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MAPEAMENTO DE PERFIL DE
MULHERES CRIATIVAS BRASILEIRAS
DO PROJETO CURADORIA
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*O resultado será divulgado em forma de infográfico neste site
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Cintia
Caroline
Brasil
vivendo entre Rio de Janeiro e Belo Horizonte
31 anos . designer

Olá! Meu nome é Cintia, e sou uma inquieta por natureza. Desde muito nova, a curiosidade e o novo me motivaram muito. Aprender coisas novas, me permitir descobertas, sempre foram um vento maravilhoso sobre meu corpo.

Venho de uma família de empreendedores, entre pais, tios e avós. Meu avô, José, sempre foi uma grande inspiração pra mim. Era um multipotencial, e a cada dia estava realizando um novo projeto, desde fazer shampoo natural a criar colares e bordados.

Criar é meu fluxo. É quando me sinto mais conectada comigo mesma e com o universo. É como se meu corpo estivesse sorrindo por dentro e agradecendo.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// Quais ferramentas você utiliza para se expressar?

Eu utilizo o que estiver ao meu redor. Não tenho regras ou limites para me expressar. Seja um tecido, papel, a própria parede de casa.

Mas tenho muita facilidade para brincar com os tecidos. Acredito que por ter sido criada entre linhas, agulhas e tintas serigráficas, por conta da confecção dos meus pais, que existe desde que eu nasci, é muito natural pra mim me expressar nessa superfície.

Minha brincadeira preferida quando criança era justamente criar as roupinhas dos meus bonecos. Era uma diversão tão grande e um momento de muito prazer naquela criação. E eu queria dividir com todos os amiguinhos. Sempre levava uma sacola de tecidos para a escolinha, no dia de levar o brinquedo preferido e, ali, convidava todo mundo a criar junto comigo.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// Qual sua maior motivação para criar? O que te inspira?

Simplesmente tudo me inspira. Desde um sorriso que recebo na rua, até a temperatura do sol, as nuvens, o mar. Encontro na natureza e na conexão com as pessoas muito da minha inspiração.

A minha maior motivação é saber que estou entregando muito de mim pro mundo. É colocar pra fora um pouco do que eu desejo pra mim e para os outros. É poder levar amor e boas energias em cada peça e cada produto da Costuras.

E, o mais importante, no caso específico da Costuras, saber que tenho a oportunidade de colocar a inclusão e acessibilidade em pauta e poder fazer a diferença no dia a dia de uma pessoa deficiente visual. Quando recebo pedidos e relatos do quanto um produto da Costuras emocionou ou fez a diferença para uma pessoa cega, sinto que estou no caminho certo e essa é a minha maior motivação para continuar.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// Como é o seu processo criativo?

Meu processo é muito natural e fluido. Sou inspirada pelo que está ao meu redor, vou criando mentalmente, e depois só coloco pra fora tudo o que está dentro de mim.

O som do mar, a cor, as sensações, já me fazem pensar em um produto ou uma composição. E vou desenvolvendo essa ideia mentalmente. Quando eu realmente sento para colocar no papel ou no computador uma criação, ela já está praticamente pronta.

É claro que, ao colocar pra fora, muitas vezes a ideia fica bem diferente do que estava na mente. E eu acho isso maravilhoso. Vou me permitindo adaptar, experimentar, testar em todas as etapas do processo. Tem produto que eu faço somente um protótipo ou um teste e já sei que ele está prontinho pro mundo. Já outros, eu mudei de material e suporte algumas vezes e fui experimentando diferentes processos até alcançar algo que me encantasse ou enchesse meu coração de alegria.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// O que você faz no seu dia a dia para se manter criativa?

Música. Muita música. Dançar, que é uma grande paixão e é algo que deixa meu corpo leve e feliz

Pratico atividades e pequenos hábitos que me permitam uma conexão maior comigo mesma e com o universo. Coisas bem simples, mas que fazem uma diferença enorme na minha rotina. Todos os dias na parte da manhã tento fazer minha prática de yoga. Em algum momento do dia, tento sentir o mar, tenho esse privilégio da vida, a poucos metros de casa. Brincar com as gatinhas, cuidar das plantas. Sentir o calor do sol e o vento no rosto. Fazer um passeio de bicicleta e tomar uma água de coco.  Conhecer projetos, artistas e trabalhos novos.

Uma dessas coisas ou um pouquinho de cada, já faz meu dia muito mais criativo e produtivo.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// Quais os seus trabalhos ou projetos preferidos? Qual o motivo?

A Costuras do Imaginário é em si um projeto que me traz muita alegria. Mas uma das coisas que me deixou mais contente quando fiz, foi criar as camisetas da marca todas com identificação do tamanho e cor em braille.

