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Fernanda
Robles
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
34 anos . artista

Sou artista plástica, pinto e desenho plantas, cipós, árvores em paredes e tecidos.

Tenho o sonho de (re)aproximar as pessoas da natureza. Sou formada em Publicidade, trabalhei 6 anos na área e em 2011 me mudei para o Acre a fim de mudar radicalmente minha vida e dar espaço para o que sentia falta, como ter tempo para cuidar da minha casa, de mim e criar.

Desde que comecei na área, não tinha tempo para arte, fazia algumas pinturas em casa, mas eram mais exercícios e práticas. Cresci na oficina de ourivesaria da empresa do meu pai, trabalhei um bom período na oficina, adorava cortar chapa e trabalhar no torno e também estudei em escola Waldorf, então, sempre tive o privilégio de experimentar materiais e ferramentas diversas.

Fernanda Robles por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Busco o material e ferramentas de acordo com o que pretendo expressar. Modelagem em argila, tintas, serigrafia, stencil, goivas, pincéis, canetões... Também crio com programas gráficos, depende a intenção do objetivo final.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A natureza e a cultura brasileira acabaram sendo minha maior inspiração desde os trabalhos escolares aos meus trabalhos atuais. Hoje desenho e pinto murais inspirados na natureza e as estampas que variam mais os temas como ribeirinhos, animais e artesanatos indígenas. Trabalhos que já fiz em outros tempos, tem as esculturas Botocudo (1999), Mestre-Sala e Porta-Bandeira (2003). Acontecia de uma forma natural, me inspirar do que acho belo, hoje é também uma escolha. O Brasil é riquíssimo em belezas naturais e nossa cultura popular é bela, forte, cheia de significados e tudo isso nos pertence, são memórias que acredito que precisamos manter vivas, são nossa identidade.

Fernanda Robles por Projeto Curadoria
Fernanda Robles por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Depende muito do que motiva a criação. Tem projetos que surgem de vontades e visualizações que tenho a necessidade de colocar para fora de alguma forma, com o material e instrumentos que funcionem para expressar essa intenção, fico um tempo estudando, refletindo, desenhando, escrevendo... E outros que tenho a vontade de resolver na hora que a ideia vem, sentar na frente do papel até que eu chegue no resultado que quero.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Procuro sempre me manter em contato com a natureza, desde cuidar das minhas plantas em São Paulo até viajar para cidades que a natureza esteja mais próxima das pessoas ou ir pra dentro da natureza mesmo. Sempre senti que me fazia muito bem estar em lugares que tem barulhos da mata, bichos e plantas, quando me mudei pro Acre entendi que isso tudo é de fato importante pra mim. Mesmo morando em São Paulo, eu tento dar um jeito de não me afastar da mata.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Difícil dizer, gosto muito das esculturas que no momento foram uma grande realização pessoal e também gosto muito dos trabalhos que faço hoje, os murais eu desenho à mão livre, é uma delícia, cada um de um jeito de acordo com o ambiente em que nascem, e as estampas uma grande brincadeira para representar histórias que vivi por aí, todos são bem especiais para mim.

Fernanda Robles por Projeto Curadoria
Fernanda Robles por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Quando larguei a carreira de coordenação de pós-produção que estava construindo há 5 anos e seguindo um bom caminho para o crescimento profissional, mas aceitei que apesar do bom caminho trilhado, eu sentia falta de muita coisa.

Eu queria ter um quintal em casa e precisaria trabalhar mais do que eu trabalhava para ter, e quando eu tivesse eu não curtiria e nem cuidaria desse jardim. Esse pensamento me fez perceber que eu queria mais do que a vida que eu tinha e que o momento poderia me proporcionar, e queria voltar a me expressar artisticamente. Foi então que me mudei para o Acre (2011), foi um processo muito intenso, muito forte, mas que me proporcionou fazer arte e ter tempo pra mim.

Fernanda Robles por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Muitos artistas nos influenciam, às vezes por sua história, ou processo criativo, ou ferramentas e materiais escolhidos. Os indígenas brasileiros foram os grandes influenciadores do trabalho que eu realizo hoje. Quando cheguei no Acre eu fiquei extasiada com a floresta, árvores frutíferas por todos os cantos, o jardim que eu tanto queria dentro e fora de casa. Então comecei a desenhar plantas e recortar stencils da natureza ao meu redor. Tudo bem orgânico. Quando fui pra região do Alto Juruá e tive bastante contato com a cultura indígena, organizei uns vídeos de depoimentos e registos de festivais dos Kuntanawas, e observei que eles que são da mata desenham a natureza com geometria, traços retos em corpos, e eu que vinha do concreto desenhava a natureza com traços orgânicos. Ver isso foi o que me ajudou a definir os traços orgânicos e livres dos murais que faço hoje em paredes.

Fernanda Robles por Projeto Curadoria
Fernanda Robles por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Essa pergunta me fez lembrar de uma vez que entrei em uma loja de material de arte urbana, estava procurando spray, o vendedor me falou “olha, tem lata pra menina aqui também.” Perguntei pra ele por que pra menina, “porque a lata é bonitinha, pequenininha e a tinta a base d’água”. Confesso que a lata pequena é bonitinha mesmo, mas por que diferenciar o que é pra menina e o que é pra menino? Se ele achava a lata bonitinha, por que ele não estava considerando que ele poderia querer uma? Só as meninas? Respondi meio seca e irônica que se a lata fosse cor de rosa eu compraria, enfim... Segui com a minha compra, precisava do material pra ir pro cliente finalizar uma arte. Longe de mim achar que mobilizar um complô contra a loja resolveria alguma coisa, mas o que pensei na hora foi que se até mesmo no grafite que discute tanto os direitos humanos, a galera pensa que pra menina é diferente do que pra menino, ainda temos muito o que trabalhar e mudar na cabeça das pessoas da nossa sociedade e muitas vezes na nossa própria cabeça também. Temos que falar, nos expressar da forma que quisermos, sem medo.

// E o que te faz feliz?

Uau, muitas coisas. O que vem na minha cabeça agora: criar, ver os projetos prontos e sentir a sensação da realização. Estudar, aprender sobre os assuntos que me interessam, conhecer outros artistas e designers dispostos a trocar conhecimentos e experiências de trabalho, sentir que o mercado de concorrência e desconfiança pode ser deixado de lado e que todos podem caminhar juntos. Estar na natureza com certeza me deixa muito feliz também.

Fernanda Robles por Projeto Curadoria
Fernanda Robles por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Comecem. Todo caminho se inicia com o primeiro passo e persista com seus ideais, quando sentir que pode estar com vergonha, é a hora que precisa achar um jeito de expor, de falar e sair de si. Pensar assim funciona pra mim, deve funcionar pra outras mulheres também. Acho importante experimentar todas as formas de expressão que tiver vontade.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Meu caminho é feito de novos projetos, tenho a vontade e começo a estudar por onde realizar. No momento tenho criado novas coleções de estampas, estamparia manual por encomenda e os murais, uma coisa leva a outra e novos projetos podem aparecer. Desenvolver oficinas também é uma das minhas intenções agora, vejo a estamparia como uma forma de comunicação, transmitimos informações constantemente com o que vestimos e decoramos nossas casas. Seria lindo ver referências brasileiras aparecendo cada vez mais por aí.

Fernanda Robles por Projeto Curadoria
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