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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Clara
Zamith
Brasil
vivendo em São Paulo . SP
27 anos . fotógrafa . designer

Meu nome é Clara Zamith, sou técnica formada em Design Gráfico pela ETEC Carlos de Campos e bacharela em Audiovisual pelo Centro Universitário Senac. Fotografo desde os 16 anos, passei por agências de comunicação e publicidade, trabalhei por alguns anos principalmente como tratadora de imagem e sou designer autônoma desde 2011. Mas foi a partir da minha primeira experiência como arte-educadora de exposições e oficinas, em 2014, que tudo isso ganhou contexto e muita utilidade para o que eu realmente gosto, que é propor experiências imagéticas com outras pessoas.

Clara Zamith por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Câmera DSLR, câmera de celular, programas de criação gráfica e de edição de imagem, vídeos, câmaras escuras, molduras artesanais, dispositivos óticos, lanternas, velas, rebatedores...

Clara Zamith por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Acho que minha formação técnica anterior à graduação me manteve ainda apegada à ideia de legibilidade. Acredito que a melhor contribuição que podemos dar, nos nossos círculos familiares, sociais, profissionais, é promover a autonomia e colaboração. Durante meu trabalho como educadora, especialmente nas unidades do SESC, me inspirava muito contribuir com outros projetos dos meus colegas e testemunhar a apropriação do público sobre os espaços e nossas propostas. Não era sobre “ensinar” o outro, mas provocar possibilidades, assisti-las e participar de seus desdobramentos, geralmente imprevisíveis. Quando posso fazê-lo com (re)construção de imagem, é ainda melhor.

Clara Zamith por Projeto Curadoria
Clara Zamith por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Costumo me dispor como colaboradora, especialmente na produção gráfica e no registro documental. Gosto de ouvir do começo ao fim sobre as ideias, como o proponente visualizou aquilo, quais suas referências e partir para o passo seguinte, tanto com refinamento de detalhes como problematização, como se eu fosse o público. Parece óbvio, mas não é; tem sido claramente opcional produções feitas para si ou feitas para o outro. No campo da educação não-formal, eu escolhi o outro, o visitante. Na minha produção fotográfica e documental, eu escolho a mim e ao artista com quem colaboro.

// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Tenho um fascínio por luzes que invadem a casa ou o cenário por frestas, refração e reflexos. Geralmente não fotografo esses momentos (são muitos), mas me entretenho e gosto de comparar com as variações do familiar ao longo das estações do ano. Vejo como um exercício de curiosidade e abstração. Na hora do trabalho, durante uma gravação, ensaio ou mesmo fotografando na rua, parece intuitivo achar enquadramentos e iluminação interessantes — mas é a prática. A maior parte da minha produção fotográfica são espontâneas. Você acha que faz sem pensar, mas é porque está o tempo todo fazendo o exercício de estar atento.

Clara Zamith por Projeto Curadoria
Clara Zamith por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

Tenho uma série de produções que chamo de “O trabalho do outro”, mas vieram de distintas demandas e épocas. Desde a faculdade, gostava muito de me ocupar dos making-ofs das nossas produções de filmes, às vezes mais do que da direção de fotografia em si. Recentemente, determinei um foco de documentar processos artísticos e criativos sempre que possível; um coletivo de educadores, uma artista-pesquisadora, tatuadores, cozinheiros, profissionais do teatro, catadora de lixo reciclável, projetos de TCC... Eles me colocam no meu lugar favorito que é o documentário, sem controle de cena, semelhante às fotografias de rua espontâneas. Meu “jogo” é não abrir mão do cuidado estético, por menos recurso e tempo que se tenha para pensar.

