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Fabíola
Trinca
Brasil
vivendo em Rio de Janeiro . RJ
32 anos . artista

Sou neta de imigrantes italianos e camponeses. Nasci e me criei na Baixada Fluminense do Estado do Rio, região bastante marginalizada e conhecida pelo seu coronelismo do passado refletido no presente. Minha infância foi permeada por contos, histórias e lendas contadas pela minha avó materna de origem indígena, além do contato direto com a terra e com as plantas. Cursei psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e logo depois fui fazer cinema, me tornei figurinista e estou no mercado há 09 anos. Ao acessar um dos processos artesanais do figurino, que é o tingimento, me deparei com a origem tóxica do material industrial utilizado. Descobri que o principal componente industrialmente utilizado é derivado do petróleo, contendo agentes cancerígenos na composição das tintas e que ninguém sabe. Mergulhei nesse universo e abri um campo de pesquisa paralelo, um caminho sem volta: o tingimento natural. Fui estudar em Nova York e em São Paulo e totalmente na raça e na coragem em 2015 o Studio Trinca surgiu, atelier voltado para a busca e prática da pigmentação tintória extraída das plantas nativas brasileiras. Hoje, 03 anos depois, sinto como se a oportunidade de acessar meu processo artístico viesse a partir dessa descoberta. Algo ancestral reacendeu em mim, me suscitando a comunicar sobre o que eu acredito ser o melhor caminho, o da sustentabilidade. Agindo micro politicamente, dentro das minhas possibilidades, o projeto vem tomando corpo e atua em três focos principais: reeducação social através do contato com o tingimento natural; moda sustentável com a produção de pequenas coleções utilizando tecidos e pigmentos naturais; e artes visuais, colocando experimentalmente em questão: o corpo, o homem, a natureza e a conexão entre nós, diálogos têxteis trazidos no meu trabalho. Acredito na transformação e o que vai mudar profundamente o mundo, é agirmos juntos.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Utilizo pigmentos naturais, provenientes de plantas, restos de comida, como cascas de legumes, frutas, chás, dentre outras matérias primas orgânicas, diferentes mordentes químicos (não tóxicos), tecidos de fibras naturais, fotos antigas, nanquim, aquarela bordado, palavras, textos, lembranças, memórias, signos, enfim, tudo o que conecta com o lugar de expressão que sou eu, mutante.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha principal motivação é ver as diferentes nuances de cor da natureza. Observá-la no meu dia-a-dia me inspira e os seus movimentos naturais me jogam pra frente, me motivando a descobrir, investigar, fuçar, tudo aquilo que eu acho curioso e que pode enriquecer o meu trabalho. A gente vai se descobrindo no processo, modificando viços, regenerando traumas e despertando. Fazendo com que o novo surpreenda num lugar incômodo, inquietante. Não ter nenhum controle do processo ou propriamente do resultado é bastante instigante.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Ora eu me concentro no meu ateliê e estudo horas e dias à fio, mergulho em textos, artigos, referências de processos de outros artistas, viajo profundamente no excesso imagético que é a internet, através do Pinterest, Instagram e muitas revistas e sites. Ora me conecto com amigos, bato papo, ando pelas ruas com meu caderninho, procuro novas texturas, sorrisos e músicas que me tocam em diferentes timbres. O isolamento é parte crucial do meu processo criativo, me faz ficar em silêncio por muito tempo. Mas me colocar ao sol e abrir novas brechas de estímulos diferentes também faz parte do movimento. Não dá para se trancar em si o tempo todo. A troca, é rica em material para fazer o cérebro funcionar.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Aciono alguns dispositivos, como por exemplo, corro 2x por semana, estrutura o meu corpo pro trabalho físico, me dando mais disposição e ajuda na resolução de equações mentais, às vezes nada simples de resolver. É o tempo em que eu foco na respiração e na concentração, aliado a meditação frequente, o corpo e a mente se mantêm alinhados, dando mais equilíbrio ao conjunto. Além disso, me desafio sempre, incentivando a criatividade, me propondo a novas experiências diferentes. Outro dispositivo importante é que eu anoto todas as ideias que me chegam de todos os lugares, guardo as imagens, bordo, pinto, escrevo textos soltos, vou sempre que posso a exposições, espetáculos, vejo muitos filmes e leio muito, tudo é fonte de inspiração, desde o silêncio até o caos total.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Estou apaixonada por um projeto chamado “conexões ancestrais” que eu comecei em 2017. O trabalho de conexão acontece com a aplicação de folhas de plantas tintórias ou não, nos olhos dos fotografados anônimos e que resgata através do bordado, das linhas que nos interceptam, a ancestralidade através da natureza, como se fossemos um só. Quando a gente se separa dessa idéia, achando que somos desconectados da natureza, gera essa loucura interna que vivemos hoje, um descompasso constante. Esse projeto tende a atravessar o limite do olhar, dialoga com o que a imagem provoca na gente, repelindo ou aproximando quem vê, do lugar que ele é levado ao conectar com a as plantas.