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Gabi
Bessa
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
35 anos . artista . tatuadora

Eu nasci numa casa de artistas; minha mãe artista plástica e meu pai estilista. A arte sempre foi muito presente na minha vida. Com 19 anos decidi fazer a faculdade de medicina, acredito que pelo fato da minha mãe usar cadeira de rodas, e também porque sempre me encantei pelo corpo humano, pelas ciências, a biologia; eu gosto muito de estudar, ganhar conhecimento. Quando eu estava cursando a faculdade, me casei com um músico e surgiam dificuldades para conciliar o curso com a nova rotina e estilo de vida. Então no 4º ano decidi dar um tempo, e mais tarde tentei retomar mas não foi possível. Fiquei um tempo meio perdida, e comecei a ter mais contato com a arte novamente. Comecei a pintar alguns quadros, fiz exposições em galerias legais em São Paulo e esse movimento fluiu, foi abrindo portas para mim. Nessa época eu estava separada do meu marido e ele, como forma de me reconquistar, deixou uma máquina de tatuagem na portaria do meu prédio, sendo que eu nunca tinha pensado em ser tatuadora, apesar dos meus pais terem bastante tatuagens assim como eu. Como eu já tinha experiência com sangue, agulha, métodos de assepsia, e obviamente com a arte, fazia sentido juntar as duas coisas através da tatuagem. Daí então convidei algumas amigas para estrear a máquina, tatuando a sola dos pés delas, comecei a postar fotos no Instagram e oferecer tatuagem gratuita. Começaram a aparecer várias pessoas legais, e assim comecei a tatuar. Pedi então para acompanhar mais de perto o trabalho do Jun Matsui, artista que admirava muito além de ser amiga da família, e isso acrescentou muito no meu desenvolvimento profissional.

A minha identidade como tatuadora foi tomando forma e consistência quando eu montei meu estúdio de tatuagem junto com a galeria do Luis Maluf que, na época chamava-se Oscar 48, e a loja de roupas da Fernanda Shammas. Lá entrei em contato com muitos artistas, profissionais de moda, comecei a fazer um network bacana, e assim a minha carreira como tatuadora se consolidou.

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Máquina de tatuagem, pincel. Gosto de me expressar de várias formas, já fiz um pouco de tudo, como pintura em parede, em tela e em corpo humano. Utilizo tudo que tem ligação com a arte e o design visual, como decoração de espaços, a harmonia, visual clean, minimalista, o qual acabo expressando de várias formas. Mas foi na tatuagem que eu me encontrei, porque através dela eu consegui colocar em prática um pouco do que aprendi na faculdade de medicina e ao mesmo tempo expressar minha criatividade artística. De todas as formas de expressão, a tatuagem é a que mais me encanta e preenche, pois eu gosto de ter contato direto com as pessoas.

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

O corpo, o ser humano, o contato com as pessoas. Acho que principalmente o corpo, deixar os outros felizes com o seu próprio corpo, isso me inspira mais do que tudo.

// Como é o seu processo criativo?

Ele acontece na hora em que encontro a minha cliente pessoalmente, quando converso com ela e vou entendendo como ela se sente com o seu corpo, como se relaciona com ele e juntas criamos uma arte que vai vestir seu corpo harmoniosamente.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu tento criar tempo para mim mesma, porque eu acredito que a criatividade acontece quando se tem espaço e se consegue focar no momento presente.

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
Gabi Bessa por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Atualmente eu tenho dois projetos acontecendo. O projeto de tattoo com mulheres, pois a figura feminina sempre esteve presente na minha vida através dos trabalhos de arte da minha mãe, a identidade a qual também marcou os meus trabalhos como artista. Além disso, sempre gostei da parte de estética, por exemplo, uma tatuagem longilínea dá um efeito numa mulher mais baixa, algumas tatuagens acabam afinando a cintura visualmente e por ai vai. Nesses meus encontros com as mulheres também podemos compartilhar dos mesmos assuntos que são nossos. O meu desenho foi me levando para esse universo mais feminino e essa transição foi acontecendo naturalmente.

Tenho também o projeto de design de joias com a Cynthia Durante, que começou no meio de 2017 e foi lançado no começo de 2018. Esse projeto surgiu quando percebi que muita mulheres admiravam minha arte mas algumas delas não queriam fazer tatuagem. O design de joias veio como uma forma dessas pessoas terem e usarem a minha arte sem necessariamente precisar se tatuar. Devido ao fato desse trabalho não exigir tanto a minha presença física, como a tatuagem exige, posso atingir e atender mais pessoas.

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Tive 3 marcos importantes na minha carreira, que influenciaram a minha trajetória profissional. O primeiro foi quando eu decidi largar a faculdade de medicina e comecei a investir na minha carreira como artista plástica. O segundo foi com o aparecimento da tatuagem na minha vida, porque não foi algo que busquei, ela simplesmente veio para mim, e foi assim que me encontrei profissionalmente, unindo a medicina com a arte, através da tatuagem. O terceiro marco foi a minha decisão de tatuar apenas mulheres; nesse momento eu consegui criar um nicho, um diferencial no meu trabalho, uma identidade própria. Foi aí que o meu trabalho tomou proporções maiores.

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
Gabi Bessa por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Um artista que sempre me inspirou muito, tanto na tatuagem como na medicina, é o Picasso. Ele conseguia transformar algo clássico e figurativo numa imagem completamente nova, geométrica, cubista, algo novo para a época, e que remete também ao minimalismo e o conceito de que menos é mais. Gosto do estilo de várias camadas de tintas que ele usa, porque dão peso e profundidade para as suas pinturas. Pelo mesmo motivo que me inspiro em Picasso, me inspiro também em todos os artistas que conseguem se destacar, lançar tendências, expor a sua arte e fazer com que as pessoas queiram pagar por ela; gosto dos artistas que são fiéis à sua identidade, e assim criam sua marca própria.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Nunca senti qualquer tipo de preconceito. Quando você consegue se colocar no mercado artístico acreditando em si, sendo fiel ao que você pensa e de acordo com as éticas profissionais, naturalmente as pessoas são induzidas a aceitar e respeitar você independente do seu gênero.

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
Gabi Bessa por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Viver de acordo com meus princípios, estar em harmonia com a minha família, e ver as pessoas ficarem satisfeitas e realizadas quando eu faço uma arte minha no corpo delas, porque essa arte fica gravada para sempre.

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Acreditar no que você está fazendo mesmo quando for diferente, inesperado ou inusitado, criando uma identidade própria. Eu acho que a identidade própria é o principal para se colocar bem no meio artístico, assim você cria um nicho de clientes. A tatuadora Criz Suconic me indicou um livro recentemente que se chama “Pense como um artista”, que tem me inspirado muito e acredito que todo artista deveria ler.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Recentemente iniciei um projeto com a minha amiga e designer de joias, Cynthia Durante, pelo motivo o qual citei anteriormente. Com o intuito de traduzimos a minha estética de tatuagem para o universo das joias. Esse projeto começou no final de 2017 e foi lançado em 2018. 

Gabi Bessa por Projeto Curadoria
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