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Fernanda
Fluke
Brasil
vivendo em Ubatuba . SP
39 anos . joalheira

Nasci em 78 em São Paulo e fui criada na zona oeste da cidade, três coisas que eu adoro. Eu dispenso o desnecessário e vou muito além sozinha. Ainda no final da escola fiz um curso de Design de Joias em uma escola de um joalheiro renomado. Eu sempre fui louca por tudo que é de prata, acho que pedi meu primeiro anel com uns 5 ou 6 anos e sempre sabia se era ou se não era prata. Logo depois cursei Artes Visuais no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e passei alguns anos fora do Brasil me abastecendo de outras visões e culturas.

Quando voltei surgiu a oportunidade de trabalhar no cinema, tv e shows na área de figurino, onde inicialmente achei que fosse o meu caminho.

Cheguei a ser a única assistente de figurino de artistas como Lady Gaga e Madonna nas tours de São Paulo. Mas fui percebendo minha insatisfação em trabalhar com equipes e principalmente trabalhar sob pressão. Eu não funciono sob pressão, tenho o meu tempo com as coisas e não sou das pessoas que mais ama socializar, não rio de qualquer coisa e às vezes acho graça onde ninguém vê.

Tive um insight e decidi mudar radicalmente. Mesmo amando ser da cidade resolvi me dar a chance de viver em contato total com a natureza e como sempre tive ligação com Ubatuba, percebi que lá eu conseguiria me renovar e logo me vi montando novamente meu ateliê e minha bancada de joias, muito mais madura. Acho que ter andado por outros solos ajudou muito a moldar quem sou e o trabalho que faço hoje. Mas no íntimo eu sempre soube realmente desde muito nova o que eu gostava de fazer.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Prata é o material base nas minhas criações, mas gosto de transitar com outros metais também, como o cobre, que acho muito bonito a velocidade na qual se modifica e as cores que se resultam. Alpaca que me remete a outros lugares e pessoas, e ouro claro, poderoso.

Os adornos que às vezes vão em combinação com os metais são muito variados.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Principalmente o próprio ato de criar, mas também ativar algo desconhecido ou que possa estar amortecido nas pessoas. A reciclagem e a renovação dentro delas. Nem sempre tem um motivo, mas sempre tem um propósito. Acho importantíssimo mexer com as emoções diariamente pra que as boas energias estejam sempre em movimento. Acho que é isso que faz uma pessoa estar de bem com o universo. Indiretamente isso volta pra mim.

Minha inspiração é relativa. Me considero uma mulher multifacetada, existem muitas mulheres dentro de mim. Então depende de como estou no momento. Às vezes uma simples cor, um brilho podem me inspirar e querer trazer aquilo em forma de joia. Um sentimento, que não podemos visualizar, pode me fazer querer tentar solidificar aquilo em uma forma e virar joia. Não sei como a princípio, mas vou estudar em como realizar. Acho quase tudo possível. Me inspiro em coisas simples também, em formas geométricas e sua modernidade, em filmes e referências de artistas que me tocam. Posso estar em sol a pino ou gótica mas sempre é a beleza e o incomum que me inspiram. Mais precisamente as duas coisas juntas.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Normalmente começa quando vou dormir. Como fico muito tempo em estado alfa de relaxamento, minha mente começa a desenhar minhas peças, é automático e vem em turbilhão. Às vezes, como estou quase dormindo, anoto no bloco de notas pra não esquecer e poder dar continuidade depois.

Dificilmente começo esboçando, a peça quase sempre já vem pronta na minha mente e aí sim passo pro papel pra definir detalhes ou mudanças.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Estar com a casa limpa e organizada me dá a sensação de tela em branco. Aprecio o silêncio e estar em lugares amplos de natureza ou grandes paisagens me deixa extremamente sensível.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto muito do Anel David Bowie que confeccionei logo após sua morte. Foi como uma homenagem, pois pra mim foi uma das maiores potências artísticas que já tivemos.

Mas o projeto que mais gosto está em atividade. Uns anos atrás desenvolvi uma paixão por insetos, seus mecanismos, cores, sua estética e comecei a guardar abelhas mortas quando achava. A primeira achei na sala de casa, onde tinha um jardim na frente, era grande e preta. Depois disso andava com uma latinha daquelas de chiclete e tudo que achava caído na rua, na praça e estivesse em bom estado, guardava. Não tinha planos, apenas guardava pra observar. Com os anos juntei alguns e como meus amigos mais chegados sabiam, ganhei alguns também. Me lembrei que havia ganhado dois cavalos marinhos secos de um biólogo em uma viagem à Califórnia na adolescência e que estavam guardados. E ficaram guardados juntos por um bom tempo.

