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Flavia
Lozano
Brasil
vivendo em Milão . Itália
25 anos . designer

Sou uma designer formada não há muito tempo, e durante toda a minha faculdade eu não fazia a menor ideia da área em que eu gostaria de trabalhar. No meu último ano de faculdade eu consegui um estágio no estúdio Graphique, um grande estúdio de estamparia que abriu a minha cabeça em relação ao processo de design, e como a criatividade pode ser trabalhada de forma comercial sem perder a identidade no caminho. Tive muita sorte em encontrar um chefe que tratava os estagiários como aprendizes, e que passou para nós muito conhecimento e muita motivação. Foi ele quem me colocou nesse caminho.

Achei que minha vida estava seguindo um determinado caminho, mas depois de alguns meses consegui uma bolsa de estudos para terminar a faculdade na Itália. Fiz as malas e fui passar um ano em Florença, e percebi que estar em um lugar totalmente desconhecido te dá a liberdade de ser a pessoa que talvez você nunca tenha explorado. Foi uma reviravolta, todos os meus objetivos de vida mudaram, e de repente me vi de volta ao Brasil querendo sair dali o mais rápido possível! E foi o que eu fiz. Depois de seis meses em casa fiz as malas e voltei para a Itália, consegui um emprego para me manter, fui resolvendo a minha vida aos poucos e cá estou!

Hoje vivo em Milão e trabalho como designer de estampas freelancer. Tenho alguns projetos secundários, mas meu objetivo geral é sempre o de ter uma carreira que não tome conta ou defina a minha vida, mas que seja a base necessária para que eu possa explorar as minhas paixões pessoais. E que me permita mudar de país sempre que der vontade!

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Principalmente a minha tablet Wacom e Photoshop. Algumas vezes desenho à mão, mas grande parte do meu trabalho é feito diretamente no computador, por uma escolha pessoal. Preferi investir na ilustração digital porque gosto de me mover bastante, e ilustrar à mão requer uma quantidade muito grande de materiais que eu não tinha espaço nem dinheiro para adquirir. Também gosto da ideia de gerar menos lixo, não usar papel; me parece uma opção mais sustentável.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Talvez não seja tão ligada ao processo criativo, mas o que mais me inspira é a liberdade que o meu trabalho me dá. Posso trabalhar onde eu quiser, em qualquer horário, e não preciso forçar uma certa veia criativa que às vezes simplesmente não funciona. Essa liberdade, saber que não existe uma pressão imensa observando tudo o que eu estou fazendo, cria uma vontade de trabalhar que para mim nunca existiu dentro de uma empresa ou um trabalho fixo.

Além disso, o desafio. Sou uma pessoa naturalmente preguiçosa, então em teoria eu gosto de trabalhar em projetos seguros, onde sei que eu vou conseguir finalizar tudo rápido, mas o que me motiva de verdade a sair da cama todos os dias é fazer sempre algo diferente, trabalhar com tendências que eu não necessariamente goste ou procurar referências fora da minha zona de conforto. É um processo que me irrita e me desgasta, mas ao mesmo tempo cria uma relação emocional com o meu trabalho que é algo que eu considero extremamente necessário.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu trabalho com clientes de diferentes países, estruturas e estilos, então o processo está sempre mudando. Muitas vezes eu recebo um briefing bem específico e tenho que criar algo em cima daquelas cores e daquele desenho, o que é algo que eu sei fazer muito bem, mas não requer um esforço criativo tremendo, pois todo o processo já foi pensado por mim! Nesse caso, é uma questão de escolher qual caminho tomar e executá-lo.

Quando tenho mais liberdade criativa, eu sempre procuro escolher um estilo antes de começar a trabalhar. Busco referências (online e offline), e tento definir uma cartela de cores antes de começar; coloração é uma dificuldade minha. Geralmente já tenho muitas referências salvas de coisas que vi por aí e gostei, então tenho sempre alguma ideia meio pronta na cabeça. A partir daí, é dar liberdade para a mão, começar a desenhar, sentir o traço, e ir adaptando as ideias conforme o que vai saindo. Procuro também deixar o projeto “descansar” durante um tempo, e depois rever o que eu fiz e ajustar, antes de enviar para o cliente. Isso me dá o tempo necessário para conseguir ver o resultado de uma maneira um pouco mais objetiva.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Ando muito por aí! Eu escolhi morar em Milão porque é uma cidade que me propõe ideias novas todos os dias. Preciso sair na rua e ver gente com roupas diferentes, ver lojas interessantes, novas ideias… E aqui encontro isso, em vários níveis: desde pessoas a caminho do trabalho até eventos de altíssima moda, tudo trabalhando em um conjunto que funciona muito bem. Pego muitas referências na rua, e procuro andar sempre com a minha máquina fotográfica para não perder nada.

Ultimamente tento ter sempre um caderninho no bolso também para escrever/desenhar. Meu cérebro funciona bem melhor quando estou na rua do que quando estou trabalhando, então preciso anotar as ideias para poder usar mais tarde!

