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Elisa
Sassi
Brasil
vivendo em São Francisco . EUA
39 anos . artista . designer

Nasci em São Paulo, numa família que veio metade da Itália, metade de Portugal. Depois da faculdade (queria ter estudado Artes mas acabei indo pra Propaganda & Marketing por ignorância), trabalhei em três agências de publicidade e o desenho falou mais alto. Ilustrava para todas as campanhas que podia. Acabei virando artista freelancer e experimentei morar fora do Brasil, em Buenos Aires. A experiência deu certo. Morei então em Lisboa, Londres e há oito anos moro em São Francisco, Califórnia. A mistura é tanta que nem sei mais se dá pra dizer que sou isso ou aquilo. Hoje sou a mistura de todos os lugares por onde passei, todas as culturas que conheci e toda a bagunça que já tinha aqui dentro de mim.

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Papel, canetas, tintas, telas e muito, muito pixel. Sempre fui apaixonada pelo mundo digital. Minha mãe implementou sistemas em muitas empresas grandes e cuidava das áreas de informática dessas multinacionais todas, então tive acesso à computadores muito cedo, antes que fosse um item comum na casa de todo mundo (por volta de 1990, acho). Daí acabou nascendo essa mistura de tradicional e digital com que eu me identifico tanto porque mesmo sendo filha de pais engenheiros, nasci artista. Afinal, “menos com menos dá mais”, né?

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Sentimentos e emoções. Minhas, dos meus personagens e das pessoas que se identificam com o que crio. Opto por traços mais simples e resultados tão rápidos quanto as emoções fortes, que chegam de repente e dissolvem depressa. Nunca fui muito dedicada estudar luzes, sombras, proporções e perspectivas mas posso passar horas trabalhando no olhar de um homem palito pra ter certeza que ele transmita a emoção exata naquele momento.

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Existem dois processos diferentes pra mim. Ou eu vejo a obra final já pronta na minha cabeça e só preciso executar - difícil dizer da onde vem porque não acho que venha de um lugar ou uma coisa só - ou, se estou tendo dificuldade de criar, mergulho em referência, começo a rabiscar, muitas vezes desenho outra coisa que não tem nada a ver com o que preciso fazer até que eu entre em sintonia com o que preciso criar. Esse segundo processo é meio como fazer um carro pegar no tranco.

Em geral eu não presto muita atenção e não racionalizo meu processo criativo. Até porque a maioria das vezes, ele ocorre quando eu estou com o racional meio desligado.

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu crio, sem parar. Por um lado parece não fazer sentido, por outro parece óbvio. A verdade é que quanto mais você cria, mais a criatividade te presenteia, mais ideias você tem. E se estou num daqueles dias que ideia nenhuma vem, eu começo copiando (de outros artistas ou de mim mesma) pra aquecer, desbloquear. Dali, novas ideias surgem e eu crio de novo. Obviamente a parte de “copiar” é um exercício pra que a criatividade volte a fluir. Nem preciso dizer que não vou publicar ou usar trabalho de outros artistas, né?

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Amo criar os papéis de parede personalizados pra ambientes de criança. Primeiro porque geralmente tenho muita liberdade para criar - quem encomenda quer justamente um máximo de criatividade e fantasia pra estimular o bebê ou a criança. Segundo e mais importante porque a reação e relação da criança com o desenho é indescritível. Ver crianças que crescem ao lado do desenho e vêem nele um mundo encantado, criam histórias, dão nomes aos personagens, mudam de casa e pedem que a arte seja recolocada na parede do quarto novo não tem preço. Recebo fotos de crianças abraçadas com a parede, dando beijo em personagens e bebês ainda bem pequeninos com o olhar vidrado na arte, fascinados com os coelhos, cores ou sabe-se lá o quê. Também amo trabalhar com produtos, especialmente Toy Art.

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Dois momentos decisivos: quando comecei a trabalhar em agência de publicidade e quando parei. Ter conhecido e trabalhado ao lado de tanta gente criativa fez com que muito mais pessoas conhecessem meu trabalho como artista. Isso contribuiu de forma muito positiva para a minha carreira freelance e inclusive poder trabalhar pro Brasil mesmo morando em outros países. Os clientes conheciam meu trabalho, meus métodos e sabiam que eu estaria sempre pronta pra responder, sempre em contato e sempre entregando os trabalhos nas datas prometidas (mesmo para os clientes que não pagaram! Haha!).

