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Cynthia
Gyuru
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
43 anos . artista . ilustradora

Desde criança gosto de criar coisas com as mãos. Fazia cortes e amarrações em camisetas, transformando em outras peças de roupas sem usar máquina de costura, montava brincos e levava na escola para vender! A faculdade de Artes Plásticas foi um caminho natural. O desenho é presença constante no meu trabalho, é parte da minha linguagem. É ele que norteia e costura minhas atividades, que vão da ilustração, colaboração com revistas e livros, desenvolvimento de estampas, pintura em peças de porcelana, cenários e vitrines, aulas e workshops, até a criação de projetos customizados.

Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Meu trabalho é extremamente manual e artesanal. Uso lápis, caneta nanquim, aquarela, tinta acrílica, colagem, bico de pena.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Sou muito curiosa. Diversas situações e assuntos me interessam, me despertam, me chamam para o criar. O tempo todo, na verdade. Acontecimentos banais, o cotidiano, alguma palavra que meu filho inventou, as árvores do caminho, um filme... Mas não acredito em inspiração divina. Acredito em suor. Gosto muito do que faço, trabalho com prazer e afinco. Estou constantemente fazendo conexões com o que enche meus olhos, com o que me desperta. Cadernos me acompanham com anotações, desenhos, rabiscos, cartelas de cores, ideias, listas de novos interesses, intenções. Isso vai aos poucos tomando forma, clareando, tornando parte do meu repertório.

Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

O processo é muito intuitivo e está sempre em andamento, é contínuo, como descrevi acima. Em um primeiro momento pode parecer meio caótico, mas acaba fazendo sentido e o que antes se assemelhava a um labirinto, vira uma ideia clara, um desenho, um projeto, uma peça de porcelana.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tento desenhar ou rabiscar todo dia, sem pretensões, quase como um exercício. Esses caderninhos que me acompanham servem para isso. Ando bastante à pé e isso também dá uma refrescada na mente: observar pessoas, a cidade, as cores. Pausas e espaços no dia, como um café com alguém querido, brincar com meu filho, ir ao cinema, servem para tomar um fôlego e ajudam a deixar o novo entrar.

Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho um projeto que já é antigo mas que gosto muito, o Diários. Ao longo de um ano fiz um desenho por dia em moleskines. Foi puxado e exigiu disciplina, mas o resultado é muito interessante, amo esse projeto! Foi em um momento de transição, em que estava me firmando como ilustradora, também por isso tão significativo.

Outro projeto incrível foi esse ano no Sesc Campinas. Fui convidada à fazer uma intervenção em um muro enorme! Cerca de 550 azulejos trabalhados um a um e distribuídos em cinco painéis. A partir da multiplicidade de técnicas e linguagens que o azulejo pode receber, proponho novas abordagens para o suporte da porcelana e o mote da paisagem nas artes visuais. Foi um super desafio porque nunca havia trabalhado em uma área tão grande, com azulejos.

Um terceiro momento muito especial foi em 2016, quando desenvolvi junto a uma fábrica de porcelanas, peças que desenhei. Pinto porcelanas desde os 18 anos, mas nunca havia desenvolvido uma peça de minha autoria. Foi maravilhoso!

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Assim que me formei na faculdade, abri com uma amiga, um ateliê/loja de produtos de design e decoração, que nós mesmas desenvolvíamos. Existiu durante dez anos. Fechei em 2009 e a partir daí me vi trabalhando sozinha. Foi um respiro! Percebi como gosto de ter independência na criação, tomar minhas próprias decisões, cuidar do tempo das coisas do meu jeito. Foi como se um mundo de novas possibilidades tivesse surgido. Um caminho mais autoral e com mais significado para a minha vida.

Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

São tantos artistas! Ando meio obcecada com os desenhos da Louise Bourgeois. Leonilson sempre está presente. As pinturas da Vania Mignone. Os desenhos e o modo como usa a cor do David Hockney. As tapeçarias e murais do Burle Marx. Sandra Cinto sempre. Tantos outros mais...

Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Acho que existe sim, mas sinto mais preconceito no âmbito social.

// E o que te faz feliz?

Viajar, a risada e o beijo do meu filho, assistir um filme, desenhar sem compromisso, olhar a chuva.

Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
Cynthia Gyuru por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Olhar para dentro e perceber o que te move, no que acredita, o que é verdadeiramente importante pra você. Esquecer o que é tendência e procurar o que acende seu coração, sem se preocupar em agradar.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Nesse momento estou produzindo uma nova leva de porcelanas para as feiras do final do ano. Essa etapa é a mais gostosa! É um mergulho investigativo, em que trago à superfície todo um trabalho de pesquisa, de ideias e motivações, transformando em desenhos, símbolos e cores. E assim que tiver um tempinho, ainda esse ano, pretendo atualizar meu site!

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