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Franncine
de Miranda
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
26 anos . ilustradora

Sempre fui uma pessoa curiosa e investigativa, apaixonada pelo céu e pela natureza. Desde criança me questionava sobre o funcionamento do universo e de mim mesma, conversava com as plantas, me interessava por diversos assuntos e gostava de trabalhar com as mãos. Tive uma infância bastante pé na terra, apesar de viver na cidade. Meu pai foi o meu maior incentivador para um contato maior com o verde e sempre levava a nossa família para lugares onde podíamos desfrutar e aprender mais sobre essa conexão. Acho que vivi em um ambiente propício - sempre apoiada pela minha família, que nunca foi muito apreciadora de artes, mas respeitava minhas paixões, meu tempo e minhas escolhas - para o desenvolvimento das minhas potencialidades e, apesar de ter me formado em comunicação (sou Relações Públicas), encontrei minha verdadeira vocação na ilustração, onde floresci.

Franncine de Miranda por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Hoje trabalho com aquarela e nanquim e meu principal suporte é ainda o papel. Mas o céu é o limite e pretendo explorar outras mídias e superfícies em breve!

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A dor. Há anos convivo com a depressão e a ansiedade e grande parte da minha motivação para criar vem da tristeza e insatisfação que carrego comigo desde pequena. Quando sentia que não dava mais, eu desenhava. Aos poucos, fui percebendo que podia transformar essa dor em algo bonito e verdadeiro. E daí, a necessidade de criar se tornou uma constante, algo urgente que me move e me faz sentir viva. Dessa nova perspectiva tudo vira inspiração! Uma conversa que tive com uma amiga, cheiros e cores que despertam minha memória afetiva, olhar para o céu em noite de lua cheia, aprender sobre o cultivo de plantas, estudar astronomia, surrealismo e o feminino. A natureza, o inconsciente e as relações humanas são fontes inesgotáveis de inspiração para mim.

Franncine de Miranda por Projeto Curadoria
Franncine de Miranda por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu o definiria como orgânico e não linear. Rs. Costumo ter muitas ideias num mesmo dia e elas vêm em momentos em que geralmente me sinto relaxada: no banho, assistindo seriado e até mesmo em sonhos. Nem todas as ideias têm uma chance (e para essas eu mantenho um caderninho, onde elas ficam guardadas, esperando uma oportunidade de virarem realidade), mas tento desenvolvê-las ao máximo. Gosto de colocar uma música (que varia de acordo com o meu estado de espírito e objeto de estudo), acender um incenso, buscar referências e rascunhar bastante antes de partir pra arte final. Costumo começar várias ilustrações ao mesmo tempo, em vez de terminar uma para dar início à outra. Esse processo me permite experimentar diferentes técnicas, aprender mais rápido com os erros e entender o que funciona melhor para cada desenho. Além disso, nenhuma arte final é a mesma de como eu a tinha imaginado inicialmente e isso é o mais maravilhoso dessa dinâmica!

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Procuro sair da rotina fazendo as mesmas coisas de jeitos diferentes. Gosto de observar tudo atentamente, me prender a detalhes, texturas, formatos, cheiros, cores. Costumo pesquisar muitas referências. Pinterest e Instagram são verdadeiros poços de inspiração e estar em contato com o trabalho maravilhoso de outros artistas me incentiva a viver criativamente.

Franncine de Miranda por Projeto Curadoria
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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito das ilustrações que faço por encomenda, pois elas vêm de uma construção conjunta, da mistura de diferentes universos, crenças pessoais e visões de mundo e contém um significado e energia muito especiais.

Porém, tenho a impressão de que meus trabalhos preferidos são sempre aqueles que vieram por último e os que ainda estão por vir. De certa forma, eles refletem quem eu sou e como estou no momento, me ajudam a perceber o quanto evolui pessoal e profissionalmente e me indicam o caminho que preciso tomar para continuar a minha jornada, que vai muito além da arte.

