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Crica
Monteiro
Brasil
vivendo em Embu das Artes . SP
33 anos . designer . gaffiteira . ilustradora

Eu me chamo Cristiane Monteiro mais conhecida como Crica, ou seja, meu vulgo/apelido, que assino em todos os meus trabalhos, do graffiti à ilustração. Meu interesse pelas formas, cores e artes vem através da minha mãe que trabalhava com artes e artesanatos na minha infância, então o desenho sempre foi parte do meu cotidiano. Comecei a fazer graffiti na minha adolescência e aí foi paixão a primeira riscada de spray na parede. Muito curiosa e inquieta com o mundo criativo, caí nas garras do design e me formei em Design de Interfaces Digitais. E nesse leque eu também pude juntar o meu outro amor, a ilustração.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Das latas de spray ao computador. Acho que se temos tantas possibilidades de explorar diversas coisas, e materiais e suportes diferentes, por que não? Meus gostos principais são pelas latas de spray, canetas Poscas, acrílicas, tinta vitro, aquarelas, giz pastel, colagens, e outros materiais como apliques, tecidos e linhas. Minha paixão também é fazer as minhas pinturas digitais e os vetores. Meus suportes são muito variados como os muros, telas, papeis e objetos.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Atualmente desafios. Observo muito o que o mundo está falando e contextualizando, isso são fontes de inspiração. Ver a força dos negros(as) no Brasil indo a luta por menos preconceito. Assistir a vídeos, vejo muita fotografia, ouvir música, observar ao meu redor ou conversar com alguém.

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// Como é o seu processo criativo?

Dependendo do trabalho e do que vai ser dito, gosto de fazer pesquisas, como por exemplo trabalhos que exige muito do lado conceitual. Já o lado mais autoral, esse eu posso ir por muitos caminhos, então tem momentos que na mesma hora que eu estou fazendo alguma arte, que era para ser de um jeito vem outras ideias complementares.

Tem vezes que acordo cheia de ideias e costumo anotar tudo, eu chamo de nuvens de ideias. Já tive fases de desenhar coisas que vinham em sonhos. É engraçado mas eu tenho alguns “insights” quando dou pausas, para fazer alguma tarefa de casa, por exemplo lavando a louça.

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// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Sempre tenho um Sketchbook a mão, vivo rabiscando. Costumo fazer tudo a mão primeiro e me permito desenhar coisas variadas, elementos e formas.

Procuro me desligar do mundo de vez em quando, percebi que isso me ajuda muito. Paro para momentos de leitura e de conversas com a minha mãe ou com alguém que eu goste de conversar. Faço pausas frequentes durante os trabalhos. Brinco com os meus gatos e isso me relaxa. Gosto de pilates e faço em casa mesmo, de vez em quando, porque ainda tenho dificuldades para reservar um tempo específico para isso...

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Nossa! Foram tantas fases e mudanças que não tenho um trabalho que eu mais goste. Acho que todos me levaram para caminhos muito bonitos na minha trajetória enquanto grafiteira, ilustradora e designer. Mas os que me marcaram mais foram os que me deram mais trabalho como muros gigantes que já pintei como por exemplo o da Av. 23 de Maio em São Paulo (Apagada pela nova gestão de SP). As viagens e os intercâmbios culturais como o BTC (Bahia de Todas as Cores), Recifusion em Recife - PE, Street of Styles em Curitiba - PR e o Meeting of Styles Brasil no Rio Grande - RS.

E depois o mais recente o projeto #donasdarua da Mauricio de Sousa Produções que de verdade só de lembrar já fico emocionada.

E o meu mais novo projeto que estou amando construir que é o meu canal no YouTube - puxem a cadeira e seja bem vindos(as). Lá eu falo do graffiti, das minhas vivências, curiosidades, coisas relacionadas ao meu universo criativo, e ainda tenho mil ideias para serem colocadas em prática por lá.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Sim! Foi exatamente quando eu decidi que iria trabalhar somente com as coisas que eu mais amo, eu estava a bastante tempo no mercado do design e trabalhava em uma empresa de e-commerce e em paralelo fazia os meus trabalhos como freelancer para outras pessoas, fazendo ilustrações e outros trabalhos de criação. Quando eu percebi que não tinha mais sentido o que eu estava fazendo para a empresa na qual eu trabalhava, foi o meu “start”. Já estava me preparando e em 2014 saí da empresa. Foi assim que comecei a colocar em prática ser artista independente, ser freelancer e me dar o direito de explorar novos rumos. Foi um risco que eu corri e com certeza eu me arriscaria novamente, sou feliz no que me proponho a fazer.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

