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Criola
Brasil
vivendo em Belo Horizonte . MG
graffiteira

Meu nome é Tainá, mais conhecida nas ruas como Criola, sou de BH, e tenho o graffiti como um suporte artístico em que materializo o que eu acredito a partir das minhas vivências enquanto mulher preta.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

O graffiti, o design de moda e o meu corpo são as ferramentas que utilizo.

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// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Minha maior motivação é que apesar de saber que ainda vivemos numa sociedade racista e machista tenho a consciência sobre a importância em ter voz e dar voz as mulheres que ainda não se conscientizaram do seu poder, do seu direito e da sua voz.

Me motiva usar a minha arte como mensagem impactante em modificações comportamentais e estruturais para além até do que eu imagino ter alcance. Isso me faz querer pintar e usar os muros como suporte. Essas reflexões que decorrem da minha vivência como mulher negra e também a soma das vivências da minha mãe e da minha avó, enfim da ancestralidade feminina que permeia o meu sangue, me trazem muita força. Minha avó e a minha mãe acabam sendo também as minhas duas maiores inspirações quando o assunto se trata de quais sentimentos e elementos eu preciso resgatar e materializar nas ruas.

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// Como é o seu processo criativo?

Meu processo criativo começa pelas minhas reflexões internas. Faço constantes perguntas a mim mesma diante de tudo o que me afeta. Como eu me sinto? O que me incomoda? Porque isso me afeta dessa forma? Como deveria ser? O que precisa ser falado? O que eu sinto? A partir daí uso palavras chaves que me norteiam como um mapa do caminho por onde devo seguir. Para além das questões estéticas, de militança negra e de feminismo, a arte é o meu instrumento de cura, é através dela que me conheço, me reconheço, me transformo, me conecto as energias ancestrais da natureza e curo as minhas dores. A arte é também a minha bússola, indica o caminho que devo seguir e o meu processo criativo parte justamente desse ponto, primeiro eu me encontro, me conheço, me alinho, e começo a me transformar para só depois me conectar ao outro, e conseguir dessa forma dialogar sobre o que me toca enquanto artista.

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// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Não sei se isso faz eu me manter criativa mas costumo me esvaziar para abrir novos espaços em mim: meditação. E também tenho o costume de escrever no meu livro de artista, conectando vivências, sentimentos e palavras que me norteiam ao longo do dia.

// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Eu não tenho um projeto preferido. Mas tenho feito uma série de desenhos com giz pastel oleoso que tenho gostado muito. Isso porque são o inicio de simbologias ancestrais contemporâneas que me vem a tona de maneira muito natural e que eu ainda não sei de onde vieram e o que significam.

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

O momento decisivo foi quando eu recebi alguns desenhos feitos por crianças de uma escola pública em BH que se inspiraram nos meus graffitis. Eu tinha acabado de começar a pintar nas ruas. Nesse momento caiu a ficha da dimensão da minha responsabilidade enquanto artista negra e do meu papel diante da nossa sociedade racista e machista. Isso me dá força para gritar quando necessário, para entrar em lugares sem pedir licença e para continuar a usar a arte como a minha fala e como instrumento modificador de realidades.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu me inspiro muito em manifestações de variadas vertentes mas quase todas de matrizes africanas. Para além de me inspirar em artistas, escritores, filósofos e etc, eu me inspiro com mais profundidade e verdade em pessoas negras comuns que cruzam o meu caminho no dia a dia. No percurso dentro do busão, entre um graffiti e outro, no perfil do Orí da vozinha que benze a criançada do bairro. As vezes a combinação de cores da camisa que o velhinho, vendedor de frutas na rua do meu bairro, usou em determinado dia me inspira a criar até um conceito e sentimento por trás das cores que utilizo em um graffiti. Eu sou uma eterna flâneur. Estou atenta aos suspiros de inspiração, impressões e as mensagens endereçadas que me chegam (e elas sempre chegam!) algumas sem remetente mas com muito simbolismo significado e força ao longo do meu cotidiano.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sim. Sinto, mas não exclusivamente por conta do meu trabalho ou por conta dos colegas em si. E sim porque vivemos numa sociedade estruturalmente machista, homofóbica e racista. Os homens, dessa forma, são desde cedo ensinados em sua esmagadora maioria a nos silenciar a todo momento, a não escutarem, a interromperem a nossa fala, ridicularizando e questionando a validade do que apresentamos enquanto mulheres. É o pai, é o amigo, o tio, o vizinho. Não precisamos ir longe. É importante que ao se reconhecerem parte de uma estrutura machista os homens tenham humildade e consciência necessária para se calarem e escutar o que temos a dizer, já que essa desconstrução masculina parte de um processo primeiramente de escuta e ser um homem que apoia o feminismo já te obriga a ter essa postura. Quando isso não ocorre talvez seja necessário rever e refletir sobre a sua real empatia a causa feminista.

// E o que te faz feliz?

Viajar para perto do mar, surpresas boas, abraços com afeto, saber que a minha família está bem e feliz, estar em contato profundo com a natureza e com as minhas raízes.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Coragem e acreditar no que sente. Porque quando a sua luz começar a brilhar muitos virão tentar te ofuscar. Portanto não seja a primeira a se sabotar.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Nesse ano pretendo fazer a minha primeira exposição solo e resgatar o meu lado como criadora no setor do vestuário que é a minha origem como pesquisadora acadêmica. Muita gente não sabe mas eu sou designer de moda formada pela UFMG, e antes do graffiti eu já trabalhava como estilista e modelo, então nesse ano se preparem para novidades para além dos limites de muros e telas!

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