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Clarissa
Paiva
Brasil
vivendo em Brasília . DF
28 anos . artista

Quando era criança, eu queria ser astronauta, de verdade. Adorava aprender sobre os planetas, as luas, as galáxias. Um ano até ganhei um pequeno telescópio de presente de natal. Infelizmente a escola me ensinou que eu era péssima em matemática, e em física, pior ainda... Vamos fingir que foi só por causa disso que eu não acabei indo para a NASA.

Também gostava de ballet, fazia aula várias vezes por semana durante anos, mas logo meu corpo veio e me mostrou que eu tinha a elegância de uma pata, e os pés de uma também. Mas, para a minha sorte, eu ainda tinha a arte visual, algo que ninguém conseguiu tirar de mim, por mais que tentassem.

Tive muita sorte pois, ainda pequena, tive a chance de ver grandes obras de arte em grandes museus, ter incentivo na escola, entrar em contato com culturas diferentes, fazer amizades com outras crianças que vieram de outros países, e aproveitei para absorver muito. Logo, voltei para o Brasil ainda adolescente mas com uma visão do mundo, das artes visuais e da cultura, toda junta e misturada.

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// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Ferramentas visuais mais imediatas possível, especificamente ferramentas para o desenho tradicional. Eu penso de forma visual, e o desenho é o jeito mais fácil de extrair os pensamentos da cabeça. Por tanto, todas as idéias, independente de serem gravuras, pinturas, ilustrações, esculturas, etc, vem do desenho.

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// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Não sei dizer exatamente o que me dá motivação para criar. Acredito que seja algo inato do ser humano. Existe uma força criativa dentro de nós que tem a capacidade de nos enlouquecer. Não me lembro de quem falou que a criatividade é uma doença que enlouquece, a única cura é a própria criação, mas eu li isso há muitos anos e me identifiquei.

A inspiração vem de tantos lugares, principalmente de outras pessoas/profissionais criativas, não só artistas. É possível ver inspiração em tudo que eu amo. Eu amo coisas que eu não tive a chance de explorar, como ciências naturais, física, matemática, história. São fontes maravilhosas, pois me tiram do meu lugar comum/zona de conforto.

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// Como é o seu processo criativo?

Varia entre pesquisa, pesquisa, pesquisa e brainstorm, brainstorm, brainstorm. E repete. Eu queria ter aqueles livros de artista maravilhosos e cuidadosos com esboços e anotações com letra bonitinha feitas com canetinhas coloridas, sabe aquela galera do bullet journal, pois é, não sou dessas.

Necessito de um lugar para vomitar o que tem na minha cabeça, e de forma mais rápida e suja possível, para não sumir ou virar outra coisa. Podem até virar, mas tem que ser no papel. É bagunçado e feio e acho que só eu entendo. No papel eu já tenho algo concreto, assim eu consigo desvendar várias formas de aproveitar uma imagem.

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// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Além do processo criativo, eu tento criar situações que saem um pouco da "mesmice'. Mas geralmente, eu acabo voltando depois de um tempo, não tenho jeito. Hoje entendo que tenho que ter um equilíbrio. Por exemplo, o exercício simples de desenhar modelo vivo ou observação parece que alinha os meus chacras, de tão grande a capacidade de tranqüilizar a minha mente. Faço o possível para me manter tranqüila, na medida do possível. Não trabalho bem sob pressão, estressada, ou ansiosa. O próprio processo de feitura me deixa bastante ansiosa. Tenho uns medos não racionais, de não conseguir criar tudo que quero criar, e de fato não consigo. Não tenho mãos, olhos e nem cabeça suficiente, nem se fala em tempo. Gostaria de não ter que dormir tanto.

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// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho uma pintura de aquarela e nanquim que fiz quando eu era adolescente, tinha uns 16 para 17, uma espécie de auto-retrato de uma menina abelha. Ela mudou minha vida mais do eu conseguiria esperar, tanto por razões autorais, quanto por razões afetivas.

// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Quando eu comecei a compartilhar os meus trabalhos na internet. Eu era adolescente, tinha uns 15 anos. Naquela época não existiam muitas redes sociais como hoje, mas tomei coragem, e graças aos primeiros compartilhamentos, me sentia cada vez mais incentivada a fazer o próximo. Incentivou muito a minha produção e acredito que aprimorou muito o hábito de criar.