As minhas referências são tão diversas que as vezes até me perco. Gosto muito de ver trabalhos e técnicas diferentes na fotografia, na ilustração e no próprio graffiti. No início eu fui bem influenciada pela cultura hip hop e os meus primeiros exemplos de grafiteiros(as) foram a Miss Van, o Lazoo e o Kongo todos grafiteiros europeus e que até hoje eu admiro muito. No graffiti brasileiro gosto muito do grupo OPNI, da Rizka, cada um com suas particularidades e estilos bem marcantes, retratam também o negro. O Crânio com seu discurso falando sobre o Brasil, o povo e os índios. A Shalak Attack e o Bruno Smoky, pela a técnica, pela forma como pintam, o estilo e as cores que usam. Ainda No mundo, ainda no graffiti, gosto bastante de Sofles, Tati Suarez, MadC, Chikita e Toofly. O Ilustrador e grafiteiro Shiko. Na ilustração gosto muito do trabalho da Tati Ferrigno, da Jennifer Healy, da Loish, GDBee e da Sara Golish. As aquarelas do Victor Octaviano e da Juliana Rabelo. As pinturas do artista plástico Frank Morrison. O mestre Salvador Dali é sempre uma fonte de inspiração para mim e o surrealismo que me faz pensar muitas possibilidades de criar. Acaba que tudo que vejo, percebo e sinto sobre o trabalho das outras pessoas, agrega mais na minha forma de pensar e criar.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existir ainda existe sim! No meu caso, no início eu não sentia, porque quando comecei a pintar na rua foi de livre e espontânea vontade minha, tive o apoio dos meus pais sempre. Acredito que a minha postura me ajudou bastante. E alguns amigos homens me viam pela minha capacidade e não o fato de eu ser mulher. Com o tempo esse quadro mudou. Fui dando conta que sempre eram poucas mulheres que chegavam a conquistar esse espaço que eu já havia conquistado, dentro do graffiti, sendo designer ou ilustradora. Percebia que as mulheres eram bem poucas. Quem acabava se destacando sempre era comparada com um trabalho feito por um homem.

No graffiti especificamente não namorei com grafiteiro porque se caso um dia viesse a acabar, eternamente eu seria lembrada da seguinte maneira - “Ah você é a ex do fulano” e isso realmente acho péssimo, principalmente porque a sua assinatura ficaria esquecida, o seu nome nem seria lembrado ou citado. Sobre tudo, o tempo passou, eu consegui fazer o meu trabalho do jeito que eu gostaria que ficasse, sou bem feliz com os resultados que hoje eu crio, mas mais uma vez fui reparar que quando uma mulher começa a se destacar passa a incomodar alguns.

Além do graffiti, temos muitas mulheres incríveis no design e na ilustração mas ainda pouco reconhecidas, seja no salário, nos cargos importantes, em destaque e ainda precisam disputar esse espaço com os homens.

Ainda é preciso mudar muitas coisas!

// E o que te faz feliz?

Acordar todo dia e saber que tenho mais uma chance!

Trabalhar com o que eu mais gosto de fazer. Poder estar com as pessoas que eu amo. Ter meus amigos verdadeiros preservados. Viajar e conhecer outras culturas. Representar a cena do graffiti feito por mulheres. Colocar uma música e dançar sozinha. E brincar com os meus gatos.

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// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Tenha coragem e persista. Faça as coisas com verdade. Não procure se contaminar com pessimismo, achismos, energias negativas, procure um foco e vá, porque o céu é o limite.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Vou voltar a ministrar oficinas e workshops de graffiti. Tenho um projeto de estampas que estou colocando em prática e logo vou divulgar. Tem os jeans customizados que já estão em andamento, coletes, jaquetas e vestidos, tudo feito a mão e exclusivos. Para o meu canal pretendo expandir, tenho muitas ideias entre elas fazer minis DIY sobre aquarelas e graffiti, por enquanto. Estou fazendo uma série nova de releituras dos contos de fadas e uma série nova sobre as grandes mulheres negras.

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