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Claudia
Souza
Brasil
vivendo em Toronto . Canadá
29 anos . ilustradora

Sou a Clau Souza, ser humano que ama a vida, desenho, gente do bem, sorvete de chocolate, viagens e simplicidade. Escolhi ilustração como ofício, porque é uma das coisas que mais me fazem feliz. Nasci na cidade fofa e com os melhores doces do mundo, Joinville - morei um tempo em Curitiba e agora vivo em Toronto no Canadá. Cursei Publicidade e Propaganda, no meio do caminho fiz cursos de Design Thinking e Coolhunting e agora o Schoolism.

Trabalho com ilustração há 10 anos, mas não nasci sabendo o que queria fazer da vida, tudo foi acontecendo aos poucos, do jeito que tinha que ser. Trabalhei em agências de publicidade, depois parti para freelancer, abri empresa com o meu marido e hoje temos o Estúdio, onde trabalho com as mais diferentes marcas e projetos + o Curso Carreira Ilustrador, voltado pra quem quer começar a trabalhar na área + a Lojinha, onde vendo posters com minhas ilustras e recentemente abrimos a parte de revenda para outras lojas do país.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Na ilustração sou uma vector lover, como chamam por aí. O vetor sempre foi o meu preferido, principalmente pela simplicidade das formas. Mas apesar de trabalhar principalmente com o digital, não abro mão do bom e velho papel e lápis, o azul de preferência.

// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Olhaí que essa é fácil… a vida! Pode ser meio piegas e subjetivo, mas a vida é pura inspiração, desde uma criança brincando no metrô até uma florzinha no meio de um matagal - tudo conta. Claro que tenho os meus temas preferidos pra trabalhar: fé e infância acertam direto no meu coração. Mas pra mim tudo é motivo pra me inspirar, não tenho dúvida.

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// Como é o seu processo criativo?

Sou meio caxias quando se trata de processo criativo! Talvez porque desde o começo de carreira sempre trabalhei mais com marcas do que com projetos pessoais, então aprendi a ser bastante organizada com o meu processo. Tudo começa com um briefing bem definido, o que também serve para projetos pessoais. Depois parto pra geração de ideias e só aí para os rafes e ilustras finais.

Quando trabalho com clientes, a magia está em fazer com que eles acompanhem tudo. Isso é bem importante pra mim: fazer com que as pessoas entendam o que eu faço e sejam parte do projeto. É um aprendizado de duas vias. Muitas vezes o criativo pode ser abstrato demais em relação a criação e isso, definitivamente não é pra mim! Meu trabalho tem que aproximar as pessoas, não me colocar numa posição gélida e distante. Como diria uma das minhas escritoras e ilustradoras preferidas, Maitena: as pessoas inalcançáveis nunca são alcançadas por ninguém!

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Ter mudado de cidade e depois de país foi bem importante. Você enxerga o mundo de um jeito diferente quando está em movimento e isso afeta o seu trabalho. Principalmente porque o ilustrador tem um trabalho mais solitário e tem sérios riscos de virar um ermitão!

Eu também vejo o estudo como uma fonte inesgotável de criatividade: acompanhar ilustradores que eu admiro e aprender com eles dá muito combustível.

Outra coisa importante e que eu aprendi com meu professor de redação publicitária, o Antônio Pinto - lá nos primórdios da faculdade: pra criar tem que ter repertório, para fazer as conexões. Curtir cinema, assistir shows, fazer um curso de origami, aprender a tocar ukulelê, saber sobre cultura oriental, jardinagem, fazer meditação. Não dá pra ficar obsessivo e consumir só conteúdos de ilustração, afinal aquilo é a interpretação de alguém. Pra mim tudo está conectado e tudo pode ser usado no trabalho. É como se eu tivesse um armário e na hora de criar eu abrisse todas aquelas portas e gavetas pra ver se tem algo que pode ser útil. Na maioria das vezes dá certo, em outras só cai uma pena, uns pregos no chão e é isso.

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Oxi que tem muitos. Não consigo dizer qual é o preferido de todos os tempos! Amei criar a Coleção Bença pela dobradinha fé e brasilidade, o projeto da Escolinha do Professor Raimundo tem uma relação forte com a minha infância e o antigão O Brasil e a Rua, também por ter essa temática bem tupiniquim. Mas também me diverti a beça criando personagens infantis para a Fundação O Boticário e outros dois projetos bem recentes: um para o meu amigo e publicitário Dil Mota e o outro para o Hotel Armação, de Porto de Galinhas - um painel gigante para a área de diversão das crianças. Nesses dois trabalhos eu contei com pessoas que não tem medo de ideias, que pegam junto e que confiaram no meu trabalho completamente.

