m
Fefê
Torquato
Brasil
vivendo em Imbituba . SC
33 anos . quadrinista . ilustradora

Meu nome é Fernanda mas me chamam de Fefê toda vida. Eu sou catarinense, moro na praia mas quero muito mudar pra serra e convivo com mais bichos do que pessoas.

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

A ferramenta mais eficaz que eu encontrei até hoje pra me expressar foram os quadrinhos, o que pra mim é um pouco surpreendente já que nunca fui, e confesso ainda não ser, uma grande leitora de quadrinhos. Eu acredito que sou uma escritora medíocre e uma ilustradora mediana, e que dessa forma juntando os dois eu me torno uma quadrinista de bom tamanho.

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A minha maior motivação pra criar é deixar algum legado, alguma prova da minha existência. Eu penso muito sobre a morte, não tanto sobre ela em si mas o que ela significa, a ausência. A minha, a de todo mundo, e quem sabe até a ausência do universo um dia, e em quanto isso significaria à nossa falta de significância, uma coisa assim bem filosófica. Por isso tenho tentado achar motivação no ato em si e não no resultado ou objetivo. Fazer algo porque se quer fazer, porque se sente prazer nisso, parece simples, qualquer criança age dessa forma, mas é muito complicado para um adulto. Quanto à inspiração, são livros, filmes e música. Observar as pessoas também me inspira muito pra criar histórias.

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
Fefê Torquato por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Pra projetos encomendados eu aguardo até uma semana, ou um dia depende do tamanho do projeto, do prazo limite e faço tudo sob a pressão do desespero. Esses momentos eu aproveito pra questionar minha escolha de profissão, minha vocação e talento, questionar inclusive a minha própria existência. Quanto aos projetos pessoais, eu estabeleço um prazo e renovo a cada três meses.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Pra mim a criatividade está diretamente relacionada a limitação de recursos. Eu acredito que a criatividade é a capacidade de achar soluções em meio aos obstáculos. Está nas curvas e quinas, não na linha reta. Está no questionamento. Se existe uma questão a ser resolvida, seja ela um problema matemático ou uma folha em branco, parte da solução está nas ferramentas disponíveis. Se você tem acesso às ferramentas específicas você não precisa pensar pra resolver a questão. Quando tem à mão uma infinidade de opções de ferramentas, é quando surge o famoso bloqueio. Mas quando nós temos poucas ferramentas, em geral não relacionadas à questão, é que nós somos forçados a usar da criatividade. Então pra me manter criativa eu costumo limitar alguns elementos, às vezes é a mídia com que eu trabalho, às vezes a paleta de cores, outras vezes é a falta de dinheiro mesmo, essa última tática tem funcionado muito bem pra mim por anos.

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
Fefê Torquato por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

O que eu estou pra fazer. E quando eu terminar esse, será o próximo. Eu nunca fico satisfeita com os meus trabalhos finalizados. Eu mudaria muita coisa em Gata Garota, corrigiria muitos aspectos de Estranhos, mas o meu próximo projeto é perfeito, por enquanto.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Quando eu entendi que não conseguiria trabalhar com música. Eu estudei música na faculdade e tinha um sonho de ser compositora de trilhas sonoras. Mas um dia caiu a ficha de que não era pra mim, então tive que buscar algo que eu soubesse fazer melhor que a maioria e investir nisso. Eu desenhava com mais facilidade do que as pessoas que eu conhecia então decidi virar ilustradora. Foi a partir daí que eu descobri que quadrinhos também podiam ser para adultos e tudo fluiu com mais naturalidade. Eu ainda considero a música a melhor e mais magnífica forma de expressão artística e largaria tudo se ela começasse a gostar de mim também. Mas a questão é que os quadrinhos me entendem melhor.

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
Fefê Torquato por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu ando numa fase em que não conseguiria citar o nome de nenhum artista específico. A internet tem me deixado extremamente superficial quanto aos meus interesses. Eu me interesso em muita coisa ao mesmo tempo, desde astronomia a confeitaria, e tendo tanta informação disponível à mão, eu acabo mesmo é gastando o meu tempo assistindo Talking Kitty no Youtube. Mas de uma maneira geral eu gosto de autores que usam humor, e o mínimo de recursos. Que pretensiosamente criam algo despretensioso. Eu gosto de enxergar uma técnica virtuosíssima por detrás de uma criação simples e franca. Um exemplo disso pra mim é o meu grande ídolo desde sempre, o João Giberto. Meu desejo é poder um dia poder expressar a minha arte com o mínimo de traços e pouquíssimas, sequer alguma, palavras.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Não existe apenas algum como existe todo o preconceito contra a livre expressão feminina, ao direito de ir e vir, contra o direito de decisão em relação ao próprio corpo. E sim, isso se reflete na minha vida e no meu trabalho. E nós estamos tão imersas nessa cultura misógina que é difícil até mesmo saber como! Talvez isso explique a minha tendência ao isolamento, a minha insegurança e auto crítica desproporcionais, a minha ansiedade e insatisfação. Por isso a produção é importante, é o registro dessa voz, que pode até ser categoricamente ignorada pela mídia, pelo mercado, pela crítica e pela sociedade, mas não pelo tempo.

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
Fefê Torquato por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Meus gatos e cachorros brincando, o nhoque da minha mãe, minha bomba de caramelo, assistir séries com a minha irmã, passar da fase feia da aquarela, andar de bicicleta no frio.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço, seja uma virtuose. É importante ter foco, e tentar não se distrair. É preciso trabalhar porque a prática leva à perfeição. Depois trabalhar mais porque a competição tá braba. E então trabalhar mais ainda porque se é mulher e o mercado vai te ignorar se ele puder, então não o permita. E se tiver algum outro interesse mais rentável, invista nele também, porque viver apenas de quadrinhos no Brasil, se não é impossível, é bastante improvável.

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou juntando todas as minhas forças pra terminar Gata Garota II, e dar início a uma nova graphic novel que eu estou planejando há tempos. Quero publicá-las ainda esse ano. Torçam todas por mim!

Fefê Torquato por Projeto Curadoria
COMPARTILHE
b
//+entrevistas