Um outro momento marcante foi na Universidade de Brasília, quando ganhei um edital em coletivo do Prêmio Marcantonio Vilaça da Funarte. Escrevemos um projeto para o edital e para a nossa surpresa, fomos selecionados. Foi a primeira vez que vi que era possível participar e ganhar editais.

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// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

São uma mistura de referências tradicionais com Arte Pop. Admiro muito os grandes artistas dos movimentos Simbolistas, Surrealistas, Art Noveau e Expressionistas. Minhas artistas favoritas são Kiki Smith, Louise Bourgeois, Kathe Kollwitz, os textos de Fayga Ostrower também influenciam muito. As artistas Low-Brow e de quadrinhos, Gemma Correll, Julia Pott, Polly Norr, Stella Im Hultberg, Tara McPherson.

Minhas referências pop também falam alto. Quando eu tinha 7 anos, minha família se mudou para os Estados Unidos. Lá tive a oportunidade de conhecer crianças de países diferentes. Eu tinha muitas amigas asiáticas e latinas, pois fazíamos aula de reforço de inglês juntas até a 4a série. Tive a televisão americana e a cultura pop colorida, a Disney animada, o choque cultural de comidas japonesas, Sailor Moon, amor a primeira vista, aliás, e video-games.

Foi nessa época que os cadernos de desenho começaram, tinham tantos e pedia pra minha mãe comprar os que eram pautados, por alguma razão eu gostava mais. Eu adorava ciências. O lugar que eu mais gostei de visitar foi o Museu de História Natural. Até hoje é o lugar que eu mais gosto.

Portanto, sou muito grata pelo momento que estamos vivendo agora, é incrivelmente inspirador. Tenho a oportunidade de conhecer artistas maravilhosas, designers incríveis e mentes criativas o tempo todo. Esses dias estava me arrumando e me dei conta de que tudo que estava usando, roupas, acessórios, joias, não só foram feitas por designers maravilhosas, como essas mesmas designers são locais (brasilienses) E queridas amigas.

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// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Infelizmente sim. Como em tantas outras áreas criativas dominadas por homens. Sempre questiono, por que que uma mulher não pode expressar suas paixões sem ser taxada como louca? Já perdi a conta de quantas vezes já ouvi o nome de uma artista e junto com a palavra louca. Uma palavra que nos persegue.

Quando um trabalho é sobre o feminino, só pertence às mulheres? Só porque somos as nossas próprios musas? Não tenho desejos de relatar experiências machistas que sofri durante poucos anos de carreira, prefiro finalizar com mito grego da origem do primeiro desenho: "O primeiro desenho foi feito por uma mulher, que desenhou a sombra de seu amado na parede do quarto antes dele ir para guerra, para não morrer de tanta saudade."

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// E o que te faz feliz?

Criar, ter saúde para conseguir produzir e a sorte de poder viver disso.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações ?

O melhor conselho que já recebi: Faça arte agora com o que você tem em mãos. Acredito que isso vale muito para mulheres. Na minha vida existem muito mais mulheres criativas, fazedores e arteiras do que homens, apesar de ser casada com um. Não espere o momento ideal, o espaço especial, o material profissional. Faça com o material que caiba no seu bolso e com o que você tem agora. Abuse dos recursos virtuais para aprender. Faça arte feminina (*arte feita por mulheres), faça algo, sem pedir desculpas e nem licença. Não tenha medo de fazer algo que não goste. Não existe nada que você possa criar que irá te causar algum mal. Se você não gostar, faça outro. Tente de novo.

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// Você tem algum novo projeto em andamento?

Sim, finalmente estou me aventurando em artes digitais tridimensionais e seus desdobramentos práticos. Acreditava não ter a capacidade de conseguir aprender a mexer em um programa 3D, tudo bem que ainda tenho muito para aprender, mas já consegui realizar mais do que achava possível. Também estou muito feliz com o projeto "Revista Morder" da Silvie Eidam, escrever nunca foi o meu forte mas ela está apresentando uma liberdade maravilhosa para explorar a escrita em conjunto com a obra.

 

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