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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Fernanda
Didini
Brasil
vivendo em Brooklyn . NY . EUA
30 anos . designer

Meu nome é Fernanda e eu gosto de absorver informações. Quanto mais eu souber de um tópico, de uma pessoa ou de uma história incrível, mais eu vou querer saber sobre ela. Talvez, na história da minha vida, por ter me mudado de cidade em média a cada 7 anos, eu gosto de entender como as coisas funcionam. E, para entender como as coisas funcionam, pra mim, é essencial absorver, observar e escutar. E, então, simplificar. Pegar uma história complexa e repeti-la de uma forma mais simples, me faz entender todo um conceito. Foi assim que me apaixonei pelo design gráfico. Ouvir as pessoas contarem sobre a empresa que quer criar, ou a narrativa que precisa contar na revista. Isso me faz ouvir, entender e transformar de uma forma simples e normalmente visual, em algo que seja entendido para todas as pessoas.

// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Trabalho transformando ideias em design, em desenhos ou em letras. Mas o meu papel nisso tudo é de mediadora. Direção de arte, pra mim é isso. Mediar duas partes, o conceito e o visual. E, fazer essa tradução para quem quer ouvir a história. Meu cérebro funciona melhor, quando minha intuição é transposta a minha razão. Acho que faço design intuitivo. Mas isso tudo só é possível depois de absorver muita bagagem informativa e visual. Minha intuição, meu design é melhor hoje, com mais repertório do que antigamente. Estudar, absorver, viver é o melhor repertório para fazer um bom design. Pra mim, fazer design não tem certo ou errado, tem um processo que é melhor para cada pessoa. O objetivo final é mais importante do que como foi que se chegou lá.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Criar, pra mim, significa organizar coisas. E eu faço isso todo dia, toda hora. Criar soluções para facilitar a vida. Seja um jeito mais fácil de acomodar as coisas na geladeira ou fazer a marca de uma empresa de cosméticos. No fim eu só estou querendo organizar as coisas.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Quando trabalhava na Galileu ou em outras revistas, o processo criativo é muito em conjunto. A pauta surge de uma reunião, no qual eu escuto as ideias para várias matérias e entendo o que quer se falar. Nisso o repórter tem que apurar e escrever a matéria, criando o conceito do nosso projeto, praticamente o briefing. Após isso, o repórter volta com a estrutura da matéria, e com a equipe de arte, todos conversamos, entendemos o conceito e ali já vão surgindo ideias. Fazer um brainstorm, verbalizando, pra mim, é a melhor forma de criar. Muitas vezes a ideia da cabeça parece ótima. Mas verbalizando, organizando num papel, a ideia parece maravilhosa, ou horrível. É um bom momento pra decidir continuar ou não. Normalmente quando preciso pensar, gosto de fechar os olhos, ou fazer uma atividade repetitiva, em que fico focada no pensamento, sem distrações. Após isso eu verbalizo, escrevo ou faço listas. Muitas vezes pedindo opinião para outra pessoa. Mas, às vezes eu só sento na cadeira, abro o Indesign e falo comigo mesma: “eu preciso trabalhar, eu preciso terminar isso”. E surgem coisas. Mas, para isso é preciso que o cérebro já esteja acostumado com o fazer o processo repetitivo desse projeto. Por exemplo, fazer uma estrutura de um layout pra mim, é como fazer o trajeto de casa pro trabalho. É modelo mental adquirido.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Vejo muito filme, muito Behance, muito Pinterest, muito vídeo de comida, e gosto de ficar feito boba olhando a cidade, achando beleza nas coisas. Em São Paulo, eu adorava passear pelo centro e olhar os prédios. Prefiro andar de ônibus a pegar o metro, assim posso passear pela cidade e olhar as coisas. Sempre tem algo interessante, um grafite, um pôster, uma árvore, uma varanda... Aqui em NY parece que estou num filme. Gosto de pegar o metro que passa por cima da ponte de Manhattan e ver a vista, digna de fotografia cinematográfica. A neve, uma coisa bem nova pra mim, me faz passar horas olhando pela janela.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

A capa e a matéria da gordofobia é muito importante pra mim. Ela bota o dedo na ferida da mídia, das capas de revista e questiona porque fazemos as coisas como fazemos. Por que não tentar botar no nosso trabalho as coisas que acreditamos? Porque o ativismo das pequenas coisas não se aplica ao nosso trabalho? É difícil, principalmente porque trabalhamos com outras pessoas. Mas, felizmente, pra mim, a Galileu proporcionou uma plataforma para quebrar paradigmas. Convencer os outros de que aquilo que você quer fazer é importante é a maior barreira, mas a melhor recompensa. E, no fim, fazer algo que a gente acredita, é muito mais satisfatório. Por isso, a capa da gordofobia foi muito importante, ela toca em todos esses assuntos. E eu lembro com exatidão de todo o processo. Para fazer as fotos da capa e da matéria, passamos um perrengue gigantesco. No dia da foto choveu, o carro quebrou, um dos personagens perdeu o vôo. Mas, eu me lembro de não ter ninguém reclamando. O clima das pessoas, o envolvimento, a vontade de fazer era tão grande, tão contagiante, que me lembro saudosa de como foi especial.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Me tornar diretora de arte da Galileu foi meu momento mais importante. O então diretor de arte tinha saído e alguém precisava ficar em seu lugar.

