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Fernanda
Vaz de Campos
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
32 anos . arquiteta . ilustradora

Sou arquiteta de formação e ilustradora por paixão. Você normalmente vai me encontrar num canto quieta, desenhando e sempre com fones ouvindo música. Brinco que sou antissocial pois desde cedo ficar em casa era pra mim muito mais divertido do que sair. Sou apaixonada por arquitetura, mas infelizmente o mercado no Brasil não é o mais favorável. Adoro uma reforma, daquelas que pego o imóvel detonado e tenho que fazer milagre! Mas eu tenho outra paixão, uma mais introspectiva e silenciosa: o desenho.

Minha primeira lembrança com desenho foi aos 5 anos de idade, quando meu quadrinho feito com giz molhado ganhou um concurso na pré-escola. Desde então, minha paixão por desenho só cresceu, tanto é que cursar Arquitetura era um caminho natural do qual não tive dúvidas! Por toda minha vida profissional como arquiteta eu consegui sempre colocar um pouco do desenho, mas nunca o suficiente pra me trazer a felicidade que sinto agora.

Foi em 2013, depois de passar seis meses na Europa, que passei a me dedicar ao mundo do desenho, e desde então tive o privilégio de participar de diversos salões de arte, dar aulas na Casa do Artista e trabalhar na organização do Simpósio Internacional de Urban Sketchers.

Hoje eu misturo minhas duas paixões pois meu tema favorito são ilustrações de edifícios. Não aquela ilustração para venda de apartamentos, a valorização gráfica, mas uma ilustração daquelas de cartão postal, digna de ganhar um cantinho na parede de casa ou ilustrando um convite de casamento. Isso me traz uma paz e uma felicidade que dinheiro nenhum paga.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Nanquim e aquarela. Hoje em dia muita gente pinta aquarela, e por isso se tornou uma técnica mais acessível, mas meu primeiro curso de aquarela foi em 2007, quando eu ainda estava na faculdade de Arquitetura. Na época usava um material de péssima qualidade, mas logo aprendi o principal conceito da aquarela: o que a torna especial são os erros. Já o nanquim é uma paixão bem mais antiga... Adoro criar texturas e brincar com as sugestões da linha.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Seria um pouco exagerado ou talvez muito poético dizer que o mundo todo me inspira, mas é a verdade (sou de peixes!). Como eu ando muito a pé, acabo vivendo mais a cidade e é comum eu parar para observar uma árvore, um edifício ou a luz linda de um fim de tarde paulistano.

Não é surpresa dizer também que viajar é uma grande parte dessa inspiração! Não sou a turista que faz tour do tipo “hop-on hop-off”, prefiro sair andando até cansar e depois me virar pra achar o hotel. Nada de planejar uma agenda maluca, prefiro somente marcar um objetivo por dia e deixar o acaso guiar o resto.

Gosto de fazer um desenho do local onde estou pra poder absorver bem toda minha experiência. Afinal, quando desenhamos, conseguimos perceber o mundo de uma maneira única, e nossa mente registra mais informações do que se tirássemos fotos. Cheiros, sons, luzes, pessoas que passam por mim ou que interagem comigo, como eu estava me sentindo... tudo isso volta quando folheio meus cadernos de desenho antigos.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