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tudo o que é desenhado à mão, para mim, tem uma importância maior, porque inclui mais personalidade dentro da estampa. Mas não tenho projetos preferidos: minha maior empolgação é sempre a maior novidade, então não é nem a estampa que eu estou fazendo agora, mas aquela próxima na fila. Dos projetos que eu já fiz eu nem lembro direito, prefiro pensar pra frente.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Quando vim para a Itália comecei a trabalhar em uma tecelagem e, infelizmente, foi uma experiência muito negativa. Depois de alguns meses resolvi sair daquele emprego e investir todo o meu tempo no meu próprio negócio e tentar viver como uma designer autônoma, no estilo de vida que me parecia certo no momento.

A decisão de sair de um emprego com um salário fixo e virar freelancer em tempo integral em um país que ainda era muito novo para mim, com poucos contatos, nenhuma estabilidade e poucas perspectivas de futuro foi uma loucura que me forçou a investir tudo o que eu tinha em mim mesma. Foi bem sofrido na época, mas mesmo durante os dias difíceis eu tinha a consciência de estar passando por um processo muito necessário e que traria ótimas consequências. E eu estava certa (ainda bem!).

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Meu maior banco de referências é o Instagram, que me mostra sempre novos artistas incríveis. Uma artista que me deixa louca é a Naia Ceschin, brasileira e com um estilo super próprio que é impressionante. Amo também o projeto da Karen Hofstetter, o Oh K!, que é sobre empoderamento feminino e artistas/designers incríveis e me inspira em um âmbito mais pessoal a continuar criando aquilo que é meu, todos os dias.

Gosto muito de acompanhar tendências mas ando perdendo a paciência com desfiles de moda, então minha fonte de notícias é o blog Man Repeller, que leio assiduamente e basicamente formou a minha visão do mercado da moda.

Por fim, arte é uma paixão minha, então procuro sempre novos artistas ou novas informações dos mesmos artistas de sempre, e uso muitos quadros como paletas de cor! Não tem como superar arte moderna quando se fala de uso da cor.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Eu tenho a sorte de trabalhar em um mercado que é formado, em sua grande maioria, por mulheres. Procuro também criar colaborações e relacionamentos com colegas mulheres, principalmente porque acredito na valorização do trabalho feminino. Mas ao mesmo tempo, uma mulher que trabalha de casa tem sempre o estigma de estar praticando um hobby, e isso é algo que eu enfrento todos os dias. Sinto uma necessidade muito maior de provar o meu valor porque escolhi um caminho não convencional, e percebo que essa independência causa um certo desconforto, ou me coloca em um estereótipo que definitivamente não é o meu. Uma frase que ouço bastante é: “o bom de trabalhar em casa é que você vai conseguir conciliar com filhos, não é?”; e esse é exatamente o oposto do meu objetivo.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Poder decidir todo o aspecto pessoal da minha vida independentemente da minha carreira. Não moro em uma determinada cidade, ou tenho uma determinada rotina, ou preciso aturar determinadas situações por causa do meu emprego. Lutei muito para manter meu trabalho apenas dentro da categoria profissional, e não transformá-lo naquilo que define a minha vida, e sinto que finalmente estou conseguindo valorizar outras paixões minhas e tratar meu emprego como aquilo que ele realmente é, para mim: uma atividade que me permite ter a independência financeira necessária para realizar meus sonhos de verdade.

Ao mesmo tempo, agradeço todos os dias pela oportunidade de poder desenvolver uma carreira em cima de uma atividade que me dá prazer. Sei que não é uma possibilidade para muita gente, e sei o tamanho do privilégio que me permitiu ter o estilo de vida que eu tenho hoje.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Seja aberta à todas as inspirações que você puder encontrar. Se puder viajar, viaje. Conheça gente nova. E faça as coisas sozinha! Ande, viaje, saia, vá nas exposições e nas atividades culturais sem ninguém, porque quando você está sozinha você tem a liberdade de ser quem você quiser. Nós vivemos constantemente sob as expectativas de uma sociedade que já criou o nosso lugar no mundo, e sair dessa caixa é um processo longo, mas que vale muito a pena! Pelo menos de vez em quando, saia de perto de tudo aquilo que te coloca no lugar, e seja quem você é de verdade. Só assim você conseguirá criar algo que seja realmente seu.

Flavia Lozano por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou desenvolvendo, em algumas plataformas diferentes, maneiras de ajudar outras pessoas (principalmente outras mulheres) a conquistarem essa autonomia que eu consegui conquistar. Esse tem sido o meu foco no momento.

Comecei há pouco tempo uma pequena empresa de gestão de mídias sociais focada em pequenos negócios criativos/pessoas com um sonho grande, porque o Instagram foi uma peça central no desenvolvimento da minha independência financeira, e acredito que possa ser uma ferramenta muito útil, principalmente no mercado criativo, para quem busca essa autonomia.

Além disso, estou dando aulas particulares por Skype, quase que uma consultoria, para pessoas interessadas no mundo da estamparia. Ainda estou em uma fase de testes, mas gosto muito da ideia de compartilhar o meu conhecimento com os outros e criar um relacionamento mais profundo do que aquele proporcionado por um curso online. Meu objetivo é capacitar as pessoas a trabalharem com estamparia em um nível profissional, dentro de uma empresa ou como designer autônomo.

E estou sempre aberta a novos projetos, se alguém tiver uma ideia legal!

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