Normalmente, contratam pessoas de fora. Então marquei uma reunião com a diretora do núcleo, para me apresentar e falar que o diretor de arte iria fazer muita falta, pois ele era genial. Mas, que a equipe atual de arte tinha ajudado em todo o processo, e nós éramos também a alma daquilo tudo que se tinha mudado, que a Galileu também era um produto nosso, que fazia parte de nós. E, que em time que está ganhando, não se mexe. Sendo a designer mais sênior da revista, sugeri que eu deveria ser promovida e que o meus colegas também. E, que eu estava pronta para ser a diretora de arte, mas que eu só faria aquilo em conjunto com meus colegas. Foi um ponto que eu tomei coragem, confiei em mim e no meu trabalho e segui em frente com o que eu acreditava. Foi a melhor decisão, foi uma resposta incrível e ser parte daquele time, ser a chefe da arte, me mudou e mudou minha forma de pensar. Sair de lá, foi uma escolha difícil para outro passo da vida, mas ser diretora de arte da Galileu vai ser sempre um marco importante na minha vida e carreira. Eu sou muito grata por todos com quem trabalhei, e que me ensinaram muita coisa durante todo o processo.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minhas inspirações são bem mais próximas de mim do que um artista famoso. Os meus amigos e pessoas com quem trabalhei me inspiram mais por estarem mais próximos, por eu entender a história de cada um, de poder ouvir um pouquinho de cada pessoa, cada processo. Tenho muitas pessoas especiais que tive a sorte de trabalhar. Como Rafael Quick, Rodolfo França, Feu, João Pedro Brito, Giovana Ansoain e Mayra Martins (pessoas que passaram pela Galileu enquanto estive lá). O pessoal da concorrência, Flávio Pessoa, Jorge Oliveira, Inara Negrão, Fabrício Miranda, Mayra Fernandes e Thales Molina. (Designers e diretores de arte da Super Interessante). Durante a Galileu tive o prazer de ficar mais próxima de outras redações de trocar ideias durante o dia a dia com o time de arte da Revista Crescer, como o Albie, a Tamy Rente e a Amandinha. E da Revista Saúde, onde eu aprendi tudo sobre revista e sobre organização, com a Laura Salaberry, Ana Paula Megda, Robson Quinafelix, a Letícia Raposo e a Ana Cossermelli. Pra mim, almoçar com essas pessoas e saber o que cada um fez no fim de semana, é aprender com as pessoas, é aula todo dia. Também gosto de olhar o que as pessoas estão fazendo em outras revistas. A Claudia de Almeida, ex-diretora de arte da Wired (e brasileira) me inspira demais. O trabalho tipográfico dela é demais. Gosto também do trabalho do Matt Willey, da New York Times Magazine. Gosto sempre de revisitar o trabalho da Bea Feitler, também brasileira, e seu trabalho na Harper's Bazaar americana.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Claro que existe. O mundo dos negócios ainda é dominado pelo macho alfa. Mesmo no dia a dia, trabalhando com amigos, a cultura é intrínseca ao ser humano. Às vezes coisas acontecem, e é nosso dever, como mulher, reagir a isso. Sem vergonha, sem pudor. Falar, explicar e educar é a melhor forma de fazer as pessoas entenderem como você se sente como alguém age de forma machista. Talvez a coisa, besta, que mais me irrita é sempre se expressar assim “precisamos achar O CARA pra esse trabalho”. E eu sempre respondo: precisamos sim, achar A PESSOA certa pra esse trabalho. É preciso reagir. Eu faço isso naturalmente, faz parte de mim ser contestadora.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Viajar, comer, encontrar os amigos e ir pra praia.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Não se esconda, não tenha vergonha. Lute como uma garota, mesmo! Tenha certeza que você é capaz. Mesmo que você nunca tenha feito aquilo antes, você precisa sentir que é capaz e ir lá fazer. Eu sempre penso que o “não” eu já tenho e que não custa nada pedir. Você só vai ser quem você sonha em ser se você tentar. Ninguém vai te descobrir se você não aparecer.

Fernanda Didini por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Eu estou num período sabático em NY, aprendendo inglês. Sim, eu falava ZERO de inglês e isso sempre me angustiou. Eu juntei todas as economias, convenci o boy e viemos para NY. Tenho um projeto que quero botar adiante, sobre feminismo. Ainda estou no processo de concepção. Vamos ver o que acontece.

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