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// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acredito que tive vários e que a gente sempre tem que tomar decisões que afetam nossos rumos, é diário. Mas se fosse pra citar um, seria o primeiro grande momento decisivo e que a primeira vista pode ser meio deprê, mas hoje enxergo como um divisor de águas!

Eu consegui uma vaga como ilustradora num estúdio de ilustração e animação, mas o acordo era que, primeiro eu começaria dando suporte na área de planejamento até eles encontrarem uma outra pessoa e depois de 3 meses (no máximo) eu iria para o setor de ilustração. Eu deveria ter sentido o cheiro, mas eu não tinha nenhuma experiência, estava no auge dos meus 19 anos e totalmente deslumbrada com a ideia de trabalhar full time com ilustração. Só que na primeira semana lá, recebi uma ligação da dona da melhor agência da minha cidade - me oferecendo uma vaga como assistente de criação e eu não aceitei. Me mantive firme, porque tinha me comprometido com aquele “acordo” maluco e queria ser ilustradora. Desliguei o telefone com o coração na mão porque era uma oportunidade única, mas orgulhosa porque tinha tomado a decisão certa.

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Duas semanas depois o dono daquele Estúdio veio falar pra mim que se precipitou na minha contratação e que na verdade não poderia me colocar na área de ilustração e - pausa dramática - ele tinha que me mandar embora. Um baita soco no estômago. Lembro de ter ficado numa sala vazia, chorando, me sentindo a última das criaturas. Na época eu pagava minha faculdade e o desemprego não era uma opção. Pensei que tinha feito tudo errado. Apesar do tiro ter saído pela culatra, a decisão que tomei de não ter aceitado a proposta da agência veio de uma verdade, que muitas vezes não é fácil de encontrar. Alguma coisa dentro de mim mudou, foi um estalo tímido, mas foi: senti que a ilustração era o meu caminho.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Eu gosto de pensar que as minhas influências não são só ilustradores. Pode até parecer loucura.

Eu gosto muito de cinema e adoro a relevância das cores nos filmes do Shyamalan e os personagens com muito humor negro e formas diferentes dos filmes do Tim Burton. E por sinal, ele desenha muito! O brasileiríssimo J.Borges tem um trabalho que me emociona muito.

De ilustradores amo o trabalho da Mary Blair, Bobby Chiu, Stephen Silver, Catarina Sobral, Dave Perillo, Sanjay Patel.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Sinceramente, acredito que a mulherada está tendo cada vez mais espaço para se expressar, sem medo de serem felizes! Mas por experiência própria, a única área que noto uma certa resistência é na publicidade. Desde a época da faculdade, as meninas se voltavam para áreas como atendimento, mídia. Problema nenhum, mas existia um certo receio de se arriscar no meio de caras descolados, com as sacadas e a malandragem! Na criação ainda são poucas mulheres que se aventuram e por vezes já vi peças que nitidamente só tiverem um olhar masculino. E o conjunto somaria tanto, uma pena. E isso se reflete na contratação de ilustradoras também.

Conheço ilustradoras com um traço incrível, que fariam miséria numa campanha de carro, cerveja. Mas elas também me falam que não tem muita vez, mas que isso é meio velado. Muitas vezes a mulher na criação acaba criando só para clientes com público feminino ou infantil. Tem muita estrada pela frente nessa área. Mas consigo notar que as coisas estão mudando de figura. Cabeças como a do meu amigo Bruno Regalo, diretor de criação da CandyShop, de Curitiba - é um exemplo. Ele me chamou pra ilustrar alguns anúncios para a Fiat e lembro de ter me esforçado para dar uma abordagem mais séria, justamente porque trabalho muito para projetos infantis e ele só falou: tá muito legal, mas desenha do teu jeito, com aquela pegada divertida! Foi um resultado inusitado, diferente do que estava sendo feito por aí pra esse tipo de cliente. Resultado: os anúncios saíram na Archive!

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// E o que te faz feliz?

Estar viva!

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações ?

Não tenham receio de expor suas ideias, de correr atrás do que realmente querem fazer - independente se for uma área tomada por homens ou não. Eles não são rivais, mas às vezes precisam de um empurrãozinho pra entender que estamos no mesmo barco.

Paciência, dedicação, foco, fé e paixão. Keep going, girls.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, mas não tenho muitos detalhes. É um projeto de um livro infantil que vou ilustrar com uma amiga. Estamos ainda nas primeiras conversas, mas já incluí o projeto na agenda - o que pra mim significa que ele vai sair do papel, coisa boa!

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