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Danielle
Noronha
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
38 anos . artista

Nasci em São Paulo mas vivi por mais de vinte anos em Brasília. Lá me formei na UnB em Desenho Industrial. Vim à São Paulo buscando alguma oportunidade de trabalho na área editorial pois sempre me encantou a tipografia. Por uma série de coincidências, conheci Rubens Matuck, um grande artista também apaixonado pelas letras e quem foi o responsável por me ensinar aquarela e pintura. Depois de alguns anos nessa convivência, a caligrafia e a tipografia foram se diluindo enquanto a prática artística se fortaleceu. Frequentei também o ateliê do impressor Roberto Grassmann, o ateliê de gravura do Museu Lasar Segall, o ateliê de cerâmica de Sonia Giardini, as aulas de cerâmica de Kimi Ni e, mais recentemente, as aulas de aquarela de Wagner Zuri. Em 2012 fui convidada para participar do time de artistas da Galeria Mezanino.

Danielle Noronha por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Aquarela, pintura a óleo, gravura em metal e cerâmica.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

A produção artística que nos antecede e a que acontece agora é a maior fonte de inspiração, no entanto, a vida — as pessoas, a rotina da casa, a cidade, o que está ao nosso redor — são a força motriz para a minha prática poética.

Danielle Noronha por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Eu mantenho a disciplina da prática no ateliê onde trabalho diariamente. Desenho e pinto de observação. O processo criativo, para mim se dá no fazer, nas conversas com os colegas artistas, enquanto desenho e pinto. A criatividade não deve ser encarada como o pressuposto para a arte — não é necessário ter uma ideia mirabolante para se pintar um quadro. Um quadro, ao meu ver, deve retratar a pintura em si, a sobreposição de camadas de cores que ali se acumularam, independente do assunto. Um bom quadro, independe do assunto retratado pois seu assunto central é a pintura em si. Por isso acredito que a criatividade esteja relacionada mais à disciplina do fazer reflexivo/ poético do que sobre ser genial ou inventivo (mas não estou desmerecendo essas qualidades, somente não as persigo enquanto trabalho).

Danielle Noronha por Projeto Curadoria
Danielle Noronha por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Eu trabalho diariamente. A disciplina é o que faz o trabalho existir. Manter a prática da arte viva é, para mim, a chave.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Acho que os preferidos são os em andamento. Eu gosto de poder modelar/ esculpir objetos em argila para que eles sejam meus modelos nas minhas cenas e também gosto de retratar pessoas em pinturas de aquarela de grande formato.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O marco decisivo talvez tenha sido ter vindo a São Paulo, conhecido tantos artistas que me acolheram, que até hoje compartilham suas visões artísticas comigo. O segundo foi ter um ateliê fora de casa (isso significou para mim a primeira oficialização do ofício), junto do convite pra participar do time da Galeria Mezanino e a individual Veículo de Viagem. Mas marco mesmo, essa coisa monumental, acho que não tem não porque o trabalho é diário e não há nenhum brilho nisso. É trabalho mesmo.

Danielle Noronha por Projeto Curadoria
Danielle Noronha por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Minha mãe e meu pai me inspiram porque batalharam muito pra nos formar e ao mesmo tempo, nos deixar ser quem somos. Meus irmãos me inspiram porque, apesar de nossas diferenças (e justamente por elas), nos amamos e nos admiramos mutuamente. Meu marido é o artista com quem decidi dividir minha vida íntima e também a parceria artística. Meus amigos artistas me ensinam diariamente (pelas redes sociais, publicando seus trabalhos em andamento especialmente e também me recebendo em seus ateliês). A terapia me inspira. A ioga também. As mulheres que se unem para se fortalecerem e darem voz aos seus pensamentos muito me inspiram. Os jovens que falam sobre novas formas de organização social me inspiram. Rembrandt vive em meus sonhos, junto de Georgia O’Keefee, Avigdor Arikha, Wisława Szymborska, Herta Müller, Manoel de Barros e tantos e tantas outras artistas. O mar e a cachoeira, além da mesa do café da manhã que ficou esquecida também. Basta estar vivo e de coração alerta que a inspiração vem de todos os lados.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim pois só de pensar que o grosso da produção artística que nos antecede é de autoria de homens brancos já é um indício de que nossas referências são pobres. Procuro me questionar sobre esse parâmetro, essa perspectiva e me posicionar como uma mulher artista no Brasil.

Danielle Noronha por Projeto Curadoria
Danielle Noronha por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Me faz feliz estar organizada com a prática do trabalho, com poder viajar e descansar também. Me faz feliz estar em torno de pessoas verdadeiras e respeitosas. Me faria feliz estar numa cidade que respeitasse as diferenças de pensamento mas não houvesse pobreza, onde as pessoas tivessem casa e comida e suas preocupações pudessem ser outras que não as de sobreviver.

Danielle Noronha por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Priorizem a prática artística na agenda, afinal não há prática sem fazer. Dividam mais os outros afazeres ou os deixem por fazer. Priorizar significa só olhar para aquilo. Priorizar o fazer artístico, às vezes significa deixar de fazer outras coisas que talvez as pessoas esperam que você faça. Nem sempre é fácil.

Danielle Noronha por Projeto Curadoria
Danielle Noronha por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Estou pintando retratos em aquarelas de grande formato. Convido amigos para posarem para mim e fazemos várias sessões até que a pintura se feche. Está sendo maravilhoso poder conviver com as pessoas e com as camadas de aquarela.

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