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Denise
Zinetti
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
42 anos . artista

A gente nasce artista! Portanto só se torna artista, no sentido de viver da sua arte, quando você é capaz de se distanciar do seu próprio trabalho e olhar ele de fora. Só assim é possível ser uma espécie de curador do seu próprio processo. No sentido de cuidar e de tratar suas feridas.

Esse afastamento é muito importante. Está tudo em processo. Antes eu me desrespeitava muito, me punia porque acreditava que meu trabalho não tinha acabamento, e que eu não era capaz de concluir algumas das minhas coisas. Passado um tempo entendi, que o tudo está em processo.

O meu trabalho fala dessa incompletude, da contraposição, dessa falta, dessa falha. Do imperfeito, da natureza, do que é orgânico.

Desde criança eu sempre desenhei. Tocava violão e criava meus próprios brinquedos, feitos à mão, com materiais que encontrava. Usava sabão em pedra, barro, caixas, embalagens, arame. Era uma criança tímida, mas com um imenso mundo criativo.

No mercado de trabalho virei designer. O computador me deu muita coisa, mas também me tirou algumas outras. Trabalhando 17 anos com isso e dando aulas, percebi que precisava me expressar de outra maneira. Gosto muito do design, mas o design não te aprofunda.

Design é falar do outro com sua alma. Eu queria falar de mim.

Então me voltei para a pintura e para o desenho. Fui entender meu próprio processo criativo.

Na verdade isso começou quando comecei procurar desenvolver a minha espiritualidade. Comecei a praticar ioga e meditação. E em seguida aquarela e processo criativo.  Paralelamente à isso comecei a plantar. Percebi que no meu processo tinha muitos elementos orgânicos. Nada de computacional, mesmo trabalhando tanto tempo com computador.

Descobri que também essa contraposição era o que complementava, o que dava sentido ao meu trabalho. A busca do imaterial, passa por experiências com materiais. Fiz muitas experiências.

Sem me preocupar com a técnica. Então re-experimentei: argila, massa, gesso, parafina, resina, misturei tintas à base de água com à base de solventes, detergentes, folhas, galhos, terra. Enterrei molduras, usei carvão, e tudo o que o meu impulso me pedisse.

Entrar em contato com a arte é entrar em contato com você, com suas coisas. Se entender, se explicar, se mostrar. Entrar em contato com aquilo que te trouxe. Aquilo que te faz maior. Ser maior é ser exatamente do seu tamanho. Fazer e mostrar aquilo que você veio dizer.

...e o violão?
ah, o violão!

A música pra mim é a mais etérea das artes. Ela te eleva e quase não precisa de materialidade.

A volta pra terra, o contato com elementos da natureza, do plantar, do ver nascer, ver crescer, regar e colher tem haver com a busca às raízes. Raízes da minha infância no interior de São Paulo. No processo, a volta às raízes, ao humus, ao humano.

Humildade de assumir o que é. De ter contato com você mesmo.

Antes de voltar para reencontrar o meu processo criativo, fui mãe. E ser mãe, é usar sua força criadora, protetora, provedora e cuidadora.

E só agora posso me entender e me nomear como artista.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Aquarela, desenho à nanquim, desenho com grafite, tinta à óleo,
arame, massa, parafina... um pouco de terra, sementes e galhinhos secos.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Quero falar do SER HUMANO.

Quero falar pro mundo a minha experiência de dar valor às coisas simples.

Quero falar do que eu vejo, do que eu sinto.

E também dessas coisas que não estão indo muito bem como o descaso com os recursos naturais, intolerância, pobreza, e pessoas alienadas de si próprias.

Mas também quero falar da alegria de se descobrir. Dos desdobramentos  disso.

Da abundância de se descobrir como ser humano e como mulher.

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// Como é o seu processo criativo?

Meu processo varia. Eu também vario. Sou meio cíclica, um pouco camaleoa. Às vezes chega a ser caótico e depois silencia.

