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Cristina
Dias
Brasil
vivendo entre São Paulo e New York
36 anos . artista . joalheira

Nasci em São Paulo e cresci em Brasília, mas mudei para os Estados Unidos com dezoito anos. Fiz faculdade em Boston, onde aprendi a fazer joias e esculturas em metal. Depois disso, morei na Suécia e Porto Rico, mas acabei voltando para os Estados Unidos, fincando raízes em Nova Iorque. Ao completar 18 anos no exterior, decidi vir fazer uma residência artística em São Paulo, onde estou agora passando uns meses e me reconectando com o meu país de origem.

Estar imersa em outras culturas esses anos todos me fez questionar e reformular muitas certezas e referências; esse processo, muitas vezes doloroso, também tem sido muito libertador: aprendi a respeitar a minha essência e a traçar o meu próprio caminho, entendendo que a vida não é linear.

Cristina Dias por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu trabalho a joia como forma de expressão artística. Utilizo a borracha de silicone (frequentemente em combinação com outro materiais como fibras e imãs) porque amo a flexibilidade do material e a gama de cores que ele me permite explorar, podendo imitar, através dele, outros materiais considerados mais preciosos. Como minhas peças não são o que parecem ser, questiono conceitos como a nossa percepção e atribuição de valor e de beleza, mas sempre de uma maneira lúdica.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minhas maiores motivações vem do desejo de me comunicar com outras pessoas e de fazer algo com as mãos. Não quero que meu trabalho exista no vácuo; o faço porque gosto e porque criar faz parte da minha essência como ser humano, mas quero que ele acrescente algo à experiência dos outros. Há também a vontade de deixar de ser somente consumidor e passar a ser um realizador, de alguém que materializa ideias com suas próprias mãos.

A beleza me inspira, mas não me refiro àquela de padrões pré-definidos, estilo revista de beleza. Me interesso pelo mecanismo daquilo que nos atrai, que nos agrada, que nos eleva do mundano! Na série Criaturas, trabalho uma dicotomia entre a atração e repulsa, entre o belo e o feio, o familiar e o exótico, no intuito de apresentar possibilidades que vão além daquilo que nos é imposto como padrão.

Cristina Dias por Projeto Curadoria
Cristina Dias por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

A série na qual estou trabalhando agora - as Criaturas - é inspirada pela natureza. Gosto de visitar aquários, jardins botânicos e museus de história natural para ver seres e minerais de perto, mas também busco muitas imagens na internet (minha coleção no Pinterest está sempre crescendo). Geralmente, um ser vivo - seu formato ou combinação de cores - serve de ponto de partida para uma peça nova. Muitas vezes não faço rascunhos e vou direto com a mão na massa, mas sempre mantenho um caderno de desenhos com ideias e anotações. Também faço vários testes combinando borracha com fibras, buscando novas texturas, cores e formatos. Às vezes os resultados são desastrosos, mas essa experimentação é essencial para a expansão da minha linguagem visual!

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Gosto de ver exposições de arte, ler artigos e livros, bater papo, ouvir música... mas também gosto de não fazer nada, ficar olhando pro tempo, praticar yoga e meditar. Necessito de um equilíbrio entre esses dois mundos: adquirir conhecimento e trocar ideias é muito estimulante para mim, mas me permitir momentos de divagação, de simplesmente ser, sem nenhum propósito ou objetivo, também é essencial.

Cristina Dias por Projeto Curadoria
Cristina Dias por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Todos os projetos que faço pela primeira vez são marcantes... Por exemplo, a minha primeira encomenda foi para uma colecionadora que já tinha peças minhas e me pediu para fazer um colar maior do que o normal. Tive que repensar a estrutura da peça para que ela não ficasse muito pesada e acabei levando algumas semanas para termina-la. Amei tanto o resultado que quase não quiz me separar dela… Pelo menos ela rendeu uma selfie bem legal!

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acho que o relacionamento que estabeleci com as donas da Galeria Mobilia logo depois de me formar na faculdade foi um marco decisivo na minha carreira. Elas são super apaixonadas pelo que fazem! Ter o apoio e estímulo de pessoas como elas desde o início tem sido crucial na minha insistência em seguir uma carreira artística. Mesmo nos momentos em que não estava produzindo nada, tinha uma sensação de pertencimento por elas estarem sempre de braços abertos para receber o meu trabalho.

Cristina Dias por Projeto Curadoria
Cristina Dias por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Nossa, são muitos! Dentre artistas contemporâneos, curto muito a sensibilidade dos trabalhos da Anne Hamilton, Andy Goldsworthy e Marina Abramovic. Não acho que eles se reflitam diretamente no meu trabalho, mas me inspiram a buscar a minha própria linguagem. Também curto muito o trabalho de um amigo e joalheiro americano chamado Dan Jocz: ele é às vezes irreverente, às vezes muito sério, mas sempre muito autêntico!

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe preconceito sim, mas essa não tem sido uma questão para mim dentro do campo da joia artística. Talvez isso se dê porque trabalho dentro de uma área onde as mulheres tem uma presença muito forte. Tomo como exemplo as donas das três galerias com as quais eu trabalho regularmente: todas são mulheres! Ao mesmo tempo, já trabalhei com curadores e colecionadores homens, e fico feliz em poder dizer que até hoje não senti nenhum preconceito por parte deles.

Cristina Dias por Projeto Curadoria
Cristina Dias por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Tanta coisa!!! Praticar a gratidão, como um exercício de foco naquilo que há de positivo na vida, tem contribuído muito para me sentir feliz independentemente da circunstância na qual me encontro. Por exemplo, ter vindo para São Paulo fazer a residência artística da FAAP tem sido uma experiência muito gratificante para mim! Além de poder me dedicar aos meus projetos, tenho conhecido pessoas criativas e muito acolhedoras. O momento político e econômico pode não ser favorável, mas reconheço a resistência e o esforço que muitas pessoas estão fazendo por aqui em defesa das artes, da educação, do direito das mulheres e minorias, enfim, do bem geral da população. Ainda temos muito trabalho pela frente mas, ao ver a determinação dos outros, me sinto inspirada a contribuir com isso de alguma forma.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Antigamente eu só conseguia fazer arte quando a minha vida parecia estar em ordem e, por isso, ela acabou ficando em segundo plano em alguns momentos... Hoje em dia, percebo o quão importante é alocar tempo para trabalhar no ateliê. Portanto, não espere o momento perfeito para conseguir fazer aquilo que você gosta: crie este momento para você mesma!

Cristina Dias por Projeto Curadoria
Cristina Dias por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim! Estou participando de uma mostra coletiva onde estou expondo uma instalação interativa com as minhas Criaturas. Elas são magnéticas e "grudam" diretamente na parede, permitindo que o público possa interagir livremente com elas. Ao apresentar as Criaturas não como joias em formato definido (como um colar, broche ou bracelete), e sim como peças que podem ser combinadas entre si para virarem joias no corpo, abro um diálogo sobre criação com o público.

Esta interação entre o público e o meu trabalho tem sido o foco da minha pesquisa.

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