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Flavia
Zimbardi
Brasil
vivendo em New York . EUA
36 anos . designer . artista

Sou formada em Design Gráfico pela PUC-Rio, mas apesar de achar a cidade realmente maravilhosa, nunca me identifiquei com estilo de vida praiano e acabei mudando para São Paulo em 2005 onde me especializei em Design Editorial.

Por 10 anos trabalhei em algumas das maiores revistas do país como Elle, Capricho, Superinteressante e Gloss – pelas quais ganhei reconhecimento na 9ª e 10ª Bienais de Design Gráfico Brasileira e o Prêmio Abril de Jornalismo com Revista do Ano, pela Capricho. Mas em 2013 essa vida intensa de redação começou a fazer menos e menos sentido. Foi quando decidi começar tudo de novo e mudar para Nova Iorque e investir numa de minhas grandes paixões: A tipografia.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Sempre tive muito apuro ao fazer qualquer atividade manual. Planejar antes de começar qualquer desenho era muito importante, pois na hora que tivesse com papel e nanquim na mão, nada podia dar errado. Acho que por isso o computador virou uma grande ferramenta. É onde tenho mais liberdade para explorar e testar coisas diferentes sem cobrança, uma vez que você pode refinar um projeto "ad infinitum".

Nos últimos anos, tenho tentado me livrar dessa “rigidez”, desse processo tão arquitetado, muito por ação do meu marido, Caetano Calomino (excelente Letrista e Sign Painter), que além de ter um processo criativo oposto ao meu, sempre me incentiva a sair do “mundo digital” e transformar o que faço em coisas físicas. Foi aí que o Half&Half ganhou as pinturas a mão e os pôsteres folheados a ouro.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A busca pelo novo e de continuar evoluindo artística e profissionalmente. Mas tudo a minha volta me inspira de alguma forma. Uma lembrança de viagem, um pequeno detalhe na fachada de um prédio, ou a maneira que a luz incide em determinado cenário pode desencadear uma enxurrada de ideias.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Muito organizado – para o bem ou para o mal. Existem fases muito claras que raramente me dou ao luxo de distorcer. Que começa com bastante pesquisa e reflexão. E só depois que vislumbro um caminho, começo a por as ideias no papel. A parte boa é que, normalmente, a execução é bem rápida. Afinal foram semanas, meses, juntando conceitos e formas na minha cabeça.

Claramente, um processo muito influenciado pela minha formação como designer. É quase como se eu sempre estivesse inventando um problema para resolver.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Inquieta por natureza, rotina é algo que estou sempre tentando fugir. Habitualmente busco lugares novos para conhecer (mesmo que na cidade onde moro), novas séries de TV para assistir, lançamentos musicais, exposições, ou mesmo um motivo para reunir os amigos para uma festinha no "rooftop". E isso certamente me ajuda a não ficar pirando em criar algo novo todos os dias. Até porque curto explorar um projeto pessoal ao seu máximo, ir desmembrando e misturando com outros processos, materiais, formas, e nisso outras ideias aparecem.

E falando em projetos pessoais, concordo em gênero, número e grau com a renomadíssima (e querida) designer Louise Fili que disse “I believe that every designer has to have personal projects – it’s the only way to grow and find a unique voice” (Eu acredito que todo designer deve ter projetos pessoais – é a única maneira de evoluir e encontrar uma voz única).

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Como profissional, o projeto que tenho mais orgulho no momento é a sinalização externa do mercado Artists & Fleas no Chelsea Market aqui em Nova Iorque.

5 anos atrás, quando eu e meu marido viemos à cidade de férias, ficamos muito impressionados com a qualidade dos signs feitos por aqui. Muitos pintados e folheados a ouro a mão. E a fachada colorida e vibrante do A&F no Chelsea com certeza foi um dos que mais chamou atenção. Então é quase surreal, ter um trabalho nosso, feito a quatro mãos, no mesmo exato lugar. E mais ainda, por ter rendido nosso primeiro prêmio internacional como dupla criativa e estúdio.

