez essa tenha sido a mudança principal. Só que ocorreu de forma suave e natural, com o interesse crescente das pessoas pelo meu trabalho e oportunidades contínuas.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Muito do cinema, das histórias em quadrinhos, livros ilustrados, vitrais... gosto muito, por exemplo, do Harry Clarke, que ilustrou grande parte dos livros do Edgar Alan Poe. Essa pluralidade que esses meios permitem influenciam o intuito do meu trabalho, eu acho que vem dali a tentativa de uma poética. O hiper-realismo sempre me dá arrepios também, e acaba me motivando a aprimorar minha técnica nessa direção (quem sabe um dia!).

Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Num primeiro momento, independente da minha trajetória, acredito que enquanto essa pergunta for necessária, é sinal de que existe. Não deveria haver uma preocupação com o gênero do artista, mas é uma realidade. Pessoalmente, senti isso em momentos pontuais, como comentários sobre a minha aparência que acabavam por desmerecer o meu trabalho. Ao mesmo tempo que me sinto livre para me expressar, sinto também que o reconhecimento demora mais para vir para as artistas mulheres, muitas vezes parece dado a contragosto ou cautelosamente, como se precisámos nos superar mais para merecê-lo.

// E o que te faz feliz?

Tantas coisas, eu sou muito grata pelo que tem acontecido na minha vida. Me faz muito feliz a sensação de que estou evoluindo e aprendendo, me tornando uma pessoa melhor.

Algo mais prático: uma música e uma xícara de café para tomar sem pressa.

Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não ter medo, porque sinto que foi algo que tive que aprender. Não é necessário acertar sempre ou ser impecável, aquele clichê de não esperar “estar pronto” - e sim ir fazendo, testando, aprendendo.

E desenvolver um foco, um propósito pessoal mais claro – sinto que às vezes temos muitos aspectos a considerar nas nossas vidas e acabamos não dando a devida atenção ao que queremos, aos nossos sonhos.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Fiz minha última exposição de 2017, então só no próximo ano agora. Esses últimos meses guardei para me envolver em parcerias diferentes, com pessoas que me inspiram. E tenho um projeto na gaveta faz algum tempo, prontinho, que envolve vestuário – outra área que amo. Pretendo lançar em breve!

Gabriela Stragliotto por Projeto Curadoria
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