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Quando comecei a participar de feiras onde pude apresentar meu trabalho pela primeira vez para um público diferente do eu tinha, que era, até então, composto por amigos e conhecidos. Rs.

Receber o carinho de completos estranhos, ver como cada um se identificava com o meu trabalho, ouvir sobre memórias e sensações evocadas por um desenho meu e descobrir novas interpretações para uma ilustração foi essencial para que eu enxergasse o meu trabalho de outro jeito.

A arte não era mais uma forma de me compreender melhor, mas também uma maneira de me relacionar melhor com o outro. Perceber que posso tocar o coração das pessoas com o meu trabalho, que é possível me conectar aos outros em um nível tão profundo e de forma tão sincera re-significou o meu criar e me fez entender que eu tinha não só um trabalho remunerado, mas algo muito mais especial. Que a arte podia salvar o dia daquelas pessoas, da mesma forma como me salvou.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Sou apaixonada pelo trabalho e história de vida de Frida Kahlo (e quem não é?), por sua força interior e pela honestidade e coragem com que ela se enxergava. Me identifico muito com a jornada dela como artista, que teve início com uma forte dor, e de como a arte a ajudou a curar algumas feridas.

As aquarelas de Margaret Mee me encantam e foram o ponto de partida para o meu interesse em ilustração botânica e na própria aquarela.

Adoro grafite e tenho me inspirado muito na arte urbana e até mesmo no universo da colagem e das tattoos para criar ilustrações mais gráficas. Gosto muito do trabalho da Lora Zombie, do Conrad Roset e das colagens da Amy Ross.

Além disso, tenho estudado bastante sobre o Wabi Sabi, um conceito estético japonês que nos atenta para a beleza da imperfeição, da incompletude e da impermanência. Além de influenciar fortemente a minha linguagem (que se tornou mais clean e natural), esse conceito me ensinou a aceitar e acolher com mais facilidade os meus erros e a ser menos autocrítica.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sinto certa resistência das pessoas com obras que falam sobre o universo feminino, sobre a nossa fisiologia e escolhas. Eu mesma já abdiquei de algumas ideias por achar que alguém as consideraria “polêmicas ou explícitas demais”. Admiro as artistas que tratam essas temáticas de forma política e corajosa, pois são, infelizmente, grandes tabus na nossa sociedade.

Outro grande preconceito é o de que mulher tem traços delicados e, por isso, deve atender somente o público feminino. Já fiz desenhos para tatuagens de amigos e tenho a impressão de que essa fala é só mais uma tentativa absurda de naturalizar o machismo.

// E o que te faz feliz?

Uma xícara do meu chá preferido, pisar descalço na grama, estar com quem amo, brincar com meu gato, cantar no chuveiro, começar um projeto novo, viver no presente, aprender com a convivência comigo mesma e com o outro, conhecer lugares e pessoas diferentes, fazer o que amo e, mais do que isso, poder trabalhar com o que amo. Sou extremamente feliz e grata por isso.

Franncine de Miranda por Projeto Curadoria
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// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não se limite, pare de se comparar e acredite no seu trabalho. Esse tem sido o meu mantra diário e acho que são as únicas dicas que alguém precisa para seguir em frente com os seus sonhos. Ah! E ter coragem. Por que, no fim, criatividade é sobre ter fé na sua força interior, é estar aberto a novas ideias e ter coragem para acolhê-las e realizá-las.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Novos projetos? Sempre! Rs. Planejo trabalhar com outras superfícies, como madeira e tecido e experimentar diferentes técnicas de pintura. Estou em busca de uma linguagem que combine o gráfico ao realístico, é algo que venho fazendo já, mas de forma meio tímida ainda. Também estou me programando para lançar uma nova série de ilustrações, que venho gestando há muito tempo e com muito carinho. Até agora, os meus trabalhos têm falado muito sobre o mundo externo, o que me encanta e inspira. Essa nova série vai lançar um olhar para o interior, para a natureza humana. Vai falar sobre sonhos, medos e incertezas e também sobre o amor. #ansiosa

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