Muitas vezes começo com uma caminhada matinal. Caminhar me centra, me conecta, me inspira e volto pro atelier muito criativa. Algumas vezes não vou direto pro desenho. Vou escrever alguma ideia, alguma reflexão que o andar me trouxe.

Outras vezes começo tocando violão, cantando pra soltar. Até porque na maioria da vezes, ninguém está ouvindo (rs).

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Umas vezes preciso do silêncio e em outras vou preferir desenhar em casa com crianças brincando e fazendo barulho ou mesmo na rua... num bar, num café, num parque ou até no metrô de pé e com ele andando (rs).

Começo às vezes na mesa e quando vou ver já estou no chão.

Algumas vezes vou desenhar depois de ter trabalhado o dia todo em outras tarefas, quase como se criar fosse pra descarregar, desabafar.

Outra coisa que costumo fazer é deixar o desenho descansar também. Porque ele precisa descansar de mim, e eu dele!

Faço manchas. Elas descansam por muito tempo, e depois, retomo descobrindo nelas desenhos. Às vezes a coisa se inverte, e faço linhas que depois vão se encontrar com as manchas.

Normalmente, não sei o que vou desenhar.

Na maioria das vezes não gosto de usar referência. Talvez porque quero que os meus desenhos sejam retratos do inconsciente.

Quando uso referência, quero me distanciar um pouco do que estou vendo. Preciso abstrair uma parte.

Uma outra coisa que acontece de vez em quando, é encontrar outro desenho quando viro a folha de ponta-cabeça. Talvez porque opostos fazem muito sentido pra mim.

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// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Me emociono muito.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Gosto bastante do projeto: “Não suba em árvores”, que são uma série de desenhos que fiz a partir de carimbos, gerou algumas aquarelas e também um livro-objeto.

Bom essa ideia veio a partir de um passeio pelo parque do Ibirapuera. Olhei uma plaquinha embaixo de uma árvore que estava escrito: NÃO SUBA NAS ÁRVORES! Fiquei indignada!

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Bom, no mercado de trabalho me tornei designer gráfico. Trabalhei durante vinte anos usando muito o computador.

E o momento mais importante, foi quando percebi que só aquilo não me completava. Percebi que precisava de outro meio de expressão. Então fui buscar ioga, meditação, fiz curso de óleo sobre tela, aquarela, e processo criativo... E um dia me descobri na praia escrevendo coisas que ouso dizer que são poesia.

Além disso, virei mãe. E ser mãe fez com que eu me perdesse e me reencontrasse.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gosto de trabalhos fortes, densos, existencialistas, profundos e viscerais.

Jenny Saville, Marx Ernst, Alberto Giacometti, Egon Schiele, Francis Bacon, Eva Hesse, Nina Simone, Billie Holiday, Tulipa Ruiz,Clarice Lispector.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Há alguns preconceitos sim e muita hipocrisia.

Penso que a sociedade está caminhando para uma melhora em todos os sentidos. Em relação ao preconceito também.

Mas não sinto isso como barreira no meu trabalho. Nunca senti, mesmo quando trabalhava somente com design gráfico. Ao contrário, quando uma mulher encontra sua maneira autêntica de se expressar a tendência é as pessoas respeitarem muito isso.

Acredito que o trabalho criativo tem essa missão também. Ajudar as pessoas a elaborarem melhor essa questão do preconceito e da hipocrisia que limitam e aprisionam.

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// E o que te faz feliz?

Café da manhã...

Estar com a minha família. Ver meus filhos crescerem. Ouvir música, dançar. Fazer ioga. Tocar violão.

Uma conversa com uma pessoa amiga... Dar risada.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Reconectar-se com sua força criadora e criativa.

Temos em comum o poder que vem do ventre.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Vários! Rs

Está tudo em processo.

Mas tenho um que estou muito ansiosa, onde vou conseguir juntar a experiência do design gráfico com a arte, em processos de produção para pequenas séries.

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