Como artista, a série Half&Half – que explora as diversas maneiras que um módulo quadrado pode ser divido em partes iguais – foi o que mais me fez rebolar, e sair da zona de conforto. Foi também a mais prolífica, com 150 módulos/patterns e 20 peças finais criadas em um ano.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Um não. Mas vários. Sem sombra de dúvidas minha trajetória tem sido uma mistura de decisões corajosas e felizes coincidências. E nessa segunda parte teve muita gente importante e decisiva para que eu seguisse o caminho que segui.

Quando decidi fazer design gráfico, meu sonho era trabalhar com computação gráfica e games. Porém, logo no meu primeiro estágio, percebi que odiava o processo de animar frame a frame – o que gerou uma enorme angustia sobre o que raios faria depois de me formar.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria

Meses depois, tive minha primeira aula de processos gráficos, com a incrível Izabel Oliveira, e me apaixonei pelo design editorial. A ponto de no último ano de faculdade, colocar meu primeiro projeto pessoal no mundo, o jornal “Design na Real”, feito sobre design para designers. Um enorme marco que ditou não só o que eu faria nos próximos 10 anos, mas que também me fez participar de diversos encontros estudantis que me conectaram com muita gente talentosa, e futuros grandes amigos.

São Paulo, como eu gosto de dizer: “Essa montanha russa com pontos mais altos que baixos”, foi outro grande marco. Que veio meio sem querer. A ideia era fazer o Curso Abril e voltar para o Rio, até que cruzei com o então diretor de arte da Superinteressante, e hoje diretor criativo da Companhia das Letras, Alceu Nunes, que me indicou para uma série de freelas na empresa, e depois de um ano me convidou para participar de um dos projetos mais históricos da casa – o re-design da Capricho de 2006. Essa fase foi muito sobre buscar o meu próprio caminho, e que me ajudou imensamente na adaptação de morar em outro país.

E então Nova Iorque: a decisão mais arriscada, e que ao mesmo tempo, tive mais certeza. Mas como recomeços nunca são assim tão preto no branco, precisei de um, quase dois anos experimentando e me dedicando a projetos pessoais até que decidi aplicar para a pós-graduação em Type Design da Cooper Union em 2016. Foi quando as peças começaram a se juntar e ficou claro o caminho que queria seguir no mundo da tipografia.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Sou grande fã da arte concreta, grids e do conceito modular, e por isso amo mixar formas geométricas, patterns e tipografia nos meus trabalhos. Esse quebra cabeça de elementos que na verdade são sistemas, me intriga bastante. E aí tem vários artistas/movimentos de diversas áreas e períodos que poderia citar, mas vou listar 10 nomes que tem sido mais presente no momento – sem nenhuma ordem especial: Amilcar de Castro, Lygia Clark, Athos Bulcão, Anni Albers, Gunta Stölzl, Sébastien Truchet, Robert Granjon, W. A. Dwiggins, Herb Lubalin, Louise Fili.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sem dúvida essa ainda é uma questão, mas profissionalmente nunca tive problemas, e acho que muito pela postura que sempre tive, de não enxergar meu trabalho ou tempo que dedico fazendo um projeto inferior ao de ninguém. E muito também por sempre me cercar de mulheres fortes e homens sensíveis.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Viver uma vida leve ao lado do meu marido, na cidade que escolhemos para ser nossa casa (pelo menos por enquanto), rodeada de amigos incríveis e sempre aprendendo/experimentando coisas novas, seja um drink de Bourbon, uma viagem ou um mestrado.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Nunca fique esperando o convite para o trabalho dos sonhos. Confie em si mesma e trabalhe duro para conquistar seu espaço. Seja fiel ao que você acredita, a sua personalidade e essência. O resto vem com tempo.

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Desde outubro do ano passado, que meu maior projeto é expandir meus conhecimentos, e técnicas, no programa de pós da Type@Cooper. Nesta segunda-feira apresentei o embrião do que será o design da minha primeira fonte, e não poderia estar mais orgulhosa e empolgada com o quanto aprendi nesse curto espaço de tempo, e o tanto que ainda tem por vir!

Flavia Zimbardi por Projeto Curadoria
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