O processo varia muito, mas sempre começa com uma inspiração forte: seja uma foto que vi ou tirei, um sonho que tive, ou um trabalho de outro artista. No caso de um trabalho comissionado eu costumo trabalhar com variadas referências até encontrar a que mais me inspira. Costumo usar um sketchbook para fazer rascunhos, testes, e depois inicio o trabalho final numa folha solta. É comum também eu fazer o mesmo trabalho duas vezes, mas o principal é que eu não gosto de parar no meio. Se é um trabalho que exige muitas horas é provável que eu fique a madrugada toda nele, já que eu prefiro o silêncio e a calma da noite.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Desenhar na rua é meu principal meio de me manter criativa. É na rua, fora da zona de conforto e sem todos os materiais à mão que vamos um pouco além e descobrimos formas inusitadas de resolver problemas ou de adaptar soluções. Foi assim que desenvolvi algumas das minhas técnicas. O mais incrível é que ao voltar ao ateliê parece que o processo flui muito melhor. Além disso, quando você desenha e observa o mundo, você cria mais repertório visual.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Sem dúvida minhas aquarelas de folhas secas. Em 2014 estava visitando meu irmão em Praga e um dia notei uma folha seca que ele pegou no parque. Imediatamente tive a vontade de desenhá-la e no processo, por conta de falta de material, eu acabei experimentado um pouco da mistura de lápis de cor e aquarela e me apaixonei pelo resultado. Depois disso acabei desenvolvendo uma série de aquarelas deste tema que ficaram expostas na Feira Parte. Quase todas já foram vendidas, guardei uma para recordação.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Após participar do Simpósio Internacional de Urban Sketchers lá em Barcelona, no ano de 2013, é que eu tive a certeza do que queria fazer. Ver pessoas do mundo todo com as mesmas paixões me deu a certeza de que tinha encontrado meu caminho. Na época eu decidi fazer mestrado, dar aulas em cursos livres e me dedicar à ilustração. O ano seguinte foi incrível, mas como tudo na vida a gente tem que ir adaptando os objetivos e o caminho que está sendo percorrido. Infelizmente não pude concluir o mestrado e tive que adequar minha vida financeira, mas eu tenho certeza que tudo isso só reforçou que estou no melhor caminho pra mim.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Dependendo da época eu sou influenciada por um artista diferente, mas o único que eu sempre lembro é o Saul Steinberg. A simplicidade do trabalho dele com linhas sempre me cativou, além disso eu gosto de como ele não se prende ao real. Talvez pela formação em Arquitetura eu tenha esse vício, e ver trabalhos mais “soltos” me lembram que a expressão é livre e tudo bem ser assim, afinal, se quisermos algo realista, nada mais fácil do que fotografar. Além disso eu gosto muito de ver o trabalho dos urban sketchers do mundo todo. É um jeito único que conhecer um pouco mais da vida e das cidades destas pessoas.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

No quesito expressão eu (felizmente) nunca tive problemas por ser mulher, no entanto no mundo profissional criativo sim, já tive vários, tanto por ser mulher quanto por ser mais nova do que as outras pessoas com as quais eu trabalhei. Fico triste pois há espaço para todos e o sexo ou a idade de alguém não deveria influenciar em como sua competência ou conhecimento é visto. Sei que isso está mudando e que vai mudar ainda mais. Infelizmente eu ainda não encontrei a receita para lidar com essa situação na hora que acontece, mas tenho ficado mais atenta.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

O processo de criação, colocar a tinta no papel! Muita gente faz um desenho só pensando no fim, mas eu já joguei tantos no lixo! E não, não me arrependo... Às vezes eu gosto de desenhar somente pelo processo, como se fosse uma terapia. O mais interessante é que esse momento é ótimo para aquecer a mão (desenhar é que nem fazer exercício!) e para experimentar técnicas, materiais e cores! Outra coisa que me faz muito feliz é ver meu trabalho aplicado em diversos lugares. Eu não imaginava como é amplo o mercado para quem ilustra. Claro que como toda profissão nós temos que encontrar o nicho com o qual mais nos identificamos, mas eu já tive a sorte de ilustrar desde cartazes para a OSUSP até convite (e a parede da entrada!) de uma feira de casamento em São Paulo.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Tenha foco e compartilhe seu conhecimento. Parece um pouco clichê essa coisa do “foco e fé”, mas infelizmente no mundo criativo ainda tem muito preconceito. Perguntas como: “Você só desenha ou também trabalha?” podem acontecer, e você tem que ser firme e seguir em frente. Ignore, siga em frente e use essa energia em seu trabalho. Nunca se esqueça que compartilhar conhecimento não é dar chance para a concorrência mas sim crescer junto, afinal todo mundo tem algo a ensinar e algo a aprender.

Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
Fernanda Vaz de Campos por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

No momento estou me aventurando no mundo da ilustração digital, aprendendo como meu desenho pode se encaixar nessa técnica. É quase como reaprender a desenhar, mas eu estou adorando! Ilustrações digitais além de mais rápidas (no meu caso, pelo menos!), são mais econômicas e mais fáceis de revisar. E não podemos nos esquecer que também podem ser mais adequadas à alguns tipos de trabalhos. Além disso, eu continuo estudando e me desenvolvendo para num futuro próximo voltar a dar aulas.

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