Morando em meio a natureza e tendo mais facilidade em encontrá-los espontaneamente, vivos e mortos também, porque claro eles também morrem, tive vontade de tentar preservá-los ao invés de simplesmente ver virar pó e desenvolvi. O que foi complicado pois tudo isso tem que estar muito bem claro para pessoas que agem com imediatismo, sem antes ter conhecimento do que está de fato por trás da joia, os bastidores da peça e como se criou.

É meu projeto preferido até agora pois me encorajou a mesclar formas duras e modernas com o orgânico e sua delicadeza e beleza junto ao meu amor pelo incomum. Pra mim são joias que carregam poesia, quase pureza. Digo que eternizar com ética e respeito é amar. Quem quer ver arte verá arte, quem não quiser ver arte verá apenas esqueleto e pra mim esqueleto é só matéria e matéria não vale nada.

Vejo a oportunidade no julgamento das pessoas e isso traz a oportunidade de reflexão também, cada um deve olhar pra dentro de si e refletir em suas próprias ações com o próximo e com o planeta e qual diferença faz nele. Eu sei onde Eu coopero com o planeta.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acho que o momento decisivo foi minha mudança de São Paulo para Ubatuba. A adaptação com o ritmo e as diferenças, coisas que a cidade não oferece, junto ao próprio recomeço com a joalheria depois de muitos anos. Rolou um medo, mas hoje percebo que minha intuição estava certa pois a cidade me oferece mais vantagens do que desvantagens, aos meus valores. Me reencontrei no mundo das artes que é muito amplo, trabalho do meu jeito, pra mim e consigo oxigenar o cérebro. Isso tudo tem influenciado muito na minha trajetória profissional.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gosto de artistas de áreas diversas. Guy Bourdin, Hieronymus Bosch, Mark Ryden são alguns que gosto bastante. Sou obcecada pela obra A História Sem Fim do alemão Wolfgang Peterson e histórias da literatura nórdica, celta, florestas e elfos. Atualmente tenho acompanhado o trabalho do Tyler Thrasher que faz um trabalho magnífico de cristalização em elementos naturais, da Amy Jennings que tem uma belíssima joalheria rústica e luxuosa ao mesmo tempo, assim como Nichole Mclver. Gosto muito também da Meg Girard que tem o estilo navajo mais moderno e acho muito interessante, ousado e original o trabalho da Kt Ferris, ela pira no que faz e não é pretensiosa.

Não acho que influenciam no meu trabalho. Acho que nosso trabalho é o reflexo de nossas almas, das nossas experiências pessoais e isso deve ser respeitado pois o estilo se desenvolve naturalmente podendo chegar a resultados extraordinários quando o artista se respeita e confia em si. E tudo bem, seja como for.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Depende do lugar. No Brasil existe muito, mas não sinto na área da joalheria. É uma área unissex acredito.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Acredito que cada joia tenha o dono certo e mesmo que demore a aparecer, quando se encontram sinto tamanha felicidade na pessoa que faz o ciclo se completar e sinto uma sensação de conforto que me deixa feliz também.

Viajar, ver gente praticando o bem de graça, perceber honestidade e empatia nas pessoas. Estar com minha família, estudar e assistir um bom filme, o aroma da Dama da Noite, um bonito dia de praia.

Fico muito feliz e grata por ter mãos hábeis que permitem me expressar e emocionar, participar de alguma forma de quando as pessoas se presenteiam.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Ter paixão pelo que sua própria arte se mostra. Não querer ser o que não é. Isso é impossível, a nossa arte é nosso espelho.

Acho a parte acadêmica importante, entender o que está fazendo, atravessar obstáculos e dificuldades, estudar a História da Arte... faz a diferença. Proteger a Arte é importante.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tenho o projeto de trabalhar com bronze em paralelo com a prata, como uma segunda linha, mas ainda está só em pensamento. Também tenho um projeto de parceria mas está cedo pra abrir. Neste momento estou focada na construção do site e loja online para facilitar e expandir meu trabalho.

Fernanda Fluke por Projeto Curadoria
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