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Eu sempre neguei que eu era artista, não fui criada para ser artista, mas a arte já pulsava em mim desde pequena, travessa, zombeira, meus avós sempre me deixavam à vontade para criar qualquer coisa, eu criava meus próprios meios para ir além do imposto socialmente, tudo era motivo para eu inventar uma história. Mas acho que o momento decisivo para a afirmação da minha trajetória foi recente. Fiz um curso de verão na Escola de Artes Visuais do Parque Laje com Anna Bella Geiger, em que ela, depois de ver meus trabalhos e avaliar meu processo, me disse: “escreve sobre tudo isso menina, não se preocupe com rótulos e definições, apenas faça da sua mão a sua arte, porque você vai longe”. Anna, é uma das artistas visuais mais importantes do país, sabe coisa para caramba e está com o coração cheio de troca com as novas gerações e para a produção de arte contemporânea tão diversa, isso me marcou profundamente. Me provou que a conexão existe, ela é sua, ninguém te tira de você, jamais.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gosto de gente, de sentimentos, de poesia, de atravessamentos. Minhas inspirações se refletem no meu trabalho à medida em que eu também os atravesso. Meu flerte com o texto, bebe muito da fonte de Anais Nin, Clarisse Lispector, Natália Ginzburg e Patti Smith, essas mulheres me trazem uma narrativa livre e submersa na profundidade feminina. A sensibilidade permeia todo meu percurso, independente do caminho percorrido, Marçal Aquino e Milton Hatoum, tem uma importância poética na realidade brasileira, indescritivelmente inspirador. Minha mentora e figurinista, Bia Salgado, foi quem mais me estimulou e me ensinou a entender o vestir pessoas, me introduziu a trama, o fio e a relação dos diferentes tecidos com as cores, como uma paixão que não vai embora, isso se desdobrou em muito no meu trabalho em descontruir a relação da roupa com a figura humana. Nas Artes, Arthur Bispo do Rosário, Andy Goldsworthy, Eva Heller, Jody Sperling, Katie Van Scherpenberg, Luz Angela Lizarazo, Leonilson, Rosana Paulino e Sônia Falconi me flecham dia a dia, abrindo os caminhos entre o visual, o sensorial e o experimental. No mundo dos pigmentos, Éber Lopes Ferreira foi fundamental para eu entender a importância da pesquisa tintória no Brasil e me impulsionou a querer explorar isso no meu trabalho. E a Índia Flint me faz mergulhar no universo botânico através de resultados essencialmente puros e imagéticos.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Claro. Apesar de toda a luta de todos esse anos, ainda é demarcado o território da expressão feminina nas artes, principalmente se ela permeia a questão do prazer para a mulher. Sinto isso no meu trabalho a partir do momento que eu tenho prazer fazendo-o, sinto uma quebra de paradigma entre o interim e as relações. Está tudo interligado, amor, amizade, sexo, prazeres solitários, meu trabalho reflete esse momento, expressa o que sou agora nesse tempo, apenas prazer.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Cheiros, temperos, gostos e sabores. Saber que pessoas se encantam e se abrem a possibilidade de ver o mundo de maneira mais consciente através do meu trabalho é estimulante, realizador e me deixa feliz demais.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Se busquem, se conheçam, se permitam, se conectem, se abram, todos nós somos artistas em potencial, exercer nossa expressão aqui é dádiva, poder comunicar, colocar o que sentimos, tornar esse mundo mais afetuoso e coletivo é papel de todos, principalmente cuidando dele e uns dos outros. Descubra como seu corpo vibra, dance, goze, beije, pinte, cante, grite. Só não vale deixar a televisão e as frustrações do dia a dia sucumbirem vocês.

Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
Fabíola Trinca por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Tem o projeto de auto-residência “tramas que curam e libertam” que é de pesquisa tintória no interior do Rio. A idéia é buscar nas plantas da região, as propriedades curativas através das cores, cheiros e sensações dos pigmentos naturais, ressignificando nossa relação com o corpo, através do tecido. Além desse projeto, tem o desenho da minha próxima coleção, em parceria com a artista Mariana Quintão. Serão peças de tecido 100% natural, garimpadas em brechós do Rio e de SP, tingidas em tons que nos remete à paixão. Com interferências de fotos, textos e bordados aplicadas às peças. Nos dois projetos, o processo e as sensações vividas, é o que vale em suas riquezas naturais.

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