Clara Zamith por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Em 2015, colaborei com o coletivo CINCO, integrado por Amanda Gutiérrez Gomes, Bianca Mafra Elia, Davi Firmino, Giovana Ferrari e Julia Moutinho Gallego. O documentário acompanhava alguns trabalhadores da Galeria Presidente, onde há uma grande concentração de imigrantes vindos de países africanos. As locações de entrevistas eram tão pequenas que concluímos que o equipamento ideal era o menor e mais básico: minha câmera DSLR, uma lente pancake 40mm e um tripé bem humildinho que pude comprar na época. Foi uma produção muito bacana e eles conseguiram rodar bastante com o curta-metragem em vários festivais. Ali deve ter sido a vigésima confirmação que as limitações de um equipamento são muito relativas, e produções pequenas do tipo eram muito possíveis. Cheguei no “Filme Índigo”, outro documentário que colaboro com Kiri Miyazaki e Amanda Cuesta, com muito mais confiança e menos desculpas para não arriscar com o que temos.

Clara Zamith por Projeto Curadoria
Clara Zamith por Projeto Curadoria
// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

(Essa é a pergunta mais difícil de todas, com certeza!) Me ocorre agora que eu passei muito tempo impactada pelos vídeos de Vincent Moon, muito antes de sequer entrar na faculdade de Audiovisual. Esteticamente, não é uma influência direta, mas me inspirou muito a ideia de um fotógrafo/videomaker que acompanha um músico pelas ruas, sem corte, transformando o enquadramento o tempo todo e, ainda, evitando tropeços, postes e ladrilhos soltos. Tenho uma forte queda por músicas folks, e foi assim que cheguei no Vincent Moon. Andrew Bird é meu mais insistente em playlists, porque estou sempre deslumbrada com as imagens que ele cria com palavras. Gosto da ideia de ter inspirações para as imagens que não são imagens, mas sons, textos, pessoas. Por muito tempo, legendava minhas fotografias com versos de música, e elas com certeza remeteriam a toda uma atmosfera que eu tentei registrar, ou responderiam às músicas como ilustrações do que ouvi.

// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Pessoalmente, percebi mais desconsideração por mulheres do que impedimento delas no trabalho, como se fossem menos aptas e menos dispostas, ou sequer existentes. Comecei a sentir as coisas mudarem não apenas com mais presença delas em todo departamento e nível de comando, mas quando meus professores de fotografia deixavam claro que havia tantas grandes artistas mulheres como artistas homens para termos como referência. Essa demonstração de respeito vai de aposição direta às primeiras impressões que tive no mercado de trabalho, mas é só o mínimo. Por mais hostis que algumas áreas, empresas e pessoas sejam às “mulheres deslocadas”, ainda mais na fotografia e no cinema, fico feliz que haja sempre mais delas para “perturbar” esses ambientes.

Clara Zamith por Projeto Curadoria
Clara Zamith por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

Participar de projetos coerentes, com equipes comprometidas, responsáveis e respeitosas com o que cada um tem a oferecer. E é uma briga interna com nossas próprias ansiedades e perspectivas do que é certo e melhor, mas me percebo feliz quando a satisfação com a criação supera essa briga e chegamos num resultado único e irreprodutível.

// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Encontrem seus pares. Partilhamos muitas semelhanças sobre sensibilidade e experiências de vida, mas ainda são pessoas específicas que irão dialogar com nossas crenças mais pessoais de forma profunda. Mesmo em projetos individuais, trocar expurgos, revoltas, celebrações, esperanças e ideias (inclusive as ruins) expande demais nossa visão do mundo e de nós mesmas.

Clara Zamith por Projeto Curadoria
Clara Zamith por Projeto Curadoria
// Você tem algum novo projeto em andamento?

Desde o segundo semestre de 2017, sou a diretora de arte, fotografia e montagem do “Filme Índigo”, apelido para o trabalho de conclusão de curso de Kiri Miyazaki, onde a Amanda Cuesta realiza a produção executiva. Kiri é uma pesquisadora e artista que aprendeu e tem desenvolvido aqui em São Paulo o tingimento natural a partir de uma planta japonesa, que resulta numa intensa cor azul. Temos acompanhado desde a germinação, crescimento das plantas, transplante, compostagem e, no momento aguardamos ansiosas o momento de registrar o tingimento em si. Tem sido uma experiência sobre leveza, feminino, saúde mental, futuro do trabalho, a espera e o tempo da natureza. Projetos assim me fazem perceber a fotografia e o cinema como meros dispositivos para, na realidade, estar presente diante da criação e resultado do afeto.

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