Por conta disso pude morar em tantos lugares diferentes e viver tantas experiências importantes e tão significativas pra minha carreira, como ilustrar capas de revistas Londrinas, criar a identidade visual dos correios de Lisboa e pintar murais nas ruas de São Francisco.

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Certamente a arte japonesa é uma das minhas maiores influências, seja a tradicional ou a pop. A maneira de se expressar artisticamente no Japão me fascina. Não há barreiras, limites, certo ou errado. Não desenho manga e procuro não limitar o que crio de modo que caiba na cultura japonesa. Procuro me inspirar e misturar com a arte que nasce naturalmente de mim. Dentre artistas que admiro estão Yoshitomo Nara, Takashi Murakami, Colin Christian com suas esculturas maravilhosas, Minhau e Chivitz - ainda quero pintar com esses dois quando estiver no Brasil! - Hikari Shimoda, Tati Ferrigno, Mari Inukai, Saki, Hayao Miyazaki e, obviamente, Walt Disney e Charles Schulz.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Definitivamente não sinto isso no meu trabalho mas me considero privilegiada, numa cidade sensacional e liberal, cercada de pessoas que pensam como eu. Agora, certamente ainda existe muita gente que julga o que uma mulher deve ou não fazer, seja qual for sua forma de expressão. Porém, vejo isso mudando (ufa!). As mentes minúsculas e preconceituosas estão perdendo espaço num mundo onde pessoas de mente e coração abertos cada vez mais lutam por igualdade, verdadeira liberdade de expressão e um planeta, em geral, bem mais livre de preconceito. Tem muito trabalho a ser feito pra que cheguemos a isso.

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Cores, luzes, gatos, cachorros, coelhos, videogame, bondade, respeito - ao próximo e a si mesmo - amizade sincera, queijo branco, queijo coalho e requeijão, música, esmaltes coloridos, esportes, sorvete de baunilha, doce de leite, embalagem de produtos japoneses, canjica, South Park, canetas novas, papel em branco, lápis de cor, realidade virtual, vetores e bitmaps, sol, desenho animado, tempestade com relâmpago e trovão (mas não as que machucam as pessoas), brinquedo, praia, lago, cachoeira, ajudar os outros, chuva de verão, lua cheia, sorrir pra quem faz cara feia, filme de terror, minha família sensacional e amar alguém que me ama também.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Eu diria a mesma coisa para qualquer um que queira potencializar suas criações. Na verdade, eu particularmente não chamaria de dicas. Prefiro dividir minha experiência e deixar que os outros decidam se é uma dica ou não porque a gente sabe que não tem fórmula pronta pra muita coisa nessa vida, né? E, pra mim, o que funcionou foi ser eu mesma, expressar o que você é e não o que é hype ou o que vai vender. E apesar de soar meio new-age, “ser você mesmo” é uma das coisas mais difíceis nessa vida, na minha opinião. Porque pra maioria das pessoas isso leva tempo. É tentativa e erro, é não desistir, é continuar experimentando, é não ter medo de fazer diferente até encontrar algo que traduza o que você é, o que você sente, o que existe na sua essência. Agora, tem sim uma coisa que digo pra todo mundo que senta pra desenhar comigo e diz que “não sabe desenhar”: não tem certo ou errado na hora de criar. Tem se expressar e só. Não tenha medo, não espere nada dos outros, não faça só por dinheiro, quebre regras, duvide, questione, tente sem medo. Nisso nós temos sorte: para criar, basta ser humano. Tá tudo aqui dentro da gente.

Elisa Sassi por Projeto Curadoria
Elisa Sassi por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou criando um set de stickers pra um app de mensagens muito legal. Não posso contar ainda o nome do cliente mas prometo divulgar assim que lançar. Tá rolando também uma parceria com as meninas maravilhosas do “Clube do Bordado” e o plano é ter a novidade pronta pra quando o Natal chegar.

E algo que sempre tem novidade que vale dividir é o beaba.org, organização que ajuda crianças com câncer e da qual sou ilustradora oficial com muito orgulho. Estamos trabalhando na próxima edição do Beabá do Câncer, o guia produzido para informar os pequenos pacientes.

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