Lembro de uma conversa que tive com o Juarês, um grande amigo, há sete anos atrás. E, naquele tempo, eu nunca imaginaria que uma pessoa cega também teria interesse e mais, direito, de saber a cor que está usando. Quando ele me contou que sim, ele gosta de usar azul em determinados dias e verde em outros e que ele fazia isso decorando todo o seu guarda roupa (a blusa verde tem determinada gola, a azul tem aquela manga diferente), eu tive a certeza de que iria desenvolver roupas já com a identificação dessas cores em braille.

E hoje, além das camisetas, a cada compra na loja, um kit de etiquetas com diversas cores em braille é doado a uma pessoa com deficiência visual, para que ela possa etiquetar suas roupas, saber e escolher, de forma independente, qual cor ela usará no dia.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// Você teve algum marco importante na sua carreira ou um momento decisivo? Como isso influenciou sua trajetória?

Acredito que para a trajetória que construí hoje, tive três momentos muito importantes:

1- O primeiro foi a morte do meu primo, com apenas 20 anos de idade, em um acidente brincando com os amigos. Neste dia, eu senti a fragilidade da vida e comecei a entender e perceber, de verdade, o quanto cada dia era único. Cada momento. E, a partir daí, decidi que iria fazer meu próprio caminho nessa vida. Minhas escolhas. Iria viver meus dias felizes e fazendo o que acredito verdadeiramente em meu coração.

2- Eu estava desenvolvendo um livro de design para a pós-graduação e, nesse livro eu criei um personagem que era fotógrafo. Com isso, a busca dele pelo mundo era muito através do olhar. Todas as suas descobertas eram pela visão. Um dia, como que em um click, eu me perguntei: e se ele não enxergasse? Como seria essa busca pelo mundo? Desde então, eu não parei de estudar e me envolver com o universo das pessoas cegas ou deficientes visuais. Já fiz alguns trabalhos em cocriação com eles e em 2016 surgiu a Costuras, que veio para colocar em forma de produtos todas as ideias de inserção do braille em nosso cotidiano.

3- Eu sempre, sempre, quis trabalhar em algum projeto meu. Algo que eu tivesse autonomia para criar e colocar mais de mim pro mundo. Eu nunca pensei: quando formar, quero trabalhar em tal empresa. Eu sempre pensava: quero abrir meu próprio negócio. Então, o último momento mais decisivo e talvez mais importante, foi ter tido a coragem de largar meu emprego fixo, de vários anos, pra dedicar completamente ao meu projeto e ao meu caminho. Foi a melhor escolha que fiz.

// Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete no seu trabalho?

Gosto muito do trabalho do Arthur Bispo do Rosário, Nick Cave Art, Björk, Chimamanda, dança contemporânea como um todo, mas em especial, o Grupo Corpo. Trabalhos circenses, como Cirque du Soleil. Amo grupos de batalha do passinho e artistas de rua. E hoje, estou apaixonada pelo trabalho com cerâmica desenvolvido pelas mulheres cegas, do Lar das Cegas, em Belo Horizonte.

O que me arrepia é ver pessoas fazendo o que gostam, aquilo que sentimos que vem da alma. Então, basicamente todo mundo que vejo fazendo um trabalho autêntico e que percebo que está entregando muito de si, me aquece o coração. Como aquela música da Elza Soares, em que ela fala que irá cantar até o fim. Quer uma entrega maior que essa? É muito inspirador.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// Ainda existe algum preconceito em relação a mulher se expressar livremente? Você sente isso no seu trabalho?

Existe, claro. Se existe preconceito até mesmo na forma de nos vestirmos, imagina também em nossas atitudes? Somos julgadas o tempo inteiro. Eu sinto isso diariamente, independente de ser no trabalho ou não, de ser comigo mesma ou com uma mulher ao lado. Temos que acolher umas as outras e nos apoiarmos sempre. Existe uma luta grande ainda pela frente.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// E o que te faz feliz?

O simples fato de acordar respirando. Estar viva já é minha maior felicidade, de verdade.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
Cintia Caroline por Projeto Curadoria
// Quais dicas você daria para outras mulheres potencializarem suas criações?

Troque. Troque ideias com outras mulheres que estão fazendo, troque experiências, compartilhe sentimentos e vivências. Troque sabedorias. Fortaleça outras mulheres. Esteja aberta para o novo, para o desconhecido. Busque um equilíbrio interior, em meio a tanta pressão que o mundo nos cobra. Eu tento esse equilíbrio através da meditação e yoga, mas cada uma encontrará uma forma única. Não permita que outras pessoas digam como você deve se comportar, agir ou fazer. Siga a sua intuição e os seus desejos. Seja livre, acima de tudo.

// Você tem algum novo projeto em andamento?

A Costuras tentará sempre trazer algo maior e ainda mais significativo, no que diz respeito à inclusão e acessibilidade. Provavelmente, em 2018, iremos fazer uma campanha colaborativa para alcançar alguns projetos que irão permitir maior qualidade de vida à pessoas cegas em Belo Horizonte e devo lançar o site da marca, que terá como um dos pontos principais, histórias e relatos de pessoas cegas, compartilhando um pouco das suas vivências.

Cintia Caroline